O uso crescente de medicamentos injetáveis para emagrecimento, como a semaglutida e a tirzepatida, tem levantado dúvidas sobre possíveis impactos à saúde além da perda de peso. Após o “boom” de casos de pancreatite, uma nova hipótese passou a ser levantada: a de maior suscetibilidade a infecções respiratórias.
A preocupação ganhou força após relatos de usuários nas redes sociais sobre sintomas semelhantes aos de gripe depois da aplicação dos medicamentos, especialmente em um período de maior circulação de vírus respiratórios, como a influenza, em Mato Grosso do Sul.
“Tomei Mounjaro (tizerpatida) e, um minuto depois, senti como se estivesse gripado. Isso é normal?”, diz um comentário que viralizou em uma página do Instagram.
No entanto, esse tipo de manifestação não aparece entre os efeitos adversos mais comuns descritos nas informações de prescrição da agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA (Food and Drug Administration), para a tirzepatida. Embora alguns pacientes relatem fadiga e sintomas sistêmicos, esses quadros podem estar mais associados à desidratação, à redução da ingestão alimentar ou ao processo de adaptação metabólica do organismo, e não necessariamente a uma infecção viral.
O que diz a ciência?

Infectologista, Andiane Tetilla esclarece que não há evidências científicas robustas de que esses medicamentos causem imunossupressão direta.
“Até o momento, não há evidência robusta de que semaglutida ou tirzepatida causem imunossupressão diretamente. Esses fármacos possuem efeitos predominantemente metabólicos e gastrointestinais”, explica.
Esse entendimento é compatível com informações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que descreve os agonistas de GLP-1 como medicamentos que atuam no controle do peso por meio da redução da ingestão alimentar e aumento da saciedade, sem indicação de ação direta sobre o sistema imunológico.
A especialista explica que a principal preocupação está na redução significativa do apetite, que pode levar a deficiências nutricionais. “A redução importante do apetite pode levar à baixa ingestão proteica e deficiência de micronutrientes, como zinco, ferro, vitamina B12 e vitamina D. Esses fatores podem, em uso prolongado e sem acompanhamento, comprometer a resposta imune”, afirma.
Risco indireto exige acompanhamento
No Brasil, documentos técnicos e avaliações em saúde reforçam que o uso desses medicamentos deve estar sempre associado a uma dieta equilibrada e mudanças no estilo de vida. A própria Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) destaca que a tirzepatida foi aprovada para o controle de peso em conjunto com alimentação de baixa caloria e prática de atividade física, o que indica que o tratamento não deve ocorrer de forma isolada, especialmente em uso fora das indicações previstas em bula.
Segundo o Hospital Israelita Albert Einstein, esses fármacos atuam imitando hormônios produzidos naturalmente pelo intestino após a alimentação, como o GLP-1. Essas substâncias enviam sinais ao cérebro, ao estômago e ao pâncreas, indicando que o organismo já recebeu alimento.
Na prática, esse mecanismo se traduz em três efeitos principais: redução do apetite no sistema nervoso central, aumento da saciedade devido ao retardo do esvaziamento gástrico e melhora do controle da glicose no sangue.
Entre os efeitos colaterais mais comuns, estão náuseas, vômitos, diarreia e constipação intestinal. Em geral, esses sintomas tendem a diminuir ao longo do tratamento, especialmente quando a dose é ajustada de forma gradual.
Tudo depende de hábitos
Outro ponto de atenção é a perda de massa magra. Quando o emagrecimento ocorre de forma rápida e sem alimentação balanceada e prática de atividade física, pode haver maior perda muscular. Também existe risco de formação de cálculos na vesícula biliar.
Além disso, a Anvisa tem emitido alertas sobre os riscos do uso indiscriminado dessas medicações. Em 2026, a agência reforçou que as chamadas “canetas emagrecedoras” devem ser utilizadas apenas com prescrição e conforme as indicações em bula, após identificar problemas associados ao uso inadequado.
Por outro lado, os medicamentos podem trazer benefícios importantes, como melhora do controle glicêmico e dos níveis de colesterol, além de redução do risco de infarto, AVC (acidente vascular cerebral) e mortalidade cardiovascular.
Já a frequentemente citada pancreatite, inflamação do pâncreas, é um efeito colateral raro descrito em bula para os agonistas de GLP-1 aprovados no Brasil. A doença ganhou evidência após o aumento das notificações no país. Em Mato Grosso do Sul, foram 2.950 internações por pancreatite aguda entre janeiro de 2021 e novembro de 2025.
Conforme a SES (Secretaria de Estado de Saúde), o uso de medicamentos emagrecedores deve ocorrer somente com prescrição e acompanhamento médico. “Esses fármacos exigem ajuste gradual de dose para reduzir possíveis efeitos adversos, como náuseas e vômitos, e demandam avaliação individual do perfil clínico do paciente, especialmente em casos de histórico de pancreatite, alterações na tireoide ou problemas renais”, explica.
Mesmo com o alerta, não houve mudança na relação de risco e eficácia dessas substâncias. Ou seja, os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos, de acordo com as indicações e os modos de uso aprovados e constantes da bula.
‘Não há relação com casos graves de influenza’

Apesar das preocupações, não há comprovação científica de que o uso dessas medicações aumente o risco de infecções ou agrave doenças respiratórias como a influenza e covid.
“O risco depende de outros fatores, como idade, presença de comorbidades, estado nutricional e, principalmente, a situação vacinal”, pontua a infectologista.
Ou seja, o impacto na imunidade está muito mais relacionado às condições gerais de saúde do paciente, especialmente nutrição, do que ao uso direto das chamadas “canetas emagrecedoras”.
Vacinação e cuidado seguem essenciais
Segundo a especialista, diante de um cenário de maior circulação viral, a orientação é manter cuidados básicos de higiene, especialmente entre quem faz uso dessas medicações. A recomendação inclui garantir ingestão adequada de proteínas, manter uma alimentação equilibrada e rica em nutrientes, além de avaliar a necessidade de suplementação. “Evitar o uso sem acompanhamento médico ou nutricional é fundamental”, alerta a especialista.
A infectologista reforça ainda a importância da vacinação como principal estratégia de proteção. “A melhor forma de prevenção, principalmente neste momento de alta circulação viral, é estar com a vacinação em dia, incluindo influenza e covid-19”, conclui.
Em Mato Grosso do Sul, a vacinação está liberada somente para o público-alvo. Podem vacinar-se integrantes dos seguintes grupos prioritários:
- Trabalhadores do transporte coletivo rodoviário;
- Crianças de 6 meses a menores de 6 anos;
- Idosos;
- Gestantes e puérperas (até 45 dias após o parto);
- Profissionais da saúde;
- Trabalhadores da educação;
- Forças de segurança e salvamento;
- Indígenas e quilombolas;
- Pessoas com comorbidades;
- Trabalhadores dos Correios;
- Caminhoneiros.
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(Revisão: Nichole Munaro)









