Quem passa pela Avenida Calógeras, no bairro Vila Santa Dorotheia, em Campo Grande, talvez já tenha reparado em uma capelinha verde e amarela em meio às sepulturas comuns do Cemitério Santo Antônio.
A pintura chama a atenção de longe e despertou a curiosidade de um morador, que quis saber a história por trás do túmulo tão diferente dos demais. “Dá para ver de fora o verde e amarelo. Chama muito a atenção”, relatou.
O Jornal Midiamax foi até o local para conhecer a história da sepultura, que tem uma explicação ligada ao futebol e ao amor de um familiar pelo esporte.
Segundo o encarregado do Cemitério Santo Antônio, Lilsson Souza, a pintura foi feita por um parente da família durante uma Copa do Mundo deste ano. A ideia era homenagear um dos familiares sepultados ali, que era torcedor apaixonado por futebol.
“Ele [familiar] veio, começou a pintar, e os meninos [coveiros] conversaram com ele: ‘Se até o defunto está torcendo pelo Brasil, eu também vou torcer’. Ele falou que o pai era torcedor. Gostava de futebol. Foi repaginado na Copa, na Copa mesmo”, contou.
Mesmo sobrenome
Os registros do cemitério indicam que o primeiro sepultamento no túmulo ocorreu em 1958. A capelinha reúne nomes de familiares que morreram entre as décadas de 1950 e 1990, com idades entre 64 e 83 anos.
Não é possível determinar com precisão quando a estrutura foi construída. De acordo com Lilsson, o primeiro sepultamento costuma ser usado como referência para estimar a idade de um jazigo.
Como algumas famílias compravam o terreno e construíam a sepultura antes mesmo de precisar utilizá-la, a construção pode ter sido feita alguns anos antes ou depois do primeiro registro.
“Nela [sepultura] tem o sinal da cruz, que é um elemento que indica ser uma família cristã. Na capelinha tem outros elementos que confirmam, como a imagem de Nossa Senhora”, descreve.

Um cemitério de histórias
A capelinha verde e amarela não está sozinha entre as sepulturas coloridas. Nas proximidades, outros dois túmulos também se destacam na paisagem fúnebre: um amarelo e outro azul.
As cores vivas contrastam com os tons mais sóbrios encontrados em boa parte do cemitério. As estruturas têm elementos religiosos, como cruzes, e formatos que lembram pequenas capelas e monumentos funerários.
Para Lilsson, observar esses detalhes também faz parte do trabalho. Geógrafo com especialização em Ciências Sociais, ele conta que não imaginava desenvolver uma relação tão próxima com a função de administrador do espaço. Nos primeiros dias, chegou a pensar em desistir, por se considerar emotivo demais para lidar com a rotina do cemitério.


Zelo
Com o tempo, passou a enxergar o trabalho de outra maneira e encontrou uma definição própria para a função: “zelador de silêncios e afetos”. “A gente lida com os sentimentos. Você recebe uma família no momento mais difícil que ela está passando, e é como zelar”, explica.
Vale lembrar que o Cemitério Santo Antônio é o mais antigo cemitério público de Campo Grande, com origem por volta de 1914, e também preserva parte da memória arquitetônica da cidade.
Apesar dos cemitério lotar no Dia de Finados, o especialista encerra dizendo que os jazidos são demostram diferentes formas de expressar a fé, a saudade e as lembranças de quem já partiu.
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