Livro revela por que a arquitetura moderna de Corumbá ainda é invisível para seus moradores Pular para o conteúdo
MidiaMAIS

Livro revela por que a arquitetura moderna de Corumbá ainda é invisível para seus moradores

O arquiteto e urbanista Bosco Delvizio entrevistou 200 corumbaenses sobre a arquitetura da Cidade Branca
Karina Campos -
Livro revela por que a arquitetura moderna de Corumbá ainda é invisível para seus moradores
Residência da família Sahib, construída em 1966. (Arquivo Pessoal)

O que faz um prédio ser reconhecido como patrimônio histórico por quem convive diariamente com ele? A resposta para essa pergunta levou o arquiteto e urbanista Bosco Delvizio a ouvir 200 corumbaenses de diferentes idades e perfis em uma pesquisa para compreender como a população percebe a arquitetura regional e qual a relação entre o patrimônio construído e a identidade da cidade.

A pesquisa deu a vida ao recém-lançado livro “Ladeira do Porto Acima… Arquitetura moderna e memória de , que mostra, em 190 páginas, a investigação sobre o patrimônio arquitetônico corumbaense e chama atenção para um aspecto pouco debatido

Embora a arquitetura neoclássica seja a mais lembrada pela população, a cidade também possui um expressivo conjunto de edificações modernistas, muitas delas sem proteção legal e pouco conhecidas até mesmo pelos sul-mato-grossenses.

Ideia surgiu no mestrado

O estudo foi desenvolvido durante o mestrado em Desenvolvimento Local na UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), em 2004. Bosco Delvizio tem 72 anos, é natural de Corumbá e tem quase cinco décadas dedicadas à arquitetura e ao urbanismo.

Logo, a pesquisa nasceu do interesse em compreender como os moradores enxergam o espaço urbano e de que forma diferentes estilos arquitetônicos contribuem para a memória coletiva da Cidade Branca.

O próprio título do livro apresenta a proposta do trabalho. Para Bosco, a ideia não é simbólica, mas um convite para percorrer a cidade e observar sua arquitetura sob outra perspectiva.

Casa Cândia; cidade tem casarões pelas ladeiras Manoel Cavassa e Cunha e Cruz. (Arquivo Pessoal)

“O título tem um significado físico, concreto: trata-se de ver a arquitetura ladeira do porto acima. Fala sobre a experiência dos corumbaenses e daqueles que visitam a cidade, levados a circular entre a Cidade Baixa — constituída basicamente pelas ladeiras Manoel Cavassa e Cunha e Cruz, com seus casarões — e a denominada Cidade Alta — na zona que se estende até os limites da ferrovia —, ambas ligadas pelas ladeiras Cunha e Cruz e José Bonifácio. As reticências sugerem uma abertura, associada ao convite para que se faça essa transição entre parte baixa e alta.”

Imóveis que contam histórias

Para entender a percepção da população, Bosco selecionou 15 edificações representativas da arquitetura corumbaense. Os imóveis foram divididos entre os estilos neoclássico, art déco e moderno, permitindo comparar como cada um deles é reconhecido pelos moradores.

“A intenção foi estabelecer propositadamente uma situação de contraste entre as obras, permitindo uma melhor observação dos objetivos da pesquisa centrada no modernismo.”

O resultado revelou que os casarões do século XIX ainda ocupam o imaginário da população quando o assunto é patrimônio histórico. Em contrapartida, boa parte das construções modernas permanece pouco reconhecida, apesar da relevância arquitetônica e histórica.

Colégio Estadual Maria Leite, projetado em 1952 por Oscar Niemeyer e inaugurado em 21 de setembro de 1954. (Arquivo Pessoal)

Um patrimônio moderno ainda invisível

Segundo Bosco Delvizio, Corumbá acompanhou o movimento da arquitetura moderna brasileira a partir da década de 1950, impulsionado pelas políticas de desenvolvimento do Governo Federal. Entre os principais marcos desse período, está o Colégio Estadual Maria Leite, projetado por Oscar Niemeyer, além da antiga sede da Receita Federal, instalada na Alfândega do Porto.

Em seguida à década de 50, outras contribuições vieram de mais arquitetos e engenheiros, entre os quais alguns filhos da cidade que, após anos de estudos realizados fora, retornaram à terra natal ao fim da mesma década.

“A obra mais surpreendente desse período é a residência da família Sahib, construída em 1966. Com formas puras da fachada, o projeto rompe com a linearidade por meio da laje plana e da curva da cobertura que parece flutuar, conferindo ao conjunto uma imagem moderna e, ao mesmo tempo, inusitada. Isso exemplifica exatamente o porquê de a arquitetura moderna na cidade ser merecedora de atenção, estilo esse e demais obras de relevância que ainda são pouco conhecidos pelos sul-mato-grossenses.”

“A produção arquitetônica da arquitetura moderna foi a grande contribuição cultural dos arquitetos, modificando hábitos, ampliando visões dessa época. Essa arquitetura, por princípios trabalhados claramente ligados ao Movimento Moderno Internacional, marcou a virada do século 19 para o século 20 e começa a ganhar hoje, no século 21, caráter de arquitetura histórica, notadamente aquela produzida entre as décadas de 1950 e 1960.”

Edifício Anache é uma das edificações de destaque na obra. (Arquivo Pessoal)

Memórias pessoais

Ao longo do trabalho, Bosco percebeu que a investigação acadêmica acabou se misturando às lembranças da infância vivida em Corumbá. A relação afetiva com a cidade passou a integrar a própria pesquisa.

“Hoje, aos 72 anos, com quase 50 anos como profissional da arquitetura e do urbanismo, percebo que as lembranças pessoais dialogam com a pesquisa técnica. Percebo que iniciei esse trabalho como pesquisador, mas que, aos poucos, também me tornei uma espécie de personagem, uma vez que resgato lembranças da minha infância e redescubro minha relação com os edifícios modernos de Corumbá.”

Embora o estudo tenha demonstrado que a população reconhece principalmente a arquitetura neoclássica como patrimônio, o pesquisador alerta que a cidade também abriga um importante acervo moderno que permanece sem proteção legal. Um dos exemplos é a Escola Estadual Doutor João Leite de Barros, projeto de Oscar Niemeyer, cuja descaracterização representaria uma perda irreparável para a memória urbana.

“É necessário despertar a vontade na escala política, econômica e social do local, fazendo interagir poderes públicos e privados e a sociedade civil, conjugando-se esforços para a valorização da participação comunitária na preservação e gestão do patrimônio cultural por meio da informação, educação, comunicação e divulgação ampla, tão ausentes na sociedade de Corumbá, sul-mato-grossense e brasileira.”

O arquiteto defende ainda que a história da cidade deve ser contada por diferentes estilos arquitetônicos, e não apenas pelos casarões do século XIX.

“Por exemplo, perceber que houve outras arquiteturas além do estilo neoclássico e que, de alguma maneira, também contribuíram para a memória e a identidade local a ela associada. Os diversos estilos arquitetônicos representam o pensamento e o comportamento de uma época e são bases da memória social. Dar continuidade às averiguações acerca do patrimônio arquitetônico de Corumbá é importante para se analisar o potencial histórico das suas áreas urbanas”, conclui.

Lançamento do livro. (Divulgação, Conselho de Arquitetura e Urbanismo de MS)

Fale com os jornalistas do MidiaMAIS!

Tem algo legal para compartilhar com a gente? Fale direto com os jornalistas do MidiaMAIS através do WhatsApp.

Mergulhe no universo do entretenimento e da cultura participando do nosso grupo no Facebook: um lugar aberto ao bate-papo, troca de informação, sugestões, enquetes e muito mais. Você também pode acompanhar nossas atualizações no Instagram e no Tiktok.

(Revisão: Nichole Munaro)

Compartilhe

Notícias mais buscadas agora

Saiba mais
Vander participa de convenção nacional do PT: ‘Última de Lula é um momento histórico’

Vander participa de convenção nacional do PT: ‘Última de Lula é um momento histórico’

Professora de MS se torna a 1ª mulher trans promotora de Justiça do Brasil

Professora de MS se torna a 1ª mulher trans promotora de Justiça do Brasil

Fila do INSS reduz em MS, mas queda pode esconder negativas de benefícios

Fila do INSS reduz em MS, mas queda pode esconder negativas de benefícios

Moradora encontrou corpo de homem em quintal de casa ao sair para a igreja no Nova Lima

Moradora encontrou corpo de homem em quintal de casa ao sair para a igreja no Nova Lima

Notícias mais lidas agora

Ministro da Fazenda garante acordo sobre taxa de 67% da China contra carne de MS

Ministro da Fazenda garante acordo sobre taxa de 67% da China contra carne de MS

Avanço da guerra de facções em MS tem execuções e ‘lista de marcados para morrer’

Avanço da guerra de facções em MS tem execuções e ‘lista de marcados para morrer’

Fila do INSS reduz em MS, mas queda pode esconder negativas de benefícios

Fila do INSS reduz em MS, mas queda pode esconder negativas de benefícios

Lula é alvo de representação no TSE após pedir votos em convenção

Lula é alvo de representação no TSE após pedir votos em convenção

Últimas Notícias

Cotidiano

Temporal passa em MS, mas água contaminada mantém risco de doenças

Água de enchentes, lama e resíduos podem transmitir doenças e atrair animais peçonhentos após os temporais

Famosos

Viúvo de Rita Lee compartilha foto com ex-namorada da adolescência e acende rumores

Os dois já haviam sido vistos juntos no início de julho deste ano, durante uma viagem a Paris

Polícia

Suspeitos invadem casa e matam jovem a tiros em Jardim

Suspeitos teriam invadido a casa para praticar o crime

Polícia

Homem foi baleado em ‘biqueira’ e morreu tentando se esconder em quintal de casa no Nova Lima

Populares contam que uma segunda vítima está desaparecida desde a noite de sábado (1º)