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Cotidiano

Clima revela riscos da amplitude térmica e estiagem vira ‘vilã’ da saúde em MS

Apesar de a população já estar acostumada com as variações, a combinação tende a afetar principalmente o sistema imunológico
Heloisa Duim -
Clima revela riscos da amplitude térmica e estiagem vira ‘vilã’ da saúde em MS
Entre as recomendações, a hidratação é um dos pilares para cuidar da saúde. (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Temperaturas amenas, calorão e baixa umidade relativa do ar, tudo em um único dia. Com um inverno que ‘foge’ do frio habitual da estação, Mato Grosso do Sul tem passado por um período de considerável amplitude térmica e, apesar de a população já estar acostumada com as variações, a combinação tende a afetar principalmente o sistema imunológico.

Conforme Guilherme Borges, meteorologista FieldPRO, a diferença entre as mínimas e máximas é comum no inverno, contudo, intensifica-se devido à localização do Estado em uma área continental.

Os índices fora da média — popularmente conhecidos por ‘derrubar a imunidade’ — impactam não só o bem-estar social, mas também refletem na rede pública de saúde. De acordo com Veruska Lhado, superintendente de Vigilância em Saúde da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), é comum que ocorra aumento na busca por atendimentos.

“Durante os períodos de baixa umidade do ar e grande variação de temperatura, é comum haver aumento na procura por atendimento, principalmente por casos de doenças respiratórias, crises alérgicas e algum agravamento de doenças crônicas já preexistentes no indivíduo, especialmente entre crianças, idosos e pessoas que têm comorbidade”, informa.

Por isso, a superintendente reforça que a Prefeitura de realiza o acompanhamento da saúde pública e atua também no combate às arboviroses. “A Rede Municipal de Saúde continua acompanhando continuamente o cenário epidemiológico e se prepara para atender a população conforme a demanda, reforçando as ações de prevenção e assistência sempre que necessário.”

Afinal, por que isso acontece?

Este impacto à saúde tende a acontecer devido ao estresse gerado ao corpo humano. Segundo Henrique Brito, médico pneumologista e presidente da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Mato Grosso do Sul, a estiagem é um dos ‘vilões’ do organismo e, combinado à amplitude térmica, exige uma resposta por atuar como uma forma de agressão.

“O problema maior é a estiagem. A variação térmica de você estar em momentos com mais frio, outros momentos com mais calor, às vezes no mesmo dia, isso traz algum tipo de estresse para o organismo. Ele encara isso como um tipo de agressão, então se prepara. No frio, o nosso sistema cardiovascular tende ao vaso ficar um pouco mais contraído, a pressão aumenta um pouquinho, e no calor é o contrário. Quando tem muitas variações, você pode ter alguns problemas cardiovasculares, mas também na imunidade, especialmente, que fica mais fragilizada”, comenta.

O especialista explica que, devido à baixa umidade, a população acaba consumindo um ar com qualidade inferior e acompanhado de mais vírus e bactérias. Assim, associados ao ressecamento da mucosa nasal, agressores externos tendem a entrar mais facilmente no organismo. “Eu tenho várias imunoglobulinas, anticorpos, ali naquela região, e, com ressecamento, perde isso; então, a gente fica mais exposto.”

Henrique Brito, médico pneumologista e presidente da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Mato Grosso do Sul. (Foto: Leo de França, Jornal Midiamax)

Grupos mais afetados

Conforme o médico, os grupos mais expostos costumam ser os ‘extremos de idade’, ou seja, crianças e idosos. A vulnerabilidade das crianças ocorre devido ao processo de amadurecimento da imunidade, enquanto pessoas idosas vivem um envelhecimento de sua imunologia.

Além disso, Brito destaca a necessidade de cuidado às pessoas que têm doenças crônicas, como respiratórias e alérgicas. Quem lida com esse público e grupos mais vulneráveis, como pessoas indígenas, também deve ter atenção especial.

Entre os primeiros sintomas, o pneumologista explica que o quadro mais leve, conhecido como resfriado, geralmente se inicia afetando as vias aéreas superiores, como nariz e garganta. Já dor no corpo, indisposição, mal-estar e febre podem indicar uma gripe e, caso a febre persista ou haja falta de ar, é importante buscar atendimento médico.

“Começa com um quadro que pega as vias aéreas superiores, nariz e garganta. Então, começa um desconforto na garganta, a garganta arranhando, eventualmente uma dor ao deglutir, o nariz que está escorrendo, congestionado,
espirros e tosse, esses são os principais sintomas.”

Impactos na prática

Os sintomas mencionados pelo pneumologista são vividos na prática por Mayla Alexia dos Santos, de 31 anos. A advogada, diagnosticada com rinite alérgica há quatro anos, relata que a variação de temperatura, a falta de chuva e as queimadas intensificam sua condição.

“Com o calorão e a baixa umidade do ar, os sintomas que eu tenho, que eu sinto que pioram, são dor de cabeça e muita secreção nas vias respiratórias, com nariz e garganta. Eu sinto que é como se houvesse uma secreção no meu ouvido. Eu costumo até brincar que parece que tem água no meu ouvido, mas eu sei que isso é tudo acúmulo de secreção nas minhas vias respiratórias, na garganta. Como é tudo interligado, acaba indo pro meu ouvido também.”

Desde então, Mayla adota medidas para amenizar os efeitos da estiagem, como umidificador de ar, toalhas úmidas e bacias de água. Outro cuidado diário que a advogada tem é a realização de lavagem nasal, aumentando a frequência conforme necessidade, além de hidratar-se.

Mayla Alexia dos Santos, de 31 anos, advogada. (Foto: Captura de Tela, Arquivo Pessoal)

Cuidados com a saúde

As medidas adotadas por Mayla são alguns dos pontos indispensáveis para reforçar os cuidados com a saúde em períodos de baixa umidade relativa do ar e altas temperaturas. Entre as práticas indicadas pelo médico pneumologista Henrique Brito, estão:

  • Hidratar-se: a água é um dos pilares fundamentais. Apesar de beber bastante líquido ser um ponto importante, Brito explica que bebidas com álcool e refrigerantes não são recomendados;
  • Hidratar a mucosa respiratória: a lavagem do nariz com soro fisiológico ajuda a manter a mucosa mais hidratada;
  • Umidificar o ambiente: é importante deixar o ar circular. Tratando-se de períodos de baixa umidade relativa, equipamentos como umidificador de ar, bacia de água ou toalha pendurada contribuem para melhorar a qualidade;
  • Manter a limpeza do ar-condicionado: caso faça o uso de ar-condicionado, é indispensável checar se os filtros estão passando por limpeza conforme a frequência indicada pelo fornecedor;
  • Proteger-se da fumaça: durante períodos de seca, também é comum que ocorram queimadas. O pneumologista destaca que o ideal é evitar contato com a fumaça ou cobrir o rosto com um pano umidificado.

Além disso, quando se trata de pessoas com comorbidades, o especialista explica que é importante que a doença esteja estabilizada para que a imunidade permaneça alta. Junto dos cuidados em casa, o especialista destaca que a imunização é outra medida indispensável.

“Além das vacinas que são essenciais, eu tenho várias vacinas dependendo da faixa etária, mas que englobam a gripe sazonal, a gripe H1N1, H3N2, influenza tipo B. Eu tenho para pneumonia, para vírus sincicial respiratório, a própria covid. Existe uma gama de vacinas que são importantes para essa época do ano e para o ano inteiro. A gente tem que lembrar que o calendário vacinal não é só na infância, depois tem que continuar completando-o ao longo da vida.”

Intensificação das condições climáticas

É importante estar atento aos cuidados, considerando, principalmente, que as condições tendem a se intensificar. Conforme Guilherme Borges, meteorologista FieldPRO, Mato Grosso do Sul já passa por uma influência inicial do fenômeno El Niño, que potencializa o aquecimento durante as tardes. Assim, as características devem acentuar-se na primavera e, principalmente, no verão.

“Isso é uma configuração já característica do fenômeno El Niño, que vem configurando e trazendo essa questão de massas mais quentes para a região central, alterando a circulação no Brasil. Isso vem favorecendo as temperaturas ainda mais elevadas na parte da tarde do que elas já naturalmente são, embora a gente esteja no nosso inverno”, destaca.

Já Valesca Fernandes, meteorologista do Cemtec-MS, comenta que a alta temperatura e a baixa umidade relativa do ar têm sido reforçadas com o passar dos anos, assim como a redução dos índices pluviométricos. Entre as regiões mais impactadas no Estado, a especialista destaca o norte e nordeste.

Por fim, Guilherme explica que, apesar de afetar os sul-mato-grossenses, as condições não se limitam ao Estado, ou ainda ao Brasil. “A gente vê o nosso planeta aquecendo, ele é composto de 70% de água; quanto mais aquecimento a gente tem, mais ele vai tentar compensar de alguma forma, e a forma que ele compensa é com extremos. […] Infelizmente, essas ondas de calor têm ficado mais potencializadas no clima, e não só aqui no Mato Grosso do Sul. Isso é um problema geral do mundo como um todo, e o nosso país também não foge disso.”

Tempo quente e seco em Campo Grande, imagem ilustrativa. (Henrique Arakaki, Midiamax)

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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