Enquanto os holofotes do futebol mundial se voltam para os estádios milionários da Copa do Mundo, em um canto simples do Bairro Serraville, em Campo Grande, um campo de terra batida cumpre uma missão igualmente importante: oferecer oportunidades, disciplina e sonhos para dezenas de crianças e adolescentes.
Três vezes por semana, às segundas, quartas-feiras e sábados, mais de 30 alunos ocupam o espaço que, há poucos anos, era apenas um terreno abandonado, cedido pelo município. O responsável pelo projeto é o professor Jefferson Luiz da Silva, conhecido como Butika, ex-atleta profissional que decidiu transformar o espaço em uma escolinha de futebol. Aliás, ele tira do próprio bolso para a sobrevivência do projeto há seis anos.
À beira do campo, enquanto o apito soa, o professor orienta cada jogada. “Passa, toca rápido, escanteio”, repete durante o treino. Ele conhece pelo nome cada uma das crianças que correm atrás da bola, mesmo sem uniformes personalizados ou números estampados nas costas, como os ídolos que admiram na Seleção Brasileira.
“Tenho esse projeto desde o início de 2021. Quando cheguei aqui, o campo era um terreno baldio com muito lixo, restos de sofá, camas. Tive a ideia de fazer uma escolinha, pois o esporte está no sangue, no DNA”, descreve.

Suor e terra
Hoje, o local abriga treinos para crianças a partir dos 3 anos e jovens maiores de 18 anos. A maioria mora nos bairros Serraville, Jardim Noroeste e Panorama, mas alguns atravessam a cidade para participar das atividades.
Durante a reportagem, pais e mães chegavam próximo ao professor para perguntar se ainda havia vagas disponíveis. O número de participantes cresce constantemente. Ele respondia: “É coração de mãe, sempre cabe mais um”.
Apesar do sorriso e de dizer que há vagas abertas, o professor sequer menciona as atuais dificuldades de manter o projeto em pé. Para se ter uma ideia, houve um período em que ele lutou para conseguir a doação de chuteiras ou tênis. Contudo, mesmo diante das dificuldades estruturais, Butika vê o projeto crescer a cada ano.
“No início, eu participava de torneios e todo o dinheiro que ganhávamos era investido aqui. Aqui era só mato, com o tempo conseguimos arrumar. Com muito custo conseguimos construir os banheiros e terminamos com a ajuda de uma madrinha. Ainda não temos padrão para luz e água. Eu tiro do meu bolso para. As garrafas de água eu trago de casa e no banheiro usamos um balde.”

A luta por recursos
“As maiores dificuldades que a gente encontra são da falta de material, por exemplo, bola, rede. Inclusive, agora eu consegui um lanche de uma pessoa muito boa, mas nós tiramos do nosso próprio bolso. Eu trago os galões de água também.”
Apesar disso, os resultados já começam a aparecer. Segundo o professor, alguns ex-alunos já deram passos importantes no futebol profissional.
“Estamos evoluindo. Recentemente, dois dos nossos atletas foram para jogar na primeira divisão da Copa Libertadores, pelo Bahia. Eles ganham um salário mínio, estão indo bem. Agora a gente está tentando levar mais garotos daqui da escolinha.”
O imaginário da Copa
Em ano de Copa do Mundo, o futebol ocupa ainda mais espaço no imaginário das crianças. Para muitas delas, os jogadores da Seleção representam um objetivo de vida.
“Para eles [a Copa] é tudo. Logo, eles ficam a flor da pele querendo ver a Copa, querendo o álbum de figurinha”.
Mas, para além dos sonhos dentro das quatro linhas, o projeto também tem impacto direto na educação e no comportamento dos alunos. Sobre a mudança de vida dos alunos, Butika diz que o desempenho na escola já é outro, já que a única exigência para permanecer no projeto é tirar notas boas.

“Vem pai e mãe conversar comigo dizendo que o aluno encontrou evolução na escola. Se tiver mal na escola, não tem como vir treinar, pois o estudo está em primeiro lugar”, pontua.
Orgulho
Essa transformação também é percebida pelas famílias. Josilaine Andreia Gonçalves da Cruz, mãe de três alunos da escolinha e moradora da região, afirma que o projeto mudou a rotina dos filhos.
“Está tirando eles da rua. Eles ficam contando os dias do treino. Tenho bastante orgulho.”
Por fim, o professor ressalta que, apesar das dificuldades, não há vagas ilimitadas. “A gente fica muito feliz em poder estar dando um futuro melhor para uma criança. O meu maior incentivo foi querer tirar essas crianças da rua. Elas ficavam o dia inteiro na rua e aqui é uma região vulnerável”, conclui.










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