O El Niño, fenômeno climático natural que deve se intensificar nos próximos meses, altera o padrão de chuvas e temperaturas no Brasil. Em Mato Grosso do Sul, os efeitos podem ir além do calor e das tempestades, com impactos na saúde, nos rios, no Pantanal, no abastecimento de água e nas atividades como pesca, agricultura e transporte fluvial.
No Centro-Oeste e no Sudeste, a tendência é de que o fenômeno provoque atraso nas chuvas e aumente as ondas de calor e o risco de incêndios. No Norte e no Nordeste, o destaque é para as secas prolongadas. Já no Sul do Brasil, as chuvas devem aumentar, causando risco de enchentes e deslizamentos.
Mato Grosso do Sul fica no Centro-Oeste, mas está próximo das regiões Sul e Sudeste. Dessa forma, os impactos podem variar dentro do Estado, considerando as características de cada região. Entre setembro e dezembro, o fenômeno pode chegar à intensidade “muito forte”.
Incêndios no Pantanal
Entre os meses de agosto e outubro, o alerta é principalmente para o Pantanal, que pode sofrer incêndios mais intensos com o avanço do fenômeno. A seca provocada pelo El Niño pode fazer com que pequenos focos se espalhem rapidamente, conforme a Defesa Civil Nacional.
O Ministério do Meio Ambiente alerta que pequenos descuidos podem causar grandes incêndios. Dessa forma, a orientação é não usar fogo sem autorização dos órgãos competentes e nunca soltar balões, já que a prática é considerada crime.
Além da prevenção, denunciar rapidamente focos de incêndio e até mesmo a presença de fumaça pode evitar grandes queimadas. Quanto mais rápido o aviso, maiores são as chances de impedir que o fogo se espalhe. A orientação é ligar para o Corpo de Bombeiros, pelo número 193, ou para a Linha Verde do Ibama, no 0800 061 8080.
Rios e transporte fluvial
Os níveis e as vazões dos rios também podem mudar, conforme alerta o Ministério do Meio Ambiente. Nas regiões em que houver redução prolongada das chuvas, os rios podem apresentar vazões menores. Já quando chover acima da média, o nível dos rios pode subir em Mato Grosso do Sul.
O excesso de chuvas já é praticamente certo na Região Sul do Brasil, mas também pode atingir Mato Grosso do Sul. Nesse caso, o El Niño aumenta a probabilidade de grandes volumes de chuva, que podem contribuir para inundações e outros eventos extremos.
Em fevereiro deste ano, por exemplo, a cheia do Rio Aquidauana obrigou 20 ribeirinhos do distrito de Palmeiras, em Dois Irmãos do Buriti, a deixarem suas casas. Em Aquidauana, 17 pessoas ficaram desalojadas. Em caso de chuva intensa, não se deve atravessar áreas alagadas, além de ser necessário ficar atento a sinais de deslizamentos.

A navegabilidade também pode ser afetada, o que levanta um alerta para a hidrovia dos rios Paraná e Paraguai. Com níveis mais baixos, o transporte fluvial fica mais difícil, especialmente para comunidades ribeirinhas e moradores de regiões remotas do Pantanal.
Agricultura, pesca, água e energia
Além disso, a pesca e a agricultura podem sentir os efeitos do El Niño. Mudanças no ritmo de chuvas, na umidade do solo, nas temperaturas, nos níveis dos rios e na disponibilidade de água podem interferir nas atividades produtivas, segundo o Ministério do Meio Ambiente.
O abastecimento de água também pode ser pressionado pelo fenômeno. Onde houver seca prolongada, a oferta de água em rios e reservatórios pode ser reduzida, dificultando a captação e o abastecimento em algumas regiões.
O setor elétrico pode ser afetado pelo mesmo motivo, já que a redução das vazões e dos níveis dos reservatórios pode limitar a geração hidrelétrica. Ao mesmo tempo, as temperaturas elevadas aumentam a demanda por energia.
Efeitos de ondas de calor na saúde
Em Mato Grosso do Sul, as temperaturas mais altas e o tempo seco provocados pelo El Niño também podem afetar a saúde. Esse cenário climático pode aumentar o risco de desidratação e estresse térmico, além de agravar problemas respiratórios.
No caso das ondas de calor, é importante saber que a exposição ao calor extremo pode fazer o corpo perder muita água e sais minerais, levando à desidratação. Bebês, crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas e pessoas em situação de rua são os mais vulneráveis.
A orientação é evitar atividades físicas intensas ao ar livre nos horários mais quentes do dia e nunca deixar crianças ou idosos sozinhos em veículos estacionados.
Também é recomendável, segundo a Defesa Civil nacional, beber água com mais frequência, mesmo sem sentir sede. Tomar banhos frios, usar roupas leves e de cores claras e manter os ambientes frescos e ventilados também estão na lista de orientações.
Para reduzir riscos decorrentes do El Niño, a população deve acompanhar os alertas da Defesa Civil e a previsão do tempo. Também é indicado economizar água e evitar queimadas, que agravam os impactos da seca.
O que é El Niño
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Ele enfraquece os ventos tropicais, altera a circulação atmosférica global e modifica os regimes de chuva e a temperatura em várias partes do planeta.
Em Mato Grosso do Sul, os efeitos variam de um ano para outro e dependem da interação com outros fatores atmosféricos e oceânicos. Segundo a coordenadora do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima), meteorologista Valesca Fernandes, o fenômeno “deve favorecer ondas de calor”.
Nos últimos 24 anos, 15 tiveram El Niño, sendo que, em 2016, 2023 e 2024, o fenômeno recebeu a classificação “forte” ou “muito forte”. Em sete das 24 ocorrências, a temperatura média anual ficou acima do esperado. Além disso, o volume de chuva ficou acima da média em nove desses anos.
Chama atenção que, em 2024, por exemplo, o El Niño foi classificado como “forte”, mas as chuvas ficaram abaixo da média e as temperaturas, acima. Já em 2016, o fenômeno foi “muito forte”, mas os termômetros terminaram o ano abaixo da média, enquanto as chuvas ficaram acima do esperado.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)






