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Transparência

‘Das tripas, coração’: ex-vice da Santa Casa é flagrado em áudio prometendo pagamento a empresário

Investigação do Gaeco revelou esquema da diretoria do hospital que desviou milhões da saúde em Mato Grosso do Sul
Gabriel Maymone, Thatiana Melo -
‘Das tripas, coração’: ex-vice da Santa Casa é flagrado em áudio prometendo pagamento a empresário
Ex-vice-presidente da Santa Casa Jary Castro em áudio falando com o empresário Maurício Benites. (Montagem: Reprodução, Redes Sociais)

Áudios obtidos pela investigação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) revelaram a preocupação de Jary de Carvalho Castro, ex-vice-presidente da Santa Casa, em realizar os pagamentos para a empresa Redvalue Tecnologia, de Maurício Aparecido Benites.

Na última sexta-feira (11), o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) deflagrou a Operação Antidotum, que revelou esquema de desvio milionário no hospital através da contratação de empresas ‘parceiras’.

Nos áudios, Jary começa dizendo a Maurício: “Não me esqueci de você, não” e se justifica ao empresário sobre um possível atraso no repasse dos valores. “Estamos tentando achar solução para o mês que vem e o outro.”

E continua se explicando: “Vou ver com o Rinaldo [diretor financeiro] como é que a gente faz para pagar uma parte para você, tá? Não tem como pagar R$ 1 milhão e 800 em cash porque eu tô com a fiscalização em cima“, justifica-se, prometendo: “Nós vamos fazer das tripas coração e pagar algumas partes pra você“.

Na ocasião, foram presos Maurício Benites, a presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, os diretores do hospital, Rinaldo Hakme Romano (diretor financeiro do hospital), Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa (diretor financeiro adjunto), Alessandro Dias Junqueira (diretor administrativo) e a supervisora do setor de prontuário, Monique Gregório.

Jary renunciou ao cargo em janeiro de 2026. Apesar de não ter sido preso, ele é investigado.

Confira abaixo o áudio:

A defesa de Maurício, representada pelo advogado Fábio Leandro, disse que irá provar no processo que a prestação de serviço foi feita regularmente: “Maurício não praticou nenhuma ilegalidade, a contratação foi lícita, a prestação de serviço estava sendo feita regularmente com números muito superiores aos apontados pelo Ministério Público e que juntaremos ao processo toda a documentação comprobatória”.

A reportagem tentou contato com Jary de Castro por ligação e mensagens, mas não obtivemos retorno. O espaço segue aberto e o texto será atualizado assim que houver posicionamento.

‘A caneta está com a gente’, disse Jary

Em outro áudio apontado pela investigação, Jary tranquilizou o empresário Maurício sobre a resistência técnica de funcionários do hospital em relação a um dos sistemas contratados, dizendo que “a caneta está com a gente”.

Reprodução do documento mostra diálogos entre vice-presidente da Santa Casa e empresário investigado. (Reprodução, MPMS)

“A expressão utilizada por JARY CASTRO sintetiza o funcionamento e o poder da organização criminosa no âmbito da Santa Casa, uma vez que eventuais resistências técnicas internas não representavam obstáculo porque o poder decisório permanecia concentrado no grupo que comandava a instituição. O diálogo demonstra domínio sobre a estrutura administrativa e segurança de que as decisões necessárias à contratação seriam impostas internamente, independentemente da oposição dos setores técnicos”, destacou o MPMS.

O processo de contratação investigado envolve a empresa Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços. O contrato previa o pagamento mensal de R$ 150.000,00 para a digitalização de prontuários médicos.

De acordo com a investigação, o comitê também aprovou um termo aditivo que reduziu o volume de serviços exigidos da empresa sem diminuir o valor da remuneração, liberando uma programação financeira de R$ 750.000,00 à contratada.

As apurações indicam que Maurício Benites operava um núcleo empresarial formado pela Redvalue, Exbe e Infortech. O MPMS relata que essas empresas não possuíam atuação independente e compartilhavam direção, estrutura, recursos e empregados para simular concorrência e receber os valores dos contratos.

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(Revisão: Nichole Munaro)

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