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Contrato da Rota da Celulose é alvo na Justiça e empresas são investigadas

Vencedora de leilão na B3 questiona decisão que deixou Rota da Celulose com segunda colocada
Adriel Mattos -
rota celulose
BR-262 é uma das rodovias que integram a Rota da Celulose. (Foto: Álvaro Rezende, Secom-MS)

O contrato da Rota da Celulose — o conjunto das rodovias MS-040, MS-338 e MS-395, BR-262 e BR-267, na região leste de Mato Grosso do Sul — virou alvo de uma disputa na Justiça. Além disso, duas empresas do consórcio que assinou o contrato são alvos de investigação.

Vencedor do leilão na B3 — a Bolsa de Valores de —, o Consórcio K&G é formado pelas empresas Galápagos Participações Ltda. e K Infra Concessões e Participações Ltda. Porém, o grupo foi desclassificado após recurso do Consórcio Caminhos da Celulose.

Esse segundo consórcio é liderado pela XP Infra, uma subsidiária da corretora XP Investimentos. Além dela, sete empresas compõem o grupo, incluindo a Construtora Caiapó Ltda. (CNPJ 00.237.518/0001-43) e a Ética Construtora Ltda. (CNPJ 26.631.473/0001-80).

Após conseguir eliminar o K&G, o Caminhos da Celulose conseguiu conquistar o contrato, fazendo aporte de R$ 195 milhões em fevereiro de 2026. Inconformado, o Consórcio K&G foi à Justiça de Mato Grosso do Sul para questionar o procedimento que levou à eliminação dele e à classificação do segundo colocado.

Por sua vez, o Consórcio Caminhos da Celulose tem duas empresas investigadas. A Caiapó foi punida em março pela CGU (Controladoria-Geral da União), com multa de R$ 37 milhões e declaração de inidoneidade, por conta de um esquema de corrupção em obras públicas federais no Paraná.

Apesar disso, a Caiapó não fica impedida de continuar na Rota da Celulose, já que a inabilitação foi depois do contrato e é válida apenas para atos licitatórios posteriores à declaração.

Já a Ética é alvo do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) por suposta formação de cartel. A apuração mira um esquema de empreiteiras que atuavam em conjunto para conquistar contratos com o Poder Público.

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Empresa eliminada questiona exigências após leilão

A empresa K Infra Concessões e Participações Ltda. (CNPJ: 13.884.866/0001-54) recorreu à Justiça em outubro de 2025 contra a desclassificação na licitação da Rota da Celulose. A empreiteira é a líder do Consórcio K&G.

O juiz Marcelo Andrade Campos Silva, da 3ª Vara de Fazenda Pública e de Registros Públicos de , declinou da competência para julgar o caso, ou seja, viu que não tinha como decidir o caso, já que a instância que analisa atos do Poder Executivo Estadual é o TJMS (Tribunal de Justiça de MS).

O caso subiu para o TJ e o recurso da empresa será julgado na segunda-feira (8). Uma liminar já foi negada e, agora, os desembargadores da 2ª Seção Cível da corte avaliam o caso.

O advogado da K-Infra, João Sarmento, explicou ao Jornal Midiamax que a empresa estranha o motivo da eliminação. A Caminhos da Celulose apresentou uma suposta impossibilidade do K&G continuar por conta de irregularidades em contrato no .

No curso do processo, a empresa esclareceu que o encerramento do contrato de concessão da Rodovia do Aço (BR-393/RJ), em 2021, foi por conta de multas não pagas da concessionária que assumiu após 2019. Além disso, a K-Infra era a controladora, e não a titular da concessão, e, por isso, não fica impedida de participar de outras licitações.

“Diversos pontos de ilegalidade no certame chamam a atenção. O principal deles, foi a Comissão Especial de Licitação utilizar o fundamento de caducidade de outra concessão como fundamento para afastar a capacidade técnica do Consórcio K&G. A caducidade não existia no momento da habilitação da concessionária, o que foi inclusive certificado em leilão público na B3. Utilizou-se o processo administrativo de caducidade para inabilitar o Consórcio K&G em momento posterior, no qual já havia se sagrado vencedor do certame”, explica o advogado.

Sarmento ainda cita que a Comissão de Licitação fez uma série de diligências para obter mais documentos, o que não estava previsto no edital.

“Chama a atenção porque esses mesmos documentos não foram exigidos de qualquer outro participante, sequer do consórcio que assumiu o seu lugar na licitação. Trata-se, portanto, de violação à isonomia e eventual direcionamento de licitação. O último fato que causa extrema estranheza também foi a postura da ANTT [Agência Nacional de Transportes Terrestres] no certame. Mediante requisição de informações da Comissão Especial de Licitação, a ANTT revogou o atestado de capacidade técnica do Consórcio K&G, vale frisar novamente, após a sua habilitação no certame”, detalhou.

Essa caducidade virou tema de outra ação, desta vez no STF (Supremo Tribunal Federal). Como o caso está pendente de julgamento, o advogado da K-Infra avalia que isso é outro fator que não deveria basear a desclassificação.

“Soma-se a isso o fato de que o processo de transferência de controle da rodovia ainda não foi finalizado e, no momento, ainda se discute a legalidade do decreto de caducidade no Supremo Tribunal Federal. Não é, portanto, um fato consolidado; por isso mesmo não poderia, em nenhuma forma admitida em direito, ser utilizado para desclassificar o Consórcio K&G”, explicou.

A continuidade da licitação, com a assinatura do contrato pelo Caminhos da Celulose, cria uma insegurança jurídica, na visão do defensor da K-Infra. Caso o TJMS não acolha o recurso, Sarmento destacou que a empresa vai levar o caso para as instâncias superiores.

“Nesse caso, certamente o Consórcio K&G irá ao STJ [Superior Tribunal de Justiça]. Contudo, seguimos acreditando na capacidade do TJMS de entender a situação com a profundidade que se exige”, concluiu.

Mapa da Rota da Celulose. (Foto: Divulgação, Caminhos da Celulose)

Consórcio contratado tem duas empresas investigadas

O Consórcio Caminhos da Celulose tem oito empresas e é liderado pela XP Infra V Fundo de Investimento em Participações, vinculada ao Grupo XP, que controla a maior corretora de investimentos do Brasil.

Em março de 2026, a Construtora Caiapó foi condenada pela CGU após as investigações da Operação Rolo Compressor, que constatou fraudes em contratações e execução de obras públicas relacionadas principalmente à Superintendência Regional do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) no Paraná.

A investigação indicou que, entre 2011 e 2022, funcionários públicos do DNIT teriam recebido vantagens indevidas de empresas. A CGU responsabilizou a Caiapó por parte dessas fraudes, multando-a em R$ 37,3 milhões e declarando inidoneidade, que impede de participar de novas licitações.

Já no âmbito do Cade, a Ética Construtora é alvo de investigação por formação de cartel entre empreiteiras para participar de licitações do DNIT e da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco).

As empresas investigadas se juntaram, a princípio, para a subcontratação de concorrentes que atuaram em favor do vencedor do certame, mediante a implementação de estratégias, como propostas de cobertura e supressão de propostas.  

Estima-se que, no período de 2021 a 2024, as licitações potencialmente afetadas tenham atingido o valor de R$ 10 bilhões. Se condenadas, as empreiteiras podem pagar multa que chega a 20% do faturamento bruto.

O que dizem os citados

O Jornal Midiamax procurou a concessionária Caminhos da Celulose, as empresas Construtora Caiapó e Ética Construtora e o Governo do Estado para comentar o caso. Até esta publicação, nenhum dos envolvidos respondeu. O espaço continua aberto para manifestação.

Disputa pela concessão da Rota da Celulose

Em maio de 2025, o Consórcio K&G venceu o leilão da concessão da Rota da Celulose. O grupo é formado pelas empresas Galápagos Participações Ltda. e K Infra Concessões e Participações Ltda.

O consórcio ofereceu desconto de 9% na tarifa de pedágio, com aporte de R$ 217.389.913,70. Já o Consórcio Caminhos da Celulose, segundo colocado, chegou perto ao ofertar 8% de desconto, com aporte de R$ 195.619.568,80. Um terceiro consórcio e uma empresa disputaram o certame.

Já em agosto, o Consórcio K&G foi desclassificado após o leilão de maio, e o Governo do Estado convocou o segundo colocado, o Consórcio Caminhos da Celulose. Em setembro, foi homologado o resultado do julgamento, que declarou vencedor o segundo colocado no leilão.

O Consórcio Caminhos da Celulose é composto pelas seguintes empresas: 

  • XP Infra V Fundo de Investimento em Participações (CNPJ 55.128.678/0001-46);
  • CLD Construtora, Laços Detetores e Eletrônica Ltda. (CNPJ 55.996.615/0001-01);
  • Construtora Caiapó Ltda. (CNPJ 00.237.518/0001-43);
  • Ética Construtora Ltda. (CNPJ 26.631.473/0001-80);
  • Distribuidora Brasileira de Asfalto Ltda. (CNPJ 26.917.005/0001-77);
  • Conter Construções e Comércio S.A. (CNPJ 60.829.215/0001-41);
  • Conster Construções e Terraplanagem Ltda. (CNPJ 46.271.383/0001-33).

Rota da Celulose

plano da Rota da Celulose prevê R$ 10,1 bilhões em investimentos, sendo R$ 6,9 bilhões em capex e R$ 3,2 bilhões para despesas operacionais ao longo de 30 anos de contrato.

Entretanto, serão concedidos 870,3 quilômetros da Rota da Celulose, que ganhou esse nome por ser formada por rodovias importantes para a cadeia produtiva da celulose em Mato Grosso do Sul.

O trecho contempla extensões das rodovias estaduais MS-040, MS-338 e MS-395 e das federais BR-262 e BR-267. Ademais, a concessão prevê recuperação, operação, manutenção, conservação, implantação de melhorias e ampliação de capacidade do sistema rodoviário pelo prazo de 30 anos.

Contudo, após a falta de interessados na primeira tentativa de leiloar a Rota da Celulose, o projeto passou por alguns ajustes no edital. Entre eles, um modelo econômico-financeiro que reduz os investimentos obrigatórios durante os primeiros quatro anos de operação — uma das demandas apresentadas pela iniciativa privada.

A projeção de receita dos 20 anos de operação também foi alterada. A concessionária deverá duplicar 115 km de rodovias, construir 457 km de acostamentos e 245 km de terceiras faixas, além de 12 km de vias marginais.

Ainda, serão implantados 38 km de contornos urbanos, 25 acessos, 22 passagens de fauna e 20 alargamentos de pontes. Estão contempladas, também, obras especiais e estruturas como pontes e passarelas, totalizando 3.780 m².

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(Revisão: Nichole Munaro)

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