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Cotidiano

Depois do diploma, Revalida é novo desafio para jovens que realizaram o sonho da medicina no Paraguai 

Ana Vitória compartilha experiência da graduação e processo para validar o diploma estrangeiro no Brasil
Idaicy Solano -
Depois do diploma, Revalida é novo desafio para jovens que realizaram o sonho da medicina no Paraguai 
(Imagem Ilustrativa)

Para muitos jovens brasileiros que sonham com a faculdade de Medicina, o custo-benefício da graduação no Paraguai, país que faz fronteira com Mato Grosso do Sul, é um atrativo diante das altas mensalidades cobradas no Brasil. No entanto, muito além da questão financeira, estudar em um país estrangeiro é uma decisão que envolve os desafios de lidar com uma nova língua, cultura e costumes completamente diferentes.

Além disso, conquistar um diploma fora do Brasil pode representar um caminho mais longo para quem pretende, ao fim da graduação, retornar ao país e atuar como profissional. Somente em 2025, as duas edições do Revalida, processo utilizado para validar o diploma de Medicina obtido no exterior no Brasil, reuniram 38.688 inscrições na primeira etapa. Na edição 2025/1, mais de 17,1 mil candidatos participaram da etapa inicial, dos quais 4.503 foram aprovados. Já na avaliação prática, 7.363 candidatos participaram e 4.365 conseguiram aprovação.

Conforme dados divulgados pela Universidad Interamericana, antiga UCP (Universidad Central del Paraguay), mais de 3 mil médicos formados pela instituição passaram pelo processo de revalidação e atualmente exercem a profissão no Brasil. Nas edições mais recentes do Revalida, a universidade também informou ter ultrapassado a marca de 300 aprovados.

Ana Vitória momentos antes de realizar a segunda etapa do Revalida. (Foto: Arquivo Pessoal)

Para quem pretende retornar ao Brasil após concluir a graduação no exterior, a médica Ana Vitória Matheus da Silva, de 28 anos, afirma que o processo de revalidação do diploma deve ser considerado desde o início da formação. Embora reconheça que não seja um caminho fácil, ela afirma que é possível obter sucesso quando há dedicação ao processo.

Natural de Várzea Grande, em Mato Grosso, Ana é formada em Medicina pela UCP e concluinte de pós-graduação em Nutrologia pela USP (Universidade de ). Atualmente, ela mora e trabalha em , no interior de Mato Grosso do Sul. A médica passou pelo Revalida entre 2025 e 2026 e, após obter a aprovação, iniciou o processo para tirar o CRM provisório em 11 de agosto. O número de registro foi emitido no dia 25 do mesmo mês.

Coincidentemente, aquela era a data do último dia de Ana no curso de Elastografia Hepática, em São Paulo. Com o registro em mãos e uma proposta de emprego em Dourados, ela retornou a Mato Grosso do Sul e começou a trabalhar. O processo inteiro, desde a primeira tentativa no Revalida até a aprovação e a obtenção do CRM provisório, durou cerca de um ano e meio.

Desmistificando o processo

Ana Vitória compartilha que se surpreendeu com o resultado obtido nas duas etapas do Revalida e expressa que o bom desempenho foi fruto de um longo processo de preparo, tanto teórico quanto prático, ao qual ela deu início já no quarto ano da faculdade. A jovem frisa que manter em mente a importância de começar a se preparar com antecedência é fundamental para ajudar a desmistificar o processo, ainda visto como burocrático e difícil. Buscar os cursos preparatórios foi essencial, segundo o relato, para perder o receio das provas.

“A realidade é que, durante a faculdade, a gente escuta tanto sobre o Revalida que acaba criando um medo enorme da prova. Mas, depois que eu vivi o processo, percebi que era uma prova difícil, claro, mas basta estudar, se preparar e se dedicar que você consegue chegar à aprovação”, comenta.

Jovem durante plantão no internato e nas aulas práticas para a segunda fase do Revalida. (Foto: Arquivo Pessoal)

Processo conta com duas etapas 

Segundo explica a médica, o Revalida é dividido em duas etapas. A primeira consiste em uma prova teórica, na qual o candidato precisa atingir uma pontuação mínima necessária para avançar para a segunda fase. Já a etapa seguinte consiste na prova oral prática, composta por 10 estações, sendo cinco realizadas em um dia e cinco no outro. Em cada estação, o candidato tem 10 minutos para realizar a prova.

A jovem expressa que a preparação muda bastante de uma etapa para outra. Enquanto a primeira exige muita revisão e treino com simulados anteriores, para se sair bem-sucedido na segunda, o candidato precisa demonstrar, na prática, toda a bagagem adquirida de forma concisa, dentro do tempo estabelecido.

“[Nessa etapa], a gente precisa demonstrar não só conhecimento médico, mas também como nós iremos conduzir aquela situação na prática. Então, você precisa fazer anamnese, ter um raciocínio clínico, enxergar as hipóteses diagnósticas, solicitar, interpretar exames quando for necessário, propor tratamento, orientar o paciente e também saber realizar ou verbalizar procedimentos de acordo com aquilo que está sendo avaliado”, explica Ana.

Estratégias para driblar as etapas

O conteúdo estudado no curso de Medicina é amplo, então, saber por onde começar foi a principal dificuldade de Ana Vitória durante a preparação para a primeira etapa do Revalida. Ela cita que, ao olhar para todo o conteúdo, a sensação é de precisar estudar cinco anos de teoria novamente, o que pode dificultar na hora de definir por onde começar. Por isso, ela cita que escolher um curso preparatório objetivo é o primeiro passo para ter um bom direcionamento. 

“Na minha opinião, não adianta três, quatro horas de aula para cada tema se você não consegue revisar tudo isso antes da prova. Minha estratégia basicamente foi seguir o que [o meu curso] colocava na plataforma na primeira etapa: assistir às aulas, responder aos questionários e, nos fins de semana, eu fazia as provas anteriores e corrigia”, relata.

Durante a correção das provas, Ana acrescenta que analisava questão por questão e alternativa por alternativa. Para ajudar a compreender seus erros e acertos, ela ainda grifava informações importantes e fazia anotações que ajudavam a identificar e compreender por que as alternativas estavam incorretas.

Rotina da jovem durante o internato. (Foto: Arquivo Pessoal)

Além disso, o tempo para responder aos simulados de provas anteriores era calculado, com o intuito de simular a experiência da prova real. Dessa forma, Ana conta que desligava o celular e outros eletrônicos e fazia a prova longe de post-its e anotações. “No dia da prova, a gente acaba ficando um pouco ansioso ou não tem noção de tempo, então, se você treina em cima do horário, do tempo que você tem para realizar a prova, fica muito mais tranquilo no dia.“

Já na segunda etapa, controlar a ansiedade e a autocobrança foi o principal entrave da jovem. “Eu tinha receio de não conseguir revisar todos os meus checklists até a prova. Eu fiz mais de mil checklists para essa prova, então, eu tinha medo de cair um procedimento que eu soubesse realizar na prática, mas que eu não conseguisse verbalizar exatamente da maneira que o Inep considera certa para aquele checklist. Cheguei a revisar mais de mil temas. Foi tudo muito intenso, mas eu sabia que eu tinha dado o meu melhor.”

Ana Vitória também compartilha que chegou a realizar a primeira etapa em março de 2025, mas reprovou por cinco pontos. A jovem explica que, na época, devido à sua rotina de estudo, ao trabalho e à construção da casa em que mora com o noivo, não era possível se dedicar totalmente aos estudos para o Revalida. No entanto, ela considera importante ter feito a prova como um teste para entender como funcionava a avaliação.

Demora nos resultados

De todas as burocracias envolvendo o processo do Revalida, Ana Vitória cita que o mais complicado é a demora entre um resultado e outro. Ela relata que fez a primeira etapa em outubro de 2025 e a segunda em maio deste ano, enquanto o resultado preliminar saiu apenas no fim de julho. Já o resultado definitivo para quem não conseguiu atingir a pontuação e entrou com recurso foi divulgado no dia 4 de setembro. 

“Isso deixa muita gente mal, ansiosa, porque você fica meses esperando para saber o que vai acontecer com a sua vida profissional. Você não sabe se você volta a estudar para a segunda etapa, ou se você começa a se preparar para uma residência, ou se você começa a pensar numa pós-graduação, então, você fica sem saber o que fazer por muito tempo”, justifica Ana. 

A médica explica que entende que as correções são demoradas, principalmente pela quantidade de médicos que passam pelo processo. Na segunda etapa, ela cita que mais de 10 mil profissionais foram avaliados, incluindo avaliações presenciais e remotas. Mesmo assim, Ana opina que os prazos deveriam ser revistos e aprimorados, principalmente porque o resultado pode definir o próximo passo profissional dos candidatos. “Para mim, [a espera] foi a parte mais desgastante.”

Fotos de quando a jovem obteve o diploma e o registro de médica no Paraguai. (Foto: Arquivo Pessoal)

Custo-benefício da faculdade atraiu jovem para o Paraguai

Conforme relata Ana Vitória, o que a atraiu para a UCP foi, principalmente, o custo-benefício do curso de Medicina. Ela explica que chegou a ser aprovada em Medicina no Brasil, ainda no segundo ano do ensino médio, mas sua família não conseguiu viabilizar a graduação na universidade particular. Assim, a jovem seguiu se dedicando aos estudos e frequentando cursinhos particulares. Posteriormente, Ana ficou noiva e se mudou de Mato Grosso para Dourados, no interior de Mato Grosso do Sul. Foi a partir desse momento que ela passou a refletir sobre o futuro acadêmico.

Ana explica que começou a se sentir esgotada emocionalmente, principalmente pela cobrança que colocava em cima de si mesma. Além disso, avaliar a situação do ponto de vista financeiro foi o principal ponto de partida para decidir cursar a faculdade fora do país. “Na época, o cursinho era bem mais caro do que a mensalidade da minha faculdade no Paraguai. Eu comecei a faculdade pagando R$ 900 de mensalidade, enquanto a mensalidade do cursinho era mais de R$ 2 mil. Então eu pensei: eu não quero mais perder tempo, quero começar Medicina. Afinal, sempre foi o meu sonho.”

Ana cita, ainda, que o que atrai tantos jovens brasileiros para cursar Medicina no Paraguai é justamente o preço mais acessível das mensalidades. “É a possibilidade de realizar um sonho que financeiramente talvez não fosse possível no Brasil. Além disso, o Paraguai não é esse país ruim que muitas pessoas imaginam. Os impostos são muito mais baixos, o custo de vida é diferente, e isso permite, muitas vezes, você ter uma qualidade de vida melhor com um capital financeiro mais baixo”, explica Ana. 

Jovem relata como foi estudar no país estrangeiro

Ana resume a experiência de estudar Medicina no Paraguai em uma frase: entrar é fácil, difícil é sair. Embora muitos brasileiros tenham a ideia de que o ensino no país vizinho é inferior ao brasileiro, Ana rebate essa ideia e afirma que é tão desafiador quanto qualquer outro curso de Medicina em qualquer lugar do mundo. 

“Às vezes, eu vejo comentários de pessoas que nem são médicas dizendo que no Paraguai é mais fácil, e eu sempre penso: ‘Bom, tenta cursar Medicina fora do seu país, longe da sua família, aprendendo uma outra língua, outra cultura, enfrentando uma graduação inteira sabendo que, quando terminar, você ainda vai ter um processo de revalidação pela frente, que você vai perceber que não é fácil’”, expressa a jovem.

Durante a graduação, Ana relata que teve contato com a prática desde o primeiro ano. Ela participou da Liga de Pediatria do primeiro ao quinto ano, de projetos acadêmicos e de iniciação científica e apresentou trabalhos em congressos, incluindo um estudo sobre câncer de mama em um paciente masculino, em Assunção.

A médica comenta também sobre a estrutura da instituição onde estudou e cita a disponibilidade de laboratórios, centros tecnológicos, apoio psicológico e atividades acadêmicas complementares. Ana, porém, ressalta que sua experiência não representa, necessariamente, todas as faculdades paraguaias e recomenda que interessados na graduação no Paraguai pesquisem previamente a instituição de interesse, conheçam a estrutura, os professores e os campos de prática, além de buscarem informações com alunos e ex-alunos.

Atualmente, Ana exerce a profissão em um consultório de Dourados. (Foto: Arquivo Pessoal)

Bagagem cultural

Ana Vitória considera que a experiência no Paraguai proporcionou aprendizados que vão além da formação profissional. O contato com outro idioma e cultura, a adaptação a uma nova realidade e o amadurecimento pessoal foram alguns ganhos com o processo.

Um dos maiores desafios, no entanto, foi em relação ao idioma estrangeiro. Ana passou a estudar espanhol por meio de um aplicativo de idiomas antes mesmo de entrar para a faculdade. Os professores também foram aliados nesse processo de adaptação à língua. “Os próprios professores ajudam a gente com o ‘portunhol’, porque eles sabem que muitos brasileiros ainda não entendem tudo. E hoje, graças a Deus, eu já tenho influência no idioma. Já quanto ao guarani, eu aprendi pouco e eu me arrependo de não ter feito nenhum curso.”

Durante a graduação, ela também teve contato com um sistema de saúde diferente do brasileiro. Segundo Ana, diferentemente do SUS (Sistema Único de Saúde), no Paraguai, muitos insumos e medicamentos utilizados no atendimento precisam ser custeados pelos próprios pacientes, o que a colocou diante de situações de vulnerabilidade que não havia vivenciado antes. Durante o internato, ela chegou a tirar dinheiro do próprio bolso para comprar materiais para pacientes que não tinham condições de adquiri-los.

Embora tenham sido cinco anos de altos e baixos e em meio a uma rotina exaustiva, principalmente devido ao deslocamento entre uma cidade e outra, Ana expressa que não se arrepende de suas escolhas. “Acho incrível como eles mantêm a língua e a cultura deles até hoje. Eu sou realmente apaixonada pelo Paraguai, pelo patriotismo deles, pela cultura, pelo quanto eles são católicos e principalmente pelas pessoas. Eu tive pessoas ali que me acolheram e cuidaram de mim como filha. E até hoje eu converso com essas pessoas e sou muito grata a elas”, conclui.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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