Uma mulher à frente de seu tempo, Eny Escobar Fernandes nasceu em 1932, mas não permitiu que os costumes e as limitações impostos às mulheres de sua época a limitassem.
Em um tempo em que a educação era negada às mulheres, Eny aprendeu a ler sozinha com livros que herdou do pai, falecido quando ela tinha 2 anos.
Aos 14 anos, foi obrigada a se casar e mudou para a área rural de Bela Vista, onde morava o marido. Ao se deparar com a região, com uma população pobre e analfabeta, passou a ensinar, em sua própria casa, crianças e adultos a ler e escrever.
Tempos depois, quando já tinha 20 anos, conheceu a esposa de um vereador que se interessou pelo trabalho que ela fazia na vila. A partir desse encontro, Eny foi oficialmente nomeada professora e, com a reforma de uma casa abandonada na região, foi fundada a Escola de Boi Jaguá. No momento da abertura da escola, 36 alunos foram matriculados.
Em Bela Vista, a professora foi pioneira em outras frentes além da educação. Foi uma das primeiras na região a tirar o Título de Eleitor e ajudou outros a fazerem o mesmo. Também foi uma das primeiras mulheres a se desprender dos estereótipos de gênero.
“Usar calça, cortar cabelo, coisas assim que hoje são simples para a gente, né?”, conta a neta de Eny, Mirian Priscilla.
Com o tempo, a professora expandiu sua atuação. Mudou-se para a cidade e continuou os estudos, atuando em escolas na região. Nos anos 1970, mudou-se para Campo Grande um pouco antes da criação do Estado e fez faculdade de Geografia. Na Capital, foi professora do Município e do Estado, onde atuou até precisar se aposentar.
“Nunca teve preguiça”, afirma a neta.



Eny Escobar Fernandes faleceu no último sábado (10), aos 94 anos, em decorrência de uma leucemia. Antes de morrer, ela procurava reencontrar seus amados alunos e, agora, a neta Mirian dá continuidade à sua busca.
Entre os milhares de alunos que Eny teve ao longo de sua trajetória, um a marcou de maneira especial e se tornou um exemplo vivo do poder transformador da educação: Ronaldo, que, conforme especula Mirian, foi aluno da avó entre os anos 1980 e 2000, na Escola Municipal Prefeito Manoel Inácio de Souza, no bairro Santo Antônio, em Campo Grande.
“Ele era um aluno de quem ela falava sempre com carinho; queria muito encontrá-lo antes de falecer para saber como ele estava”, conta Mirian.
Conforme o relato da avó, que foi gravado para um posterior documentário, Ronaldo era um aluno levado e hiperativo, que tinha dificuldades para se adaptar à escola. Após ser transferido para a turma de Eny, que o tratou com atenção, o aluno teve uma melhora visível.
“Ele conseguiu seguir com os estudos e uma vez a encontrou na rua. Contou que estava bem e agradeceu, pois ela o ajudou”, afirma a neta.
Documentário
Para manter viva a história da avó e resgatar e dar visibilidade às histórias de mulheres que tiveram importância social e contribuíram de alguma forma para a construção e transformação de Mato Grosso do Sul, mas que, por diferentes razões, não são tão conhecidas ou reconhecidas quanto suas trajetórias merecem, Mirian está produzindo uma série documental.
“Queremos contar histórias que muitas vezes ficaram restritas ao ambiente familiar, às comunidades ou à memória de quem conviveu com essas mulheres, mas que têm relevância histórica e social e merecem ser conhecidas por um público maior”, afirma.
A proposta é apresentar essas mulheres para além de suas biografias, mostrando o contexto em que viveram, os desafios que enfrentaram, as barreiras que romperam e o impacto que tiveram na vida de outras pessoas e na sociedade sul-mato-grossense.
“O primeiro episódio é sobre a minha avó, Eny, que aprendeu a ler e escrever sozinha, aos seis anos, e, ainda jovem, começou a alfabetizar pessoas na zona rural de Bela Vista”, destaca.
“O documentário está em produção. Captamos o que conseguimos de relatos dela mesma. Estamos procurando documentos antigos sobre essa escola que ela fundou – que não existe mais –, assim como depoimento de algum aluno, se acharmos”, relata.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)










