Em junho de 2023, Ajike “AJ” Owens, mulher negra e mãe de quatro filhos, foi baleada e morta por uma vizinha na cidade de Ocala, na Flórida (EUA), durante uma discussão motivada por crianças brincando na rua. O caso ganhou documentário oficial na Netflix e figura entre os 10 longas mais assistidos da plataforma na última semana.
A assassina, Susan Lorincz, mulher branca e em idade avançada, frequentemente se envolvia em conflitos com a vizinhança, pois não gostava que as crianças da comunidade brincassem próximas a um terreno ao lado da casa onde ela morava.
Conflitos envolvendo crianças e adultos não são novidade ou caso isolado e resultam frequentemente em debates que dividem opiniões, como ocorreu no bairro Jardim Aeroporto, em Campo Grande, no domingo (12), após câmeras de segurança registrarem crianças tocando a campainha das casas e saindo correndo.
A “brincadeira”, vista por muitos adultos como coisa de “criança raiz”, foi duramente criticada por dezenas de internautas, que levantaram um debate sobre impor limites e respeito.
Convivência exige respeito mútuo e bom senso
Assim como os vizinhos têm direito ao descanso, as crianças também possuem direito ao lazer. A solução para esse problema não está em apontar quem está errado ou proibir os pequenos de brincarem, mas sim em saber diferenciar uma brincadeira saudável de um comportamento que invade o espaço ou causa prejuízo ao outro, como tocar campainhas de casas alheias, conforme explica a psicopedagoga Carla Pacheco.
“O papel do adulto não é impedir nem reprimir a brincadeira, mas ensinar limites, respeito e empatia, aproveitando o momento para o exercício do diálogo. Crianças precisam brincar, mas também precisam aprender que existem horários, locais e formas mais adequadas para determinadas brincadeiras. Da mesma forma, os adultos podem compreender que algum nível de movimento e barulho faz parte da infância”, completa.
A terapeuta e especialista em neurociência Glaucia Benini, por sua vez, destaca que, para viver em comunidade, é preciso diálogo, bom senso, responsabilidade e respeito mútuo. “Os vizinhos precisam entender que as crianças estão brincando e isso pode gerar certo barulho. E as crianças devem ter o limite de não desrespeitar os horários e os direitos da vizinhança.”
A infância precisa de limites, mas também de acolhimento
Especialistas alertam que reprimir constantemente comportamentos típicos da infância pode prejudicar o desenvolvimento emocional das crianças e favorecer o isolamento social. Com o tempo, elas podem reduzir o interesse em explorar o ambiente, brincar e interagir com outras pessoas.
Quando os adultos demonstram repetidamente que uma criança está incomodando ou agindo de forma inadequada apenas por se manifestar conforme a idade, ela pode desenvolver baixa autoestima, insegurança, dificuldade de socialização e medo de se expressar. No entanto, isso não significa que crianças devam crescer sem limites.
A terapeuta Glaucia Benini destaca que cabe aos adultos ensinar que não se pode invadir os direitos, a segurança ou o bem-estar de outras pessoas. Além disso, Glaucia frisa que os pais ou responsáveis, bem como outras pessoas do convívio da criança, sejam elas parentes ou vizinhos, devem evitar agir de forma desproporcional ao comportamento da criança.
“Existe diferença entre estabelecer limite e reagir de forma desproporcional. Estabelecer limite é você se impor de uma forma respeitosa [por meio do] diálogo, para que as duas partes entrem num consenso de respeito. Já reagir de forma desproporcional é quando o estresse por essa falta de limite escala para o desrespeito, para a violência, para a desregulação emocional”, explica a terapeuta.
A psicopedagoga Carla Pacheco completa destacando que as crianças precisam ser acolhidas e incentivadas, pois brincar e explorar o ambiente em que elas vivem fazem parte do desenvolvimento infantil e favorecem habilidades motoras, cognitivas, sociais e emocionais.
As relações ficaram mais complexas e isoladas?
Nos tempos dos nossos avós, todo mundo conhecia todo mundo, e a vizinhança era praticamente a extensão de seus quintais. Essa convivência fortalecia a empatia e favorecia a resolução dos problemas por meio do diálogo. Contudo, hoje em dia, existe cada vez menos contato entre vizinhos e mais isolamento. Quando não há este vínculo, pequenos conflitos tendem a ganhar proporções maiores, conforme explica a psicopedagoga Carla Pacheco.
Parte desse problema foi criada devido às tecnologias, visto que, atualmente, crianças substituíram as ruas pelo celular, e os adultos, igualmente, passam mais tempo nas telas. “Isso pode diminuir a capacidade de lidar com diferenças, negociar conflitos e desenvolver habilidades sociais. O problema não é a tecnologia em si, mas o desequilíbrio entre o mundo digital e as relações presenciais.”
A terapeuta Glaucia Benini avalia que o ritmo cada vez mais acelerado da vida, aliado ao uso intenso de tecnologias, tem impactado significativamente a cultura da convivência entre vizinhos. A especialista destaca que o uso excessivo de telas contribui para o isolamento social tanto de crianças quanto de adultos. “Não existe mais tanta proximidade, então é muito mais difícil que exista essa cultura e essa boa convivência. Mas o que se pode preservar hoje é o respeito.”

Os adultos estão cada vez mais intolerantes?
Afinal, por que uma criança brincando incomoda tanta gente? A terapeuta e especialista em neurociência Glaucia Benini aponta que o aumento do estresse na rotina dos adultos pode contribuir para reações exageradas diante de comportamentos típicos da infância. Dessa forma, situações simples do cotidiano podem se transformar em grandes conflitos quando envolvem pessoas emocionalmente sobrecarregadas, fazendo com que episódios que poderiam ser resolvidos no diálogo evoluam para confrontos desproporcionais.
A terapeuta aponta que o documentário “A Vizinha Perfeita”, que trata do caso do assassinato de Ajike “AJ” Owens, retrata essa escalada de um conflito entre vizinhos até uma consequência extrema. Para ela, casos como esse evidenciam uma dificuldade crescente das pessoas em lidar com frustrações e administrar as próprias emoções, o que pode transformar pequenos desentendimentos em situações graves.
“[Casos como o retratado no documentário] só evidenciam um fato muito cotidiano hoje em dia: como o ser humano está desregulado emocionalmente. Quando ele tem um agravo na sua saúde mental, ele não consegue gerenciar situações simples do cotidiano de frustração, o que culmina em tragédias, violências, brigas desnecessárias e conflitos. Nós estamos hoje lidando com frustração e convivência coletiva de uma forma muito menos saudável porque hoje o número e a possibilidade de desregulação emocional do ser humano são muito maiores”, explica a terapeuta.
Apesar da grande diferença de proporção entre os casos registrados no documentário e recentemente em um bairro de Campo Grande, a discussão revela um ponto em comum: a necessidade de fortalecer a convivência, o diálogo e a capacidade de estabelecer limites sem que conflitos cotidianos avancem para reações de intolerância.
“Uma comunidade emocionalmente saudável não é aquela onde nunca há conflitos, mas aquela em que as pessoas conseguem dialogar, estabelecer limites e preservar o respeito mútuo. Crianças precisam aprender a conviver, e os adultos também”, finaliza.
✅ Siga o Jornal Midiamax nas redes sociais
Você também pode acompanhar as últimas notícias e atualizações do Jornal Midiamax direto das redes sociais. Siga nossos perfis nas redes que você mais usa. 👇
É fácil! 😉 Clique no nome de qualquer uma das plataformas abaixo para nos encontrar:
Instagram, Facebook, TikTok, YouTube, WhatsApp, Bluesky e Threads.
💬 Fique atualizado com o melhor do jornalismo local e participe das nossas coberturas!
(Revisão: Nichole Munaro)







