Você já parou para pensar em quantas vezes visitou uma feira em Campo Grande? Para o campo-grandense, a feira é quase um compromisso da rotina. Toda semana, milhares de moradores se encontram entre barracas, cheiros, sabores e produtos que fazem parte da memória da cidade.
Porém, embora tenham a tradição como uma de suas principais marcas, as feiras de bairro estão longe de ser sempre iguais. Elas mudam, adaptam-se e abrem espaço para novos vendedores, novos produtos e novas tendências. É justamente essa capacidade de se reinventar que ajuda a manter o público fiel.
O pastel, o espetinho, o sobá e outros produtos tradicionais continuam sendo grandes chamarizes. São sabores que o cliente já conhece e procura. Mas, ao mesmo tempo, existe uma sede por novidades. Quem vai à feira também quer descobrir o que chegou de novo, experimentar uma receita diferente ou conhecer o produto de um empreendedor que está começando.
É nesse movimento que muitos vendedores autônomos encontram espaço para transformar tendências em negócios. São pequenos empreendedores que chegam às feiras com produtos adaptados ao gosto do público, receitas descobertas na internet ou criações próprias.
Cidade que cresceu ao redor da feira
Aliás, embora a fundação da cidade esteja ligada à pecuária e à chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, o comércio de rua e as feiras livres foram importantes para o abastecimento e a integração dos bairros ao longo das décadas.
Neste capítulo da série tradicional do Jornal Midiamax, em homenagem ao aniversário da capital sul-mato-grossense, a reportagem percorre as feiras de bairro para mostrar como esses espaços continuam se transformando sem perder a essência.
Nas Moreninhas, no Aero Rancho, Coophavila, Nova Bahia, Rita Vieira e em outras regiões, as ruas se transformam em verdadeiras praças de encontro. E, enquanto os sabores tradicionais ajudam a manter a identidade das feiras, são as novidades que ajudam a despertar a curiosidade de quem passa.
Coophavila II
Toda terça-feira, das 16h às 22h, as barracas montadas entre a Avenida Gunter Hans, a Rua dos Camarões e a Rua da Península transformam a via em um “shopping popular”.
São aproximadamente 400 metros lineares de barracas. É possível encontrar de tudo e mais um pouco. A feira é uma das consolidadas da região e reúne gastronomia, comércio e lazer, formando um dos principais corredores de convivência da região sul.
Antes mesmo de o sol se pôr ou de todas as barracas terminarem a montagem, o público já começa a movimentação. A procura começa antes mesmo de o cheiro do pastel frito ou do espetinho anunciar que o comércio está pronto.
Os produtos tradicionais ajudam a explicar parte desse movimento. Mas não são os únicos responsáveis por levar o público às ruas. Entre uma barraca conhecida e outra, sempre existe algo novo para experimentar.
Fresco
“Tudo fresquinho aqui, freguesa. Pode escolher, tudo fresquinho”, anunciava Rosilene da Silva Silveira, com um enorme sorriso, sobre os produtos da pequena barraca. Rosilene leva mais de 100 pacotes de verduras, frutas e legumes para vender. A produção vem do Assentamento Santa Mônica e da área rural de Terenos.
Ela explica que muitos moradores da região preferem comprar produtos que vêm da horta. Ali, ela criou uma clientela fixa, apesar de também atuar em outros bairros. São mais de seis anos trabalhando como feirante e, para ela, uma feira nunca perde a graça.
“Além das verduras serem boas, fresquinhas, da hora, as pessoas gostam. Não que o mercado não seja [bom], mas aqui as pessoas chegam, escolhem, têm o atendimento, o carisma, o contato com o povão”, comenta.
Receita de gerações
A pipoca gourmet no pote, acompanhada de creme de avelã ou outros cremes, virou uma tendência que está em alta. A confeiteira e servidora pública Anne Cristine Teixeira de Souza aderiu à receita viral para abrir o negócio e incrementar a renda extra.
“Eu fiz cursos há três anos para fazer a pipoca gourmet. Quando veio a pipoca no pote, vi que era a mesma, com processo mais simples, pois no pote entra o chocolate, o ninho, a paçoca. As pessoas buscam novidade, não só [alimentos] tradicionais da feira”, comenta a dona da Gostosuras Pop Gourmet.
A barraca de Anne também conta com um biscoito amanteigado, que é uma receita de sua mãe. “Eu lembro, quando era pequena, que minha mãe fazia muito esse biscoitinho. Eu dei um toque meu e a gente percebe que as pessoas gostam muito. Agora, eu passo para minha filha; vai passar de geração.”
“Eu fazia feiras culturais, quando o próprio pessoal comentava: a feira do Coophavila é muito boa. Quando fiz o cadastro, [percebi que] feira de bairro é diferente, porque os frequentadores são assíduos. É um evento que fica na agenda dele, nunca deixam de vir, sempre buscando algo a mais e o tradicional.”
‘Sul-mato-grossense gosta da pamonha dura’
Qual é a sua textura favorita da pamonha: mole ou dura? Doce ou salgada? Para a empreendedora Poliana Caetano da Silva, de 33 anos, a resposta é: “Sul-mato-grossense gosta da pamonha doce e dura”.
Moradora de Sidrolândia, Poliana conta que está na feira há pouco mais de seis meses, apesar de vender pamonha há oito anos na cidade natal, com a Manancial de Sabor. Ela explica que a receita veio da tia do esposo, mas foi adaptada ao gosto da clientela regional.
“Ela vendia muito bem no Mato Grosso. Lá, eles gostam da pamonha mais mole, enquanto aqui preferem a consistência mais durinha. Ela fazia com o queijo em pedaços, e aqui nós colocamos o queijo ralado. Então, adaptamos. O movimento aqui é bem maior que Sidrolândia, não que lá seja ruim, mas aqui estamos fazendo a clientela, graças a Deus”, pontua.
Feira do Rita Vieira
Na Feira do Rita Vieira, uma das maiores e mais consolidadas da região, a mistura entre tradição e novidade também pode ser percebida em cada barraca. Ao lado do antigo trilho, a feira livre surgiu no início de fevereiro de 2017, sendo inaugurada oficialmente em 2 de fevereiro daquele ano. A feira conta com aproximadamente 600 metros de extensão de barraquinhas ao longo da rua.
No começo, eram cerca de 81 barracas e, hoje, reúne dezenas de expositores locais, com o número de feirantes variando conforme a configuração e as vagas da associação. A feira acontece tradicionalmente todas as quintas-feiras, das 17h às 22h, na Rua Novo Estado, esquina com a Avenida Rita Vieira de Andrade.
É nesse cenário que o chef Matheus Marçal encontrou espaço para apresentar uma receita diferente. Ele entrou nas feiras há cerca de seis meses. Membro da Federação Italiana de Cozinheiros, aprimorado em carne suína, antes assinava cardápios de restaurantes renomados da cidade. No entanto, acreditou no potencial da feira de bairro e inovou com uma receita única: o pirulito de porco, que é um torresmo frito na hora.
Novas receitas
Há molhos de sua própria criação: o defumado, o de mel e o mais queridinho, o de goiabada. Apesar de manter um ponto fixo na Avenida Marques de Pombal, ele gosta de estar na feira.
“Eu e minha esposa estávamos passeando na feira quando encontramos um amigo. Ele disse que na feira estava muito melhor do que no ponto fixo. E olha que ele tinha um restaurante muito bom, numa área residencial. Era grandioso demais para aquela região. O público pedia para ir até eles. Foi então que pensei em colocar o pirulito de porqueta. Esse amigo, o Medina, deixou eu colocar uma barraca do lado dele. Eu era sócio de uma outra empresa, saí da sociedade e decidi vir para a feira. Apareceu a oportunidade de um trailer; caímos para dentro”, explica.
“A feira é uma tendência a nível nacional. As pessoas querem comodidade. Hoje não existem só as feiras livres, mas as de condomínio, as criativas, culturais. Nisso, tem um público novo, alternativo e que busca coisas diferentes. A feira é um lugar onde se veem pessoas, onde se conhece muita gente e se troca informação”, complementa.
Do brownie feito em casa à barraca na feira
Lynniker Guilherme Leão Claranhan, de 29 anos, é arquiteto, mas sempre foi apaixonado pela confeitaria. Antes de ir para a feira, há quase um mês, apenas fazia brownie para comer em casa, com os amigos ou com a família.
Ele conta que estava exausto da antiga função quando decidiu apostar nas feiras. Apesar de ser novato, já está garantindo clientela no Rita Vieira.
“Há um ano e meio estou nas feiras, mas essa é minha 4ª vez aqui no Rita Vieira. Acredito que a feira é querida pelos campo-grandenses. Quando eu cheguei, era um dos últimos da fila, agora já tem mais barracas. Eu sempre fui curioso com a cozinha. Via receitas na internet e fui aprimorando a casquinha do brownie, do recheio. Eu morava aqui perto também.”
O brownie é mais um exemplo de como produtos que não fazem parte do cardápio tradicional das feiras encontram espaço quando existe público interessado em novidades.
Eu era arquiteto, cansei de fazer arquitetura, comecei a fazer em festas, quando o pessoal começou a dizer: ‘É muito bom, começa a vender, vai nas feiras’. Fui pesquisando e fui adaptando a receita com meu paladar. Eu estudei o que funcionava ou não, estudei a casquinha. Hoje, a receita é minha.”
A tendência do açaí na garrafa
Vendedor nato, Jonathan Ricardo Serra dos Santos, de 29 anos, também aposta nas tendências para crescer. Ele vende o açaí na garrafa. Os sabores variam, com Nutella, Ninho, leite condensado e mais.
Antes de ser feirante, há um ano e meio, ele era CLT, mas quis a liberdade que um autônomo consegue. A receita ele adaptou com dicas da internet e criou o Açaí do Leão.
Em média, ele vende cerca de 50 a 60 garrafas e garante que vende tudo. Ele também está em outras feiras, como as dos bairros Coophavila, Parati e Piratininga.
Vida de feirante
“O que me motivou [trabalhar na feira] foi a liberdade, poder proporcionar o melhor para a família, criar emprego, ter um tempo a mais com a família e criar meu próprio negócio.
O produto chama atenção por apresentar o açaí em um formato diferente, acompanhando uma tendência que ganhou espaço entre os consumidores. E, assim como ele, outros vendedores autônomos chegam às feiras com produtos que procuram conversar com um público interessado em experimentar.
“Deus nos abençoa com o dom da venda, e a gente vai aprimorando, buscando melhorar, trazendo produto. A arte da venda é fazer uma amizade, ser carismático e ter educação. Aqui na feira, a pessoa sai de casa, se conecta, se distrai, conhece pessoas.”
Feiras vivas
No fim das contas, é essa mistura que mantém as feiras de bairro vivas. O tradicional continua sendo o ponto de partida. O pastel chama, o espetinho atrai, o sobá mantém clientes fiéis. Mas, depois que chega, o consumidor quer olhar ao redor e descobrir o que há de novo.
As feiras mudam porque o público muda. E os feirantes acompanham esse movimento. São eles que chegam primeiro, montam as barracas, apresentam os produtos, recebem os clientes e são os últimos a sair. Aliás, uma feira não vive apenas de tradição, mas também da capacidade de oferecer, a cada semana, um motivo novo para voltar.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)











































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