O sonho do emagrecimento, por estética ou saúde, fica cada vez mais caro no Brasil. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) proibiu a importação de canetas emagrecedoras produzidas com tirzepatida no Paraguai, mesmo com receita médica e para uso pessoal. Assim, pacientes precisam gastar cerca de três vezes mais para seguir com o tratamento em Mato Grosso do Sul.
Na última quinta-feira (20), a Anvisa proibiu os produtos T.G. 5, Lipoless, Lipoless Eticos, Tirzazep Royal Pharmaceuticals e T.G. Indufar. Segundo a Agência, eles não têm registro sanitário no Brasil, então, não tiveram a qualidade, eficácia e segurança de uso avaliadas no país. Antes, a importação era permitida apenas com prescrição de um médico e para uso exclusivamente pessoal.
No mesmo dia da proibição, jovem campo-grandense de 28 anos, ouvida pela reportagem, estava em Pedro Juan Caballero. Ela comprou e passou a fronteira com canetas de Lipoless (mesma composição do Mounjaro) em quantidade suficiente para seis meses de tratamento. “Eu trouxe porque já tinha até comprado. Não sei o que vai acontecer nesses meses, mas acredito que vão manter a proibição e eu acho vou arriscar de novo“.
Quarenta quilos em 16 meses
A jovem de 28 anos perdeu 40 kg em um ano e quatro meses utilizando Ozempic, Mounjaro e outras canetas emagrecedoras similares. Ela pesava 132 kg e atualmente tem 92 kg. Primeiro, a mulher aplicava apenas Ozempic, pagando R$ 1.100 por mês. Depois, passou a utilizar Wegovi, que é parecida com a anterior, porém mais potente e custa R$ 1.800. As aplicações foram acompanhadas por endocrinologista.
Depois de um ano de tratamento e com 25 kg a menos, a médica dela receitou Mounjaro. No entanto, a jovem reclamou do preço e decidiu trazer a caneta do Paraguai. “Ela [médica] disse que não tem problema, só pediu pra tomar cuidado com a procedência, porque às vezes a pessoa não armazena direito”, explica. Então, a mulher passou a viajar ao país vizinho para comprar o medicamento, com preço médio de R$ 310 mensais.
Para entrar com o produto no Brasil, ela carrega uma caixa térmica com gelo e deixa a caneta de Lipoless no frigobar do hotel antes da viagem. “Não fui parada, não teve problema. E eu estava com a minha receita”, explica. Na quinta-feira (20), ela pagou R$ 620 na caixa de 15 mg do medicamento, que é suficiente para dois meses de tratamento. Assim, a jovem comprou três caixas de Lipoless.
Qualidade de vida
Para a jovem de 28 anos, as canetas ajudam a perder peso de forma saudável. “Emagreci bastante, já estava no processo com o Ozempic, mas o Mounjaro acelerou”. Ela diz que o último medicamento diminui a perda de massa magra. “Não uso por estética. Comecei com obesidade e pré-diabetes, faço tratamento médico, mesmo, e a melhora na qualidade de vida é imensurável”, conclui a mulher.
Ela não tem meta específica de peso ao fim do tratamento, dependendo de avaliação médica. No entanto, a jovem campo-grandense acredita que o processo ficará prejudicado caso ela dependa das canetas emagrecedoras mais caras produzidas e comercializadas no Brasil. A mulher também utiliza o produto para tratar diabetes, indicação inicial do Mounjaro.
Outra paciente da Capital, com 66 anos, perdeu oito quilos utilizando os medicamentos. Atualmente, ela está com 62 kg, mas quer chegar a 60 kg. A idosa já aplicou Ozempic e similares ao Mounjaro. Durante o uso desse último medicamento, ela notou alergia e coceira na barriga, o que não acontecia com as primeiras canetas. Mesmo assim, seguiu o tratamento com orientação médica.
“A injeção me ajudou, e muito, mesmo. Durante o tratamento, eu fui mudando minha alimentação. Já parei de usar, faço minhas coisas certinhas e não engordei mais nada”, explica a mulher de 66 anos. Ela afirma ser importante manter o estilo de vida com alimentação balanceada e exercícios físicos para garantir o emagrecimento saudável e manter os resultados das canetas.
Patentes beneficiam farmacêuticas gigantes
O preço das canetas emagrecedoras paraguaias é tão mais baixo porque o país quebrou a patente deste tipo de medicamento. Ou seja, no país fronteiriço, qualquer laboratório pode produzir utilizando o princípio ativo do Mounjaro. No Brasil, o laboratório farmacêutico estadunidense Eli Lilly possui monopólio da produção e venda de Mounjaro.
Na opinião da jovem de 28 anos que compra Lipoless no Paraguai, o problema é uma questão financeira. “O Brasil não tem coragem de quebrar a patente e continua alimentando a ganância da indústria farmacêutica”, opina a paciente. O imbróglio é em torno do princípio ativo tirzepatida, mesmo do Lipoless e do Mounjaro.
O endocrinologista Ben Hur Ono se posiciona contra a quebra de patentes. “O Brasil possui uma legislação que permite a manipulação de medicamentos sem a patente quebrada. Inclusive, é o que muitos pacientes utilizam nos consultórios médicos: a tirzepatida manipulada, que tem preço relativamente mais baixo que o original de fábrica”, justifica.
O médico conhecido como Dr. Canela afirma que o assunto deve ser alvo de discussão séria, por envolver economia e saúde pública. “Antes de falar em quebrar patentes, o Brasil precisa enfrentar o seu problema de tributação e de acesso. Reduzir impostos e encargos de forma responsável já seria um enorme passo para que mais pessoas pudessem tratar obesidade e doenças metabólicas de maneira segura”, opina.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)





