Policiais investigados na Operação Infiltrados, que descobriu um esquema de desvio de cocaína comandado pelo delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, usavam bancos de dados restritos para subtrair cargas de traficantes e, posteriormente, desviá-las em Mato Grosso do Sul.
O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) deflagrou a Operação Infiltrados em setembro deste ano após identificar um esquema de desvio de drogas na Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico), comandado pelo delegado Hoffman — preso desde o dia 24.
Neste mês, o Gaeco apresentou à Justiça denúncia contra o delegado e outros 22 investigados por suposta participação na organização criminosa. Na denúncia, consta que os investigados usavam plataformas restritas, como o Sigo (Sistema Integrado de Gestão Operacional) e o Córtex, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, para vigiar e interceptar cargas de traficantes que não pertenciam ao grupo.
Durante as investigações, foram encontrados prints do sistema Córtex nos arquivos de Lucas da Silva dos Santos, o ‘LK’, datados de maio de 2025. Naquele dia, um veículo Gol foi consultado pelos investigados, “confirmando a utilização indevida de ferramentas institucionais de uso restrito em benefício da organização criminosa”.
Posteriormente, uma auditoria no Sigo revelou que o policial militar Alison Lemes Bezerra, conhecido como “Daga” ou “Daguinha”, e o policial penal Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos fizeram consultas ao prontuário do indivíduo que estava no print dos arquivos de ‘LK’.
Além das consultas em nome do indivíduo, o militar fez várias consultas ao veículo, confirmando que era ele quem fazia as checagens a pedido do traficante ‘LK’. “Seu parceiro é conhecido traficante de drogas”, descreve trecho da denúncia.

O Jornal Midiamax já havia noticiado que, entre maio e junho de 2025, ‘LK’, um policial penal e dois policiais militares teriam monitorado um depósito de drogas de dois suspeitos, no intuito de apreender os entorpecentes para comercialização. Os policiais teriam feito checagem de veículos nos sistemas oficiais para ‘LK’ e colocado ‘carrapato’ nos carros dos alvos.
Durante as investigações, foram encontradas mensagens de áudio de ‘LK’, que estaria monitorando a chegada de um carregamento de drogas a partir de Campo Grande. Ele sabia que a carga chegaria por meio do trevo de acesso à Sidrolândia, após passar por Maracaju.
O traficante questionava se seu interlocutor estaria acompanhando a localização e o rastreamento do veículo usado para o transporte da carga ilícita. Assim, ficou demonstrado que ‘LK’ teve acesso a banco de dados de monitoramento com uso de câmeras de leitura automática de placas. Antes disso, ele já havia mencionado à companheira que acreditava que a carga vigiada naquele momento seria monitorada via satélite (GPS).

Vitor Venâncio foi preso com outro policial militar no dia 14 de abril, durante investigação conduzida pela Denar, justamente por fatos relacionados ao roubo de drogas em uma casa no Parque dos Girassóis. “Isto é, por conduta que se amolda justamente ao modus operandi da organização criminosa alvo desta investigação (desvio de drogas por parte de agentes da segurança pública)”, diz a denúncia.
Denúncia reúne 23 acusados
Além de Hoffman, a denúncia apresentada à Justiça inclui outros 22 acusados, entre policiais civis, um policial penal e pessoas apontadas como integrantes da rede de tráfico ou responsáveis pela movimentação financeira dos recursos. Dois policiais militares também são mencionados na investigação, mas o Ministério Público informa que apresentará a ação contra eles perante a Justiça Militar.
O documento descreve diferentes funções dentro do grupo, desde a obtenção de informações sobre cargas de drogas até o desvio dos entorpecentes, a comercialização e a movimentação de dinheiro.
A Operação Infiltrados foi deflagrada pelo Gaeco em 24 de setembro de 2026, com cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão. As investigações tiveram origem em elementos encontrados durante as operações Traquetos e Blindspot.
A denúncia representa a acusação formal do Ministério Público e será analisada pelo juízo quanto ao possível recebimento das acusações. Caso seja aceita, a ação terá continuidade, com abertura de prazos para as defesas.
A defesa do delegado Hoffman, feita pelo advogado José Roberto Rosa, afirma que as provas apresentadas serão questionadas durante a instrução processual. Segundo o advogado, a análise dos elementos em seu contexto integral deve demonstrar que o delegado não participou dos ilícitos investigados.
“Infelizmente, há indicações de que pessoas que agiam sob o comando do delegado teriam, de alguma forma, agido contra a lei, mas não há indicação direta de participação dele [Hoffman], a não ser recortes com indicações e suposições de que ele teria aderido a essa conduta”, afirmou Rosa.
O advogado também destacou que as provas serão contestadas durante o processo judicial e demonstrou confiança no resultado. “Temos certeza de que, ao final, a verdade vai prevalecer e vai ficar demonstrado que o delegado não teve qualquer participação nesses eventos”, declarou.
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(Revisão: Nichole Munaro)







