Desde que os jogos de azar ‘estouraram’ no Brasil por influência dos criadores de conteúdos digitais e jogadores de futebol, em meados de 2023, as apostas on-line têm causado impacto na saúde mental de milhares de pessoas. Em Campo Grande, o número de atendimentos psicológicos para esse público passou de 50 em 2024 para 105 somente nos primeiros seis meses de 2026. A quantidade representa uma alta de 110%.
Dados da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) mostram que a procura por atendimento especializado para tratar o vício nos Caps (Centros de Atenção Psicossocial) tem disparado. Em 2025, a quantidade já chamava a atenção quando saltou para 162 atendimentos, consolidando uma tendência de crescimento que acompanha a popularização das casas de apostas nas plataformas.
Especialista ouvida pela equipe de reportagem do Midiamax avalia que, cada vez mais, as pessoas estão desenvolvendo transtornos ocasionados pelas bets. Antes, muitas pessoas conviviam com o problema silenciosamente, acreditando que conseguiriam recuperar o dinheiro perdido ou controlar a situação uma hora ou outra.
Mas, de 2023 para cá, o esgotamento financeiro, as dívidas e a solidão fizeram com que essas pessoas reconhecessem que realmente precisavam de ajuda profissional antes que a situação se agravasse.
A Prefeitura de Campo Grande destaca que a Raps (Rede de Atenção Psicossocial) oferece acolhimento e acompanhamento conforme as diretrizes do Ministério da Saúde. Casos considerados leves podem ser acompanhados nas USF (Unidades de Saúde da Família), enquanto situações de maior complexidade são encaminhadas aos Caps, onde os pacientes recebem atendimento multiprofissional, com psicólogos, psiquiatras, grupos terapêuticos e suporte aos familiares.
Dependência sem perfil definido
A psicóloga clínica Ana Paula Taveira já atendeu diversos pacientes pelo Caps da cidade com esse tipo de problema, acumulando prejuízos emocionais, e decidiu compartilhar com a equipe de reportagem as chamas que já precisou apagar em seu consultório, onde dezenas de pessoas a procuram para pedir ajuda.
Ela relata que o número de pacientes teve alta significativa nos últimos anos, todos relacionados à facilidade de acesso às plataformas de apostas, que estão a poucos cliques de qualquer pessoa. “O fácil acesso aos aplicativos por meio dos smartphones e a intensa exposição às propagandas contribuíram significativamente para a escalada de novos casos. As microtransações e as apostas esportivas facilitaram ainda mais esse processo”, explica.
“Entre os principais sinais de dependência, estão a incapacidade de parar de apostar, a necessidade de investir quantias cada vez maiores para sentir a mesma emoção, mudanças bruscas de humor, ansiedade, irritabilidade, preocupação constante com as apostas e a tentativa recorrente de recuperar o dinheiro perdido, comportamento que geralmente aumenta ainda mais os prejuízos”, lista Ana Paula.
Além dos prejuízos financeiros, a dependência provoca ansiedade, depressão, culpa, vergonha, falta de esperança e conflitos familiares. Segundo ela, em situações extremas, o sofrimento emocional aliado ao endividamento pode colocar a vida da pessoa em risco.
Alerta
A profissional aponta, ainda, alguns comportamentos que servem de alerta: desaparecimento repentino de dinheiro, pedidos frequentes de empréstimos, isolamento social, queda no rendimento profissional ou escolar, omissões sobre gastos e uso excessivo do celular para realizar apostas.
Pesadelo que começou com a promessa de dinheiro fácil
A equipe de reportagem teve acesso à história de uma família que, assim como milhares no Brasil, acabou perdendo tudo por conta das apostas. Meses após o ocorrido, o marido e a esposa ainda lutam para equilibrar as contas que acumularam durante as tentativas de dinheiro fácil.
Segundo o relato, o homem vendeu a empresa que possuía e abriu uma loja para a esposa. Depois, passou a trabalhar como motorista de aplicativo para ter uma rotina mais flexível e passar mais tempo com a mulher e o filho pequeno. Foi nesse período que um amigo ganhou cerca de R$ 45 mil em apostas. Animada com a possibilidade de obter o mesmo resultado, a esposa decidiu começar a jogar.
Sem dinheiro disponível, pegou empréstimos com agiotas. As perdas vieram rapidamente. Para tentar quitar a primeira dívida, fez novos empréstimos com outros agiotas, mas também perdeu todo o dinheiro nas apostas. Assim, cobranças e ameaças começaram a fazer parte da rotina da família.
Para proteger a esposa e o filho, o marido vendeu móveis, eletrodomésticos e diversos bens da casa. Amigos e familiares compraram os objetos para levantar dinheiro, mas, mesmo assim, o drama continuou. Chegou a um ponto em que o casal não tinha dinheiro nem para o leite do bebê. Tudo o que o homem ganhava com as corridas por aplicativo ia direto para pagar as dívidas.
Meses depois, a família ainda tenta reorganizar a vida financeira. As dívidas deixadas pelas apostas continuam sendo pagas e servem como um lembrete de que aquilo que começou como uma tentativa de ganhar dinheiro rapidamente acabou se transformando em um pesadelo.
Onde buscar ajuda
Pessoas que identificam sinais de dependência em jogos e apostas podem procurar diretamente uma USF (Unidade de Saúde da Família) ou um Caps (Centro de Atenção Psicossocial), onde serão avaliadas e encaminhadas para o tratamento mais adequado. A relação das unidades está disponível no portal da Sesau. Basta clicar aqui.
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(Revisão: Nichole Munaro)








