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Cotidiano

De terra do boi ao ‘ouro verde’, eucalipto, soja e sorgo redesenham Mato Grosso do Sul

O novo "ouro verde" coloca MS entre os principais produtores e exportadores do país
Claudemir Candido -
rota celulose
BR-262 é uma das rodovias que integram a Rota da Celulose. (Foto: Álvaro Rezende, Secom-MS)

Mato Grosso do Sul chega aos 49 anos com uma paisagem que já não é a mesma de décadas atrás. Onde antes predominava a grande produção da pecuária, hoje também avançam grandes áreas de soja, milho e eucalipto, o novo “ouro verde” de MS que coloca o estado entre os principais produtores e exportadores do Brasil.

Essa transformação, que aparece no campo, também chega às cidades, movimenta empregos, atrai indústrias e amplia a participação de Mato Grosso do Sul no mercado nacional e internacional. Segundo dados da Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária), em 16 anos, a área plantada de eucalipto no estado saltou de 341 mil hectares, em 2010, para 2,016 milhões de hectares em 2026. O crescimento representa mais de 1,6 milhão de hectares e ocupa 4,8% do território sul-mato-grossense.

No mesmo período, a área destinada à produção de grãos também cresceu. Passou de 1,8 milhão para 4,6 milhões de hectares, um aumento de mais de 2,8 milhões de hectares. A soja e o milho, juntos, já ocupam 12,7% do território de Mato Grosso do Sul. Atualmente, o sorgo também vem ganhando espaço.

Do campo para a indústria

O avanço dessas culturas representa mais do que uma mudança na paisagem. Por trás de cada hectare plantado existe uma cadeia produtiva que envolve transporte, armazenamento, processamento, indústria, comércio e exportação.

A soja é um dos principais exemplos. O grão pode ser comercializado diretamente, mas também passa por processamento e dá origem a produtos como óleo e farelo. O óleo tem diferentes aplicações, enquanto o farelo é utilizado principalmente na alimentação animal, especialmente na cadeia de produção de carnes.

Campo de plantio de soja (Reprodução/Aprosoja)

Com o eucalipto, a produção também vai além da madeira. As árvores abastecem principalmente a indústria de celulose, que transforma a matéria-prima em um produto utilizado na fabricação de papel, embalagens e outros materiais. A cadeia também pode alcançar a indústria de produção de roupas, por meio da produção de celulose solúvel utilizada na fabricação de fibras.

É essa conexão entre produção rural e indústria que ajuda a explicar parte da transformação econômica de Mato Grosso do Sul nos últimos anos. Para o economista da Famasul, Jean Américo, a mudança representa uma diversificação da base produtiva do estado, que teve a pecuária como principal atividade econômica por diversos anos.

“Nos últimos anos, ele vem diversificando a base produtiva. No passado, a gente basicamente era direcionada à pecuária, e isso vem se intensificando nos últimos anos para outras cadeias também, como grãos, basicamente soja e milho, e recentemente a questão de florestas plantadas com eucalipto”, explica.

Jean Américo – economista (Pietra Dorneles/Jornal Midiamax)

Essa mudança também está relacionada à transformação da própria pecuária. Segundo o economista, a atividade passou por avanços e mudanças, permitindo produzir mais em áreas menores e abrir espaço para outras atividades.

“Isso facilita para que a gente reduza a área da pecuária e aumente a produtividade. Isso facilita porque essa área, que em algumas situações é degradada, facilita para que outras culturas possam ser implantadas, principalmente grãos e área de eucalipto.”

Onde estão a soja e o eucalipto?

A distribuição dessas atividades pelo território sul-mato-grossense não acontece por acaso. A produção de grãos está mais concentrada nas regiões Centro-Sul e avança para o Norte. Já o eucalipto ganhou força principalmente na região Leste, onde estão concentrados grandes empreendimentos ligados à celulose.

“Basicamente, o eucalipto está mais nessa área leste, principalmente por conta das indústrias. Soja e milho são mais para a região Centro-Sul”, explica Jean Américo.

A concentração da produção florestal na região Leste, como e , está diretamente relacionada à instalação e expansão da indústria de celulose. Nessa região, as florestas plantadas funcionam como base para uma extensa cadeia que envolve produção de madeira, transporte, processamento industrial e exportação.

Mais produção, empregos e renda

O reflexo dessa transformação também aparece no mercado de trabalho em todo o estado. De acordo com dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), a agropecuária emprega atualmente 97,9 mil pessoas em Mato Grosso do Sul. Desse total, mais de 15,2 mil trabalham com produção florestal e mais de 10,8 mil estão no cultivo de soja.

Somente em 2025, foram gerados 1.256 novos empregos na agropecuária sul-mato-grossense. Mas o impacto econômico vai além dos postos de trabalho diretamente ligados ao campo. O crescimento dessas cadeias movimenta atividades que dependem da produção rural, como transporte, armazenamento, manutenção de máquinas e equipamentos, serviços especializados e a própria indústria de transformação.

Mapa de produção agrícola em MS (Reprodução/FAMASUL)

Em 2025, o Valor Bruto da Produção da agropecuária de Mato Grosso do Sul chegou a R$ 86,04 bilhões. A agricultura respondeu por 64% desse valor e a pecuária, pelos outros 36%. Dentro da agricultura, a soja representa 51% de todo o valor produzido. As florestas respondem por 15%.

China é principal destino

A força dessas duas grandes produções também aparece nas exportações. Somados, soja e produtos florestais movimentaram US$ 6,07 bilhões em exportações. Os produtos florestais responderam por US$ 3,12 bilhões, enquanto a soja e seus produtos chegaram a US$ 2,95 bilhões.

A China é o principal destino, responsável por 47,2% das exportações desses insumos de Mato Grosso do Sul. Depois aparecem Estados Unidos, Países Baixos e Itália. A presença chinesa ajuda a entender a importância que essas cadeias de produção têm para o comércio exterior sul-mato-grossense.

No caso da soja, o mercado internacional pode receber tanto o grão quanto produtos feitos a partir do processamento. Já na área florestal, a celulose produzida a partir do eucalipto é um dos principais produtos que deixam o estado com destino ao exterior. Assim, a produção que começa nas lavouras e florestas termina conectada a mercados consumidores do outro lado do mundo.

MS no cenário nacional

No cenário nacional, o estado já ocupa posição de destaque. Nos produtos florestais, Mato Grosso do Sul é o segundo maior produtor do país, atrás apenas de Minas Gerais, e aparece na liderança das exportações. Já no caso da soja, o grão ocupa a quinta posição entre os produtores nacionais e a sexta em exportações. E os números mais recentes mostram que a expansão continua. Na safra 2026/2027, a soja ocupa 4,620 milhões de hectares em Mato Grosso do Sul, com produção estimada em 14,744 milhões de toneladas.

No caso do eucalipto, foram 1,985 milhão de hectares no período de 2025/2026, crescimento de 74,9% em cinco anos. Os números mostram que as duas cadeias continuam expandindo a presença no território estadual e ganhando espaço na economia.

(Pietra Dorneles/Jornal Midiamax)

Crescimento acelerado

E como o crescimento do campo, a estrutura para sustentar toda essa demanda também precisa acompanhar o mesmo ritmo, o que traz desafios, principalmente quando se fala de escoamento, infraestrutura e qualificação profissional para atender à demanda de trabalho exigida pelas grandes indústrias.

Para Jean Américo, esses desafios que vêm acompanhando o crescimento são alguns dos principais gargalos que podem chegar a atrapalhar uma expansão ainda maior nos setores produtivos.

“O maior problema são os gargalos que a gente tem ao redor da cadeia produtiva. Não é somente a questão produtiva que é fundamental, mas a gente tem um conjunto de infraestrutura que precisa ser gerado para que essa cadeia se torne, de fato, um grande player no cenário nacional e até internacional.”

Jean Américo em entrevista com o Midiamax (Pietra Dorneles/Jornal Midiamax)

Entre os pontos citados pelo economista estão as condições das estradas, o escoamento da produção e a falta de mão de obra qualificada. “Outro ponto fundamental é a questão da mão de obra qualificada. O setor tem uma alta carência. O nosso estado tem uma quantidade de pessoas insuficiente para estar atendendo essa demanda.”

Além das necessidades de escoamento e demais desafios exigidos pelo crescimento acelerado, um dos pontos a serem levados em conta são os aspectos ambientais das regiões que vêm crescendo e se desenvolvendo economicamente.

“Questões também ambientais são fatores importantes para que a gente possa ampliar, claro, de forma equilibrada, sustentável, para que a gente tenha uma produção, mas com um olhar direcionado para a questão ambiental e a questão econômica também”, explica o economista.

Perfil econômico

Da soja ao eucalipto, Mato Grosso do Sul amplia a participação no agronegócio e muda o desenho da economia. A transformação começa no campo, mas não termina nele. A soja se conecta à indústria de alimentos e à cadeia de proteínas por meio de seus derivados. O eucalipto abastece a indústria de celulose e coloca o estado no centro de uma cadeia voltada principalmente ao mercado externo.

Ao redor dessas produções estão empregos, investimentos, transporte, indústria, arrecadação e exportações. E que, aos 49 anos de criação de Mato Grosso do Sul, ajuda a contar uma parte importante da história de transformação de um estado que encontrou no campo, e cada vez mais também na indústria ligada a ele, uma nova força de crescimento.

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