Ao rodar por Mato Grosso do Sul, é possível ver muitas fazendas, plantações, gado e diversas caminhonetes. Todo esse cenário é reflexo de um estilo de vida que foi se construindo no decorrer desses 49 anos e hoje carrega um símbolo de pertencimento de um povo que começou sua história a partir da divisão de Mato Grosso.
Enquanto o novato estado do Centro-Oeste do Brasil começava a construir sua própria identidade, as picapes já faziam parte do cotidiano do sul-mato-grossense com a Toyota Bandeirante e a consagrada Rural Willys.
Mas o tempo foi passando e a caminhonete ganhou uma nova projeção, deixando para trás o seu perfil mais utilitário e conquistando espaço num estilo de vida ligado à forte presença do agro, que ganha tração com a moda country e a música sertaneja.
Aliás, é na música que o veículo ganha tração com o agro ‘ostentação’, em que se torna objeto de desejo. Quem nunca ouviu uma letra com trechos exaltando nomes de caminhonetes, 4×4 ou sobre pneu gigante?
Muito mais do que ferramenta de trabalho, as picapes ganharam todo um mercado de modificações que movimentam muito dinheiro. Muitos adeptos das modificações chegam a pagar quase o preço de outra caminhonete, preparando seus veículos. Mas por quê?
Nas palavras de quem conhece esse universo muito bem: “Hoje, uma caminhonete original é feia”, diz Guilherme Maia, influenciador da página BF///MS, com mais de 1 milhão de apaixonados por essas máquinas e que já se transformou numa marca — e até mesmo versão oficial da L200.
Para Guilherme, personalizar a caminhonete é uma forma de “expressão da personalidade e das amizades”, já que os adeptos das modificações compartilham uns com os outros o que ‘mexeram’.

Encontro com a cara de MS: música, festa e caminhonetes na lama
Em Nova Andradina, o encontro Movidos 4×4 reuniu milhares de fãs não só das caminhonetes, mas de toda a cultura do interior de Mato Grosso do Sul.

“A sensação de liberdade é incrível, de poder expressar o que você está sentindo no momento”, resumiu Adriana da Silveira Klein, logo após ‘brincar’ com uma potente Ford Ranger na ‘pista de moagem’, onde a lama é amiga da diversão.
Ao ser questionada sobre o porquê dessa paixão do sul-mato-grossense por ‘caminhonetonas’, Adriana resume: “A cultura de Mato Grosso do Sul é do agro, da fazenda, da música”, disse, complementando que usa a picape para tudo: “Uso tanto para trabalho na fazenda como para diversão”, concluiu.

Esse tipo de encontro começou há alguns anos, no interior do Paraná, e logo chegou a Mato Grosso do Sul, porque não tinha como ser diferente.
O empresário Claudinei Brambilla, conhecido como Magrelo, realizou, na véspera do aniversário do Estado, a terceira edição do encontro.
O organizador comenta que o movimento de fãs do 4×4 cresceu muito e se relaciona ao fator econômico: “Vem crescendo com a força do agronegócio, com as picapes”, avalia.

Na visão do organizador, a paixão do sul-mato-grossense pelo mundo das caminhonetes off-road impulsionou após a pandemia: “O público havia mudado o comportamento para pubs e tabacarias. Mas, depois da pandemia, nós lançamos esse evento segmentado, o 4×4, do mundo off-road, e tem muito potencial. Hoje, é um evento de família”.
Magrelo comemora o sucesso do evento e resume: “Sem dúvida, faz parte da cultura do Estado. Mato Grosso do Sul é agro, é picape e é muito mais do que isso”, completa.

Um sonho, muitas modificações e R$ 120 mil depois…
E, antes que qualquer um trace um estereótipo sobre esse público, vamos te contar a história de Cláudio Vanderlei.
Ele é médico campo-grandense, mas mora em Dourados e trabalha há anos em uma caminhonete modificada do Exército.
O veículo destoava em meio às RAMs, Hilux e Rangers, mas talvez tenha a história mais legal de personalização. Isso porque ele foi completamente modificado.
Cláudio conta que comprou a caminhonete em um leilão: “É um sonho de guri, um brinquedo de criança. A gente acaba investindo nesse hobby porque traz felicidade”.

A personalização envolveu desde os pneus preparados para trilhas lamaçentas, até a cabine que foi estendida para abrir mais espaço e dar mais conforto. “Colocamos motor potente, rodas para não ficar atolado e uma cabine estendida. Coloquei direção hidráulica e ar-condicionado.”
Para fazer tudo isso, “somando aos poucos, [gastei] entre R$ 120 mil e R$ 130 mil, com certeza”, resume o médico.
Mercado das modificações vai além

No mundo off-road, outros personagens ‘disputam’ espaço com as caminhonetes. Os Jeeps também mobilizam grande número de adeptos por MS — e também são quase que obrigatoriamente modificados.
Mas o motivo é outro. Conforme o produtor rural Alan Marcelo, as modificações são menos ‘ostentações’ e mais práticas: “Estou com um Jeep aqui em que foi mexido motor, diferencial e suspensão. Isso porque, na trilha, precisamos chegar até o final. Se quebrar, você precisa melhorar a peça”, explica.
Os valores também podem ser bem salgados: “Você vai gastar uns R$ 100 mil tranquilamente”.
Ainda na linha dos off-roads, há os chamados UTVs (Utility Task Vehicle), veículos utilitários multitarefas. Um proprietário revelou à reportagem que pagou R$ 469 mil no automóvel e gastou outros R$ 140 mil com modificações.
Quem não tem caminhonete ou UTV faz a festa com Fusca, Del Rey ou Uno. Afinal, a cultura do sul-mato-grossense tem a capacidade de abraçar todos os grupos, e foi assim que o povo de MS foi criando sua própria identidade.
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