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Cotidiano

Guia prático: como a NR-1 em MS obriga empresas a protegerem sua saúde mental contra o assédio

Guia prático explica direitos dos trabalhadores e deveres das empresas diante das novas regras
Karine Alencar -
Guia prático: como a NR-1 em MS obriga empresas a protegerem sua saúde mental contra o assédio
Imagem ilustrativa. (Madu Livramento, Midiamax)

Desde 26 de maio de 2026, empresas brasileiras passaram a ser fiscalizadas pelo MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) quanto à identificação e prevenção de riscos psicossociais, como assédio moral, sobrecarga de trabalho, metas abusivas e ambientes tóxicos. A exigência faz parte da atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), que incorporou oficialmente a saúde mental ao gerenciamento de riscos ocupacionais.

Na prática, a mudança afeta principalmente trabalhadores da iniciativa privada, regidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Já no caso dos servidores públicos, a aplicação pode variar conforme o regime jurídico e as normas específicas de cada órgão ou ente federativo.

A nova regra não proíbe cobranças por resultados nem elimina metas. O objetivo é garantir que as organizações identifiquem situações que possam adoecer os trabalhadores e adotem medidas preventivas antes que o problema se agrave.

Ficou com dúvidas? A equipe de reportagem do Jornal Midiamax preparou um guia prático para explicar o que muda para trabalhadores e empregadores. Assim, o que muda na prática para quem trabalha sob pressão e cobranças constantes?

Segundo a advogada trabalhista ouvida pela reportagem, Camila Marques, a principal mudança é que a saúde mental passa a ser tratada como uma questão de saúde e segurança do trabalho.

1- Na prática, o que muda para servidores públicos e profissionais administrativos que vivem rotina de cobrança e pressão?

Resposta: Isso significa que problemas como excesso de cobrança, conflitos constantes, sobrecarga de tarefas e ambientes tóxicos deixam de ser vistos apenas como falhas de gestão e passam a integrar o gerenciamento de riscos das empresas.

A ideia não é acabar com a cobrança de metas, mas identificar quando ela ultrapassa os limites saudáveis e começa a causar adoecimento.

2- O que os trabalhadores podem cobrar das empresas?

Resposta: Com a atualização da NR-1, os profissionais passam a ter mais respaldo para exigir um ambiente de trabalho seguro também do ponto de vista emocional.

Entre as medidas que podem ser cobradas, estão canais internos de denúncia; investigação de situações de assédio; avaliação dos riscos psicossociais; medidas para reduzir fatores que causam adoecimento mental; e ações preventivas para melhorar o ambiente de trabalho.

O foco da norma é a prevenção, evitando que situações de desgaste evoluam para doenças e afastamentos.

3 – Afinal, o que são os riscos psicossociais?

Resposta: São fatores presentes no ambiente de trabalho que podem afetar a saúde mental e até física dos trabalhadores. Entre os exemplos mais comuns, estão cobranças excessivas e constantes; pressão desproporcional por metas; assédio moral; conflitos frequentes entre colegas; falta de apoio da liderança; relações desgastadas com gestores; sobrecarga de trabalho; e jornadas excessivas.

Nem toda situação desagradável configura um risco psicossocial. O problema surge quando essas situações se tornam frequentes e começam a provocar adoecimento nos trabalhadores.

4- O que é o Inventário de Riscos e como ele funciona?

Resposta: Um dos pontos que mais geram dúvidas é o chamado Inventário de Riscos Ocupacionais. Na verdade, o documento já existia dentro do PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). O que mudou foi a necessidade de incluir também os riscos psicossociais no mapeamento realizado pelas empresas. Na prática, o inventário funciona como um diagnóstico permanente dos riscos existentes no ambiente de trabalho.

Agora, além dos riscos tradicionais — como acidentes, ruídos ou exposição a agentes físicos —, as empresas precisam identificar fatores como sobrecarga de trabalho, jornadas exaustivas, assédio moral, cobranças hostis, falta de suporte organizacional e ambientes de tensão constante.

Após identificar esses fatores, a organização deve avaliar a frequência dos problemas e definir ações para reduzi-los ou eliminá-los.

5- Empresas podem ser multadas?

Resposta: Sim. Com o início da fiscalização, empresas que não realizarem o gerenciamento adequado dos riscos psicossociais poderão sofrer autuações pelos órgãos competentes.

Isso inclui situações como não atualizar os documentos obrigatórios; não mapear os riscos existentes; ignorar situações conhecidas de assédio ou sobrecarga; e não implementar medidas preventivas.

O valor da multa varia conforme critérios estabelecidos pela fiscalização trabalhista, como o porte da empresa, o número de trabalhadores expostos e a gravidade da infração.

A finalidade principal é estimular as empresas a adotarem medidas preventivas e evitar o adoecimento mental dos trabalhadores.

6- O trabalhador pode denunciar um ambiente tóxico?

Resposta: Pode. A orientação é que o profissional utilize inicialmente os canais internos da própria empresa, como ouvidorias, setores de compliance ou canais de denúncia.

Caso a situação não seja resolvida ou a organização seja omissa, a denúncia pode ser feita ao Ministério do Trabalho e Emprego ou ao sindicato da categoria.

As denúncias podem ser realizadas de forma sigilosa.

7- Quais provas devem ser guardadas em casos de assédio ou pressão psicológica?

Resposta: A recomendação é reunir o máximo possível de evidências, entre e-mails com cobranças abusivas, mensagens de aplicativos de conversa, áudios de reuniões ou conversas profissionais, registros de advertências consideradas indevidas, testemunhas, receitas médicas, relatórios psicológicos, laudos médicos e comprovantes de tratamentos relacionados ao adoecimento emocional.

Esses documentos podem ajudar a demonstrar a relação entre o ambiente de trabalho e os danos sofridos pelo trabalhador.

8- A empresa é obrigada a oferecer atendimento psicológico?

Resposta: Não. A NR-1 não determina que as empresas disponibilizem psicólogos ou terapia aos funcionários. O que a norma exige é que sejam identificados, avaliados e controlados os riscos psicossociais presentes no ambiente de trabalho.

Dependendo da realidade da organização, o apoio psicológico pode ser adotado como uma das medidas preventivas, mas não existe uma obrigação legal específica nesse sentido.

9- O que os empregadores precisam fazer agora?

Resposta: A primeira mudança é de mentalidade. Saúde mental deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar e passou a integrar oficialmente as obrigações relacionadas à segurança do trabalho.

Para se adequar às exigências, as empresas devem atualizar o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos); incluir os riscos psicossociais no Inventário de Riscos; revisar políticas internas; treinar lideranças; criar mecanismos de escuta e denúncia; identificar fatores de adoecimento; e implementar ações preventivas. A proposta da norma é agir antes que o trabalhador adoeça.

10- O que muda daqui para frente?

Resposta: A atualização da NR-1 marca uma mudança importante na forma como o ambiente de trabalho é visto no Brasil. A saúde mental passa a ter o mesmo peso que outros riscos ocupacionais já monitorados pelas empresas.

Para os trabalhadores, isso representa mais ferramentas para denunciar abusos e cobrar melhorias. Para os empregadores, significa a necessidade de olhar além dos números e metas, incorporando a prevenção do adoecimento emocional às estratégias de gestão.

Em outras palavras, a saúde mental deixa de ser só uma discussão sobre qualidade de vida e passa a fazer parte, oficialmente, das regras de segurança do trabalho.

(Reprodução)

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(Revisão: Nichole Munaro)

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