A paralisia cerebral é caracterizada por alterações do sistema nervoso central que provocam dificuldades motoras. Essas alterações podem ou não estar acompanhadas de comprometimentos sensitivos, visuais e cognitivos e, em alguns casos, de crises convulsivas.
Uma das principais características da condição é que a lesão cerebral não é progressiva. O evento que provoca a lesão ocorre durante a gestação ou nos primeiros anos de vida e pode atingir diferentes regiões do cérebro.
No Dia Mundial da Paralisia Cerebral, celebrado hoje (6), o neurologista do Humap-UFMS (Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Dr. Gustavo Leopold Schutz Pereira, explica os principais sinais da condição, como é realizado o diagnóstico e quais são as possibilidades de acompanhamento e reabilitação.
“Quando a gente fala em paralisia cerebral, o principal são as alterações motoras”, explica Dr. Gustavo.
Essas alterações podem interferir no desenvolvimento de funções como andar, segurar objetos, escrever ou realizar tarefas que exigem movimentos mais complexos.
Sinais podem aparecer durante o desenvolvimento
As manifestações variam de acordo com a região cerebral afetada e podem ser percebidas durante o desenvolvimento da criança. Entre os sinais que podem levar à investigação, estão dificuldades para andar, caminhar na ponta dos pés, andar com as pernas cruzadas ou utilizar mais um lado do corpo do que o outro.
Nos bebês, um dos sinais que merece atenção é a hipotonia, popularmente descrita como “bebê molinho”. Nesses casos, a criança pode apresentar dificuldade para sustentar a cabeça e o tronco ou manter a postura esperada para determinada fase do desenvolvimento.
“Em alguns bebês, eles são muito molinhos, acabam não mantendo a postura do tronco nem a postura da cabeça após um determinado tempo de maturação do organismo”, explica o neurologista.
Segundo o especialista, a presença desses sinais não significa, necessariamente, que a criança tenha paralisia cerebral. A avaliação deve ser realizada por profissionais de saúde, considerando o desenvolvimento, o histórico e as características individuais de cada paciente.
Diagnóstico
Durante muito tempo, o diagnóstico da paralisia cerebral foi predominantemente clínico. Atualmente, a avaliação médica pode ser associada a exames que permitem identificar alterações estruturais no cérebro.
Em crianças pequenas, pode ser utilizado o ultrassom transfontanelar, realizado por meio da fontanela, conhecida popularmente como “moleira”. Em crianças maiores, a ressonância magnética de crânio é um dos principais exames para analisar a estrutura cerebral.
“O diagnóstico hoje consegue aliar o raciocínio clínico a alterações que mostram de forma objetiva quais são as alterações que o paciente está tendo no cérebro”, afirma Dr. Gustavo.
Segundo o neurologista, a experiência acumulada nas últimas décadas ampliou o conhecimento sobre os fatores associados às lesões cerebrais que podem resultar em paralisia cerebral.
A condição é relativamente frequente na população pediátrica. De acordo com a estimativa, são aproximadamente dois a cinco casos a cada mil nascidos vivos.
O histórico da gestação, do parto e dos primeiros dias de vida pode fornecer informações importantes para a avaliação. Entre as situações que podem estar associadas, estão episódios de falta de oxigenação do cérebro do bebê, prematuridade, determinados casos de icterícia e exposição a substâncias durante a gestação, além de outros eventos capazes de interferir no desenvolvimento cerebral.
Depois do diagnóstico, o acompanhamento multiprofissional é importante para atender às diferentes necessidades que podem surgir durante o desenvolvimento.
“O mais importante que a família deve ir atrás é o acompanhamento multiprofissional”, explica Dr. Gustavo.
Esse cuidado pode envolver profissionais como fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, neurologista, ortopedista e, em alguns casos, psicólogo.
A proposta é trabalhar as funções que podem ser desenvolvidas e, quando necessário, buscar adaptações que favoreçam a autonomia e a capacidade funcional da criança.
“Dentro do possível, melhorar o que pode ser melhorado e, no que não pode ser melhorado, realizar adaptações que melhorem a capacidade funcional dela”, afirma.
Cada paciente apresenta necessidades diferentes
A localização e a extensão da lesão cerebral ajudam a explicar a variedade de manifestações da paralisia cerebral.
Algumas pessoas podem apresentar maior comprometimento dos movimentos dos pés e das pernas. Outras podem ter alterações nos movimentos das mãos, dificuldades relacionadas à postura ou comprometimento da musculatura responsável pela sustentação do tronco.
Alterações posturais, por exemplo, podem contribuir para desvios da coluna, como a escoliose. Já dificuldades nos movimentos das mãos podem interferir em atividades como escrever ou manipular objetos.
“Tudo isso é explicado pelos diferentes locais em que podem estar as lesões”, afirma o neurologista.
Por isso, o acompanhamento deve considerar as características de cada paciente, com estratégias de tratamento e reabilitação definidas de acordo com suas necessidades e possibilidades funcionais.
O objetivo é que, ao longo do desenvolvimento, a criança alcance o máximo possível de sua capacidade funcional, considerando suas características e possibilidades individuais.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)





