Com previsão de calor extremo, estiagem e aumento do risco de incêndios, Campo Grande pode enfrentar, nos próximos meses, uma combinação de eventos climáticos capaz de pressionar os serviços de saúde. O cenário está ligado ao fortalecimento do El Niño, cuja ocorrência tem 100% de probabilidade e até 90% de chance de alcançar intensidade “muito forte”, segundo o Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima).
Diante da possibilidade de aumento de doenças e atendimentos relacionados às condições climáticas, o Cievs-CG (Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde de Campo Grande) emitiu um alerta epidemiológico e orientou profissionais da área a ficarem atentos a mudanças no padrão de atendimentos, internações e óbitos.
O fenômeno El Niño, associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial, está em atuação e deve ganhar intensidade já nos próximos dias. Para Campo Grande, os possíveis reflexos incluem temperaturas acima da média, ondas de calor, irregularidade das chuvas, períodos de estiagem e veranicos, combinação que pode impactar diretamente a saúde da população.
Calor, estiagem e fumaça

Entre os principais riscos está o aumento da ocorrência de incêndios florestais. A combinação de temperaturas elevadas, baixa umidade, vegetação seca, estiagem e ventos favorece a propagação do fogo e, consequentemente, amplia a exposição da população à fumaça.
Somente no ano passado, a Ouvidoria do SUS (Sistema Único de Saúde) recebeu 222 demandas relacionadas a queimadas urbanas em Campo Grande. Os registros envolviam desde focos de incêndio em residências e comércios até ocorrências em terrenos baldios.
Para este ano, a meteorologia prevê uma temporada de incêndios ainda mais intensa. Além dos danos ambientais, o avanço do fogo pode comprometer a qualidade do ar e aumentar a procura por atendimento médico.
Isso porque a exposição à fumaça pode agravar doenças respiratórias, como asma, bronquite e DPOC, além de provocar irritação das vias aéreas e dos olhos.
Nos últimos anos, o aumento de casos de síndromes respiratórias esteve entre os principais fatores de superlotação das unidades de urgência e emergência de Campo Grande. Em 2025, dados da Sesau mostravam que as UPAs da Capital atendiam, em média, cerca de 300 pacientes por dia.
Impactos do calor extremo

Além dos impactos provocados pela fumaça, as altas temperaturas representam outro risco direto à saúde. A exposição prolongada ao calor pode causar desidratação, exaustão, insolação e alterações na pressão arterial, bem como agravar doenças respiratórias e cardiovasculares.
Enquanto períodos prolongados de seca reduzem a disponibilidade de água, comprometem o abastecimento e favorecem a contaminação, episódios de chuva intensa podem provocar alagamentos, enxurradas e inundações. Em ambos os cenários, os riscos à saúde aumentam. O alerta cita doenças diarreicas, leptospirose, acidentes e situações de desassistência provocadas por eventos climáticos extremos.
Para evitar uma sobrecarga ou eventual ‘colapso’ dos serviços, os profissionais de saúde foram orientados a acompanhar aumentos inesperados de atendimentos, internações e óbitos relacionados às condições climáticas.
Síntomas de alerta
A exposição prolongada a temperaturas elevadas pode provocar hipertermia e diversos sintomas de mal-estar. Entre os sinais apresentados no alerta, estão:
- transpiração excessiva;
- tontura;
- dor de cabeça;
- fraqueza;
- câimbras;
- náuseas e vômitos;
- pressão baixa;
- respiração curta e acelerada;
- desmaios;
- convulsões.
Idosos e crianças exigem atenção redobrada

Outro ponto importante a se considerar é que esses riscos não atingem a população de forma igual.
Crianças, especialmente menores de cinco anos, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias e cardiovasculares estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos do calor extremo e da fumaça.
O alerta também inclui pessoas em situação de rua, trabalhadores rurais e profissionais expostos ao ar livre, comunidades próximas às áreas de incêndio, povos indígenas e comunidades tradicionais, além de brigadistas e bombeiros.
O que é o El Niño
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Ele enfraquece os ventos tropicais, altera a circulação atmosférica global e modifica os regimes de chuva e a temperatura em várias partes do planeta.
Em Mato Grosso do Sul, os efeitos variam de um ano para outro e dependem da interação com outros fatores atmosféricos e oceânicos. Segundo a coordenadora do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima), meteorologista Valesca Fernandes, o fenômeno “deve favorecer ondas de calor”.
Nos últimos 24 anos, 15 tiveram El Niño, sendo que, em 2016, 2023 e 2024, o fenômeno recebeu a classificação “forte” ou “muito forte”. Em oito das 15 ocorrências, a temperatura média anual ficou acima do esperado. Além disso, o volume de chuva ficou acima da média em nove desses anos.
Em 2024, o El Niño foi classificado como “forte”, mas as chuvas ficaram abaixo da média e as temperaturas, acima. Em 2023, ele recebeu a mesma classificação e teve chuvas e temperaturas elevadas. Já em 2016, o fenômeno foi “muito forte”, mas os termômetros terminaram o ano abaixo da média, enquanto as chuvas ficaram acima do esperado.
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(Revisão: Nichole Munaro)









