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Veículos

A era do agro ostentação: caminhonetes viram paixão e estilo de vida em MS

Da Rural Willys aos modelos que ultrapassam o meio milhão de reais; entenda como as picapes ganharam espaço nesses 49 anos de Mato Grosso do Sul
Gabriel Maymone -
A era do agro ostentação: caminhonetes viram paixão e estilo de vida em MS
No Estado movido pelo agro e pela música sertaneja, a caminhonete tornou-se símbolo de um estilo de vida que ganha cada vez mais espaço. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Ao rodar por Mato Grosso do Sul, é possível ver muitas fazendas, plantações, gado e diversas caminhonetes. Todo esse cenário é reflexo de um estilo de vida que foi se construindo no decorrer desses 49 anos e hoje carrega um símbolo de pertencimento de um povo que começou sua história a partir da divisão de Mato Grosso.

Enquanto o novato estado do Centro-Oeste do Brasil começava a construir sua própria identidade, as picapes já faziam parte do cotidiano do sul-mato-grossense com a Toyota Bandeirante e a consagrada Rural Willys.

Mas o tempo foi passando e a caminhonete ganhou uma nova projeção, deixando para trás o seu perfil mais utilitário e conquistando espaço num estilo de vida ligado à forte presença do agro, que ganha tração com a moda country e a música sertaneja.

Aliás, é na música que o veículo ganha tração com o agro ‘ostentação’, em que se torna objeto de desejo. Quem nunca ouviu uma letra com trechos exaltando nomes de caminhonetes, 4×4 ou sobre pneu gigante?

Muito mais do que ferramenta de trabalho, as picapes ganharam todo um mercado de modificações que movimentam muito dinheiro. Muitos adeptos das modificações chegam a pagar quase o preço de outra caminhonete, preparando seus veículos. Mas por quê?

Nas palavras de quem conhece esse universo muito bem: “Hoje, uma caminhonete original é feia”, diz Guilherme Maia, influenciador da página BF///MS, com mais de 1 milhão de apaixonados por essas máquinas e que já se transformou numa marca — e até mesmo versão oficial da L200.

Para Guilherme, personalizar a caminhonete é uma forma de “expressão da personalidade e das amizades”, já que os adeptos das modificações compartilham uns com os outros o que ‘mexeram’.

Guilherme criou a página BFMS, que reúne mais de 1 milhão de apaixonados por caminhonetes. (Leo de França, Jornal Midiamax)

Encontro com a cara de MS: música, festa e caminhonetes na lama

Em , o encontro Movidos 4×4 reuniu milhares de fãs não só das caminhonetes, mas de toda a cultura do interior de Mato Grosso do Sul.

Grupos se reúnem pela paixão por caminhonetes em MS. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

“A sensação de liberdade é incrível, de poder expressar o que você está sentindo no momento”, resumiu Adriana da Silveira Klein, logo após ‘brincar’ com uma potente Ford Ranger na ‘pista de moagem’, onde a lama é amiga da diversão.

Ao ser questionada sobre o porquê dessa paixão do sul-mato-grossense por ‘caminhonetonas’, Adriana resume: “A cultura de Mato Grosso do Sul é do agro, da fazenda, da música”, disse, complementando que usa a picape para tudo: “Uso tanto para trabalho na fazenda como para diversão”, concluiu.

Adriana em sua caminhonete antes de brincar na pista de lama. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Esse tipo de encontro começou há alguns anos, no interior do Paraná, e logo chegou a Mato Grosso do Sul, porque não tinha como ser diferente.

O empresário Claudinei Brambilla, conhecido como Magrelo, realizou, na véspera do aniversário do Estado, a terceira edição do encontro.

O organizador comenta que o movimento de fãs do 4×4 cresceu muito e se relaciona ao fator econômico: “Vem crescendo com a força do agronegócio, com as picapes”, avalia.

Paixão pelas caminhonetes cresce com a força do agro em Mato Grosso do Sul. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Na visão do organizador, a paixão do sul-mato-grossense pelo mundo das caminhonetes off-road impulsionou após a pandemia: “O público havia mudado o comportamento para pubs e tabacarias. Mas, depois da pandemia, nós lançamos esse evento segmentado, o 4×4, do mundo off-road, e tem muito potencial. Hoje, é um evento de família”.

Magrelo comemora o sucesso do evento e resume: “Sem dúvida, faz parte da cultura do Estado. Mato Grosso do Sul é agro, é picape e é muito mais do que isso”, completa.

Claudinei Magrelo organiza um dos principais encontros de caminhonetes de Mato Grosso do Sul. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Um sonho, muitas modificações e R$ 120 mil depois…

E, antes que qualquer um trace um estereótipo sobre esse público, vamos te contar a história de Cláudio Vanderlei.

Ele é médico campo-grandense, mas mora em e trabalha há anos em uma caminhonete modificada do Exército.

O veículo destoava em meio às RAMs, Hilux e Rangers, mas talvez tenha a história mais legal de personalização. Isso porque ele foi completamente modificado.

Cláudio conta que comprou a caminhonete em um leilão: “É um sonho de guri, um brinquedo de criança. A gente acaba investindo nesse hobby porque traz felicidade”.

Cláudio gastou mais de R$ 120 mil para transformar uma caminhonete do Exército em uma máquina off-road. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

A personalização envolveu desde os pneus preparados para trilhas lamaçentas, até a cabine que foi estendida para abrir mais espaço e dar mais conforto. “Colocamos motor potente, rodas para não ficar atolado e uma cabine estendida. Coloquei direção hidráulica e ar-condicionado.”

Para fazer tudo isso, “somando aos poucos, [gastei] entre R$ 120 mil e R$ 130 mil, com certeza”, resume o médico.

Mercado das modificações vai além

Moda e música andam juntas entre os adeptos das caminhonetes. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

No mundo off-road, outros personagens ‘disputam’ espaço com as caminhonetes. Os Jeeps também mobilizam grande número de adeptos por MS — e também são quase que obrigatoriamente modificados.

Mas o motivo é outro. Conforme o produtor rural Alan Marcelo, as modificações são menos ‘ostentações’ e mais práticas: “Estou com um Jeep aqui em que foi mexido motor, diferencial e suspensão. Isso porque, na trilha, precisamos chegar até o final. Se quebrar, você precisa melhorar a peça”, explica.

Os valores também podem ser bem salgados: “Você vai gastar uns R$ 100 mil tranquilamente”.

Ainda na linha dos off-roads, há os chamados UTVs (Utility Task Vehicle), veículos utilitários multitarefas. Um proprietário revelou à reportagem que pagou R$ 469 mil no automóvel e gastou outros R$ 140 mil com modificações.

Quem não tem caminhonete ou UTV faz a festa com Fusca, Del Rey ou Uno. Afinal, a cultura do sul-mato-grossense tem a capacidade de abraçar todos os grupos, e foi assim que o povo de MS foi criando sua própria identidade.

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