O que faz um prédio ser reconhecido como patrimônio histórico por quem convive diariamente com ele? A resposta para essa pergunta levou o arquiteto e urbanista Bosco Delvizio a ouvir 200 corumbaenses de diferentes idades e perfis em uma pesquisa para compreender como a população percebe a arquitetura regional e qual a relação entre o patrimônio construído e a identidade da cidade.
A pesquisa deu a vida ao recém-lançado livro “Ladeira do Porto Acima… Arquitetura moderna e memória de Corumbá“, que mostra, em 190 páginas, a investigação sobre o patrimônio arquitetônico corumbaense e chama atenção para um aspecto pouco debatido
Embora a arquitetura neoclássica seja a mais lembrada pela população, a cidade também possui um expressivo conjunto de edificações modernistas, muitas delas sem proteção legal e pouco conhecidas até mesmo pelos sul-mato-grossenses.
Ideia surgiu no mestrado
O estudo foi desenvolvido durante o mestrado em Desenvolvimento Local na UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), em 2004. Bosco Delvizio tem 72 anos, é natural de Corumbá e tem quase cinco décadas dedicadas à arquitetura e ao urbanismo.
Logo, a pesquisa nasceu do interesse em compreender como os moradores enxergam o espaço urbano e de que forma diferentes estilos arquitetônicos contribuem para a memória coletiva da Cidade Branca.
O próprio título do livro apresenta a proposta do trabalho. Para Bosco, a ideia não é simbólica, mas um convite para percorrer a cidade e observar sua arquitetura sob outra perspectiva.

“O título tem um significado físico, concreto: trata-se de ver a arquitetura ladeira do porto acima. Fala sobre a experiência dos corumbaenses e daqueles que visitam a cidade, levados a circular entre a Cidade Baixa — constituída basicamente pelas ladeiras Manoel Cavassa e Cunha e Cruz, com seus casarões — e a denominada Cidade Alta — na zona que se estende até os limites da ferrovia —, ambas ligadas pelas ladeiras Cunha e Cruz e José Bonifácio. As reticências sugerem uma abertura, associada ao convite para que se faça essa transição entre parte baixa e alta.”
Imóveis que contam histórias
Para entender a percepção da população, Bosco selecionou 15 edificações representativas da arquitetura corumbaense. Os imóveis foram divididos entre os estilos neoclássico, art déco e moderno, permitindo comparar como cada um deles é reconhecido pelos moradores.
“A intenção foi estabelecer propositadamente uma situação de contraste entre as obras, permitindo uma melhor observação dos objetivos da pesquisa centrada no modernismo.”
O resultado revelou que os casarões do século XIX ainda ocupam o imaginário da população quando o assunto é patrimônio histórico. Em contrapartida, boa parte das construções modernas permanece pouco reconhecida, apesar da relevância arquitetônica e histórica.

Um patrimônio moderno ainda invisível
Segundo Bosco Delvizio, Corumbá acompanhou o movimento da arquitetura moderna brasileira a partir da década de 1950, impulsionado pelas políticas de desenvolvimento do Governo Federal. Entre os principais marcos desse período, está o Colégio Estadual Maria Leite, projetado por Oscar Niemeyer, além da antiga sede da Receita Federal, instalada na Alfândega do Porto.
Em seguida à década de 50, outras contribuições vieram de mais arquitetos e engenheiros, entre os quais alguns filhos da cidade que, após anos de estudos realizados fora, retornaram à terra natal ao fim da mesma década.
“A obra mais surpreendente desse período é a residência da família Sahib, construída em 1966. Com formas puras da fachada, o projeto rompe com a linearidade por meio da laje plana e da curva da cobertura que parece flutuar, conferindo ao conjunto uma imagem moderna e, ao mesmo tempo, inusitada. Isso exemplifica exatamente o porquê de a arquitetura moderna na cidade ser merecedora de atenção, estilo esse e demais obras de relevância que ainda são pouco conhecidos pelos sul-mato-grossenses.”
“A produção arquitetônica da arquitetura moderna foi a grande contribuição cultural dos arquitetos, modificando hábitos, ampliando visões dessa época. Essa arquitetura, por princípios trabalhados claramente ligados ao Movimento Moderno Internacional, marcou a virada do século 19 para o século 20 e começa a ganhar hoje, no século 21, caráter de arquitetura histórica, notadamente aquela produzida entre as décadas de 1950 e 1960.”

Memórias pessoais
Ao longo do trabalho, Bosco percebeu que a investigação acadêmica acabou se misturando às lembranças da infância vivida em Corumbá. A relação afetiva com a cidade passou a integrar a própria pesquisa.
“Hoje, aos 72 anos, com quase 50 anos como profissional da arquitetura e do urbanismo, percebo que as lembranças pessoais dialogam com a pesquisa técnica. Percebo que iniciei esse trabalho como pesquisador, mas que, aos poucos, também me tornei uma espécie de personagem, uma vez que resgato lembranças da minha infância e redescubro minha relação com os edifícios modernos de Corumbá.”
Embora o estudo tenha demonstrado que a população reconhece principalmente a arquitetura neoclássica como patrimônio, o pesquisador alerta que a cidade também abriga um importante acervo moderno que permanece sem proteção legal. Um dos exemplos é a Escola Estadual Doutor João Leite de Barros, projeto de Oscar Niemeyer, cuja descaracterização representaria uma perda irreparável para a memória urbana.
“É necessário despertar a vontade na escala política, econômica e social do local, fazendo interagir poderes públicos e privados e a sociedade civil, conjugando-se esforços para a valorização da participação comunitária na preservação e gestão do patrimônio cultural por meio da informação, educação, comunicação e divulgação ampla, tão ausentes na sociedade de Corumbá, sul-mato-grossense e brasileira.”
O arquiteto defende ainda que a história da cidade deve ser contada por diferentes estilos arquitetônicos, e não apenas pelos casarões do século XIX.
“Por exemplo, perceber que houve outras arquiteturas além do estilo neoclássico e que, de alguma maneira, também contribuíram para a memória e a identidade local a ela associada. Os diversos estilos arquitetônicos representam o pensamento e o comportamento de uma época e são bases da memória social. Dar continuidade às averiguações acerca do patrimônio arquitetônico de Corumbá é importante para se analisar o potencial histórico das suas áreas urbanas”, conclui.

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(Revisão: Nichole Munaro)







