Há quem diga que ‘avó é mãe com açúcar’, ‘mãe em dobro’ ou, em alguns casos, que carrega a responsabilidade de ‘estragar’ os netos. Na casa de incontáveis famílias brasileiras, contudo, as atribuições estendem-se para além do afeto, e o parentesco acaba assumindo um papel ainda maior: cuidar dos pequenos — temporária ou permanentemente —, para que os pais trabalhem ou qualquer outro motivo.
O Dia dos Avós, que ocorre anualmente em 26 de julho, celebra a vida daqueles que se dedicam a tantas outras. Entre preparar refeições e levar as crianças para a escola, gente como Maria Aparecida da Silva, de 64 anos, faz questão de comemorar a data todos os dias, rodeada de netos.
Entre parentesco ‘postiço’ e de sangue, existem cerca de 25 netos que consagram a dona de casa com o título de avó. Em uma residência de poucos cômodos no bairro Oscar Salazar, Maria cumpre a função em tempo integral já que, com ela, moram três descendentes, e outros dois ficam sob seus cuidados durante o expediente da filha.
“No meu dia a dia, eu cuido de cinco. A minha filha trabalha, ela tem os meninos e deixa comigo. Eu tenho uma netinha que mora comigo já faz seis anos. Aí eu tenho um neto que nasceu e eu que criei desde pequenininho e, quando nós saímos da favela e viemos pra cá, ele não quis morar com a mãe, e a mãe passou a guarda pra mim. Aí mora eu, ele, a minha neta e o meu neto mais velho de 19 anos.”
‘Me tirou do fundo do poço’
Sua história como avó começou há 21 anos, quando ganhou o primeiro neto, mas foi ressignificada 15 anos depois, após perder um de seus filhos. Em sua casa, crianças assistindo à televisão, saindo para brincar ou perguntando sobre roupa movimentam a rotina e, apesar de cenas como essas se tornarem comuns, ela afirma que têm importância única.
“É um prazer. A minha vida, hoje, se eu estou viva, eu agradeço aos meus netos. Porque eu tive um filho que padeceu já faz 15 anos. Eu fiquei perdida; pra mim, a vida tinha acabado. E aí nasceram dois gêmeos. Foi o que me tirou do fundo do poço. Porque eu tava no fundo do poço. Aí, quando eles nasceram, eu melhorei, minha vida melhorou”, relata.
Desde então, sua felicidade é acolher, independentemente de quem seja. “O meu prazer é acolher a família. Estranho também, se chegar e precisar, eu não sei fechar a porta para ninguém. Acho que já é um dom meu.”

De tudo um pouco
Quando questionada sobre suas tarefas cotidianas com os netos, a moradora resume seus afazeres em uma palavra: ‘tudo’. Apesar da gama de funções, Maria relata sua rotina com um sorriso no rosto e faz questão de dispensar o cansaço.
“Eu levo pra escola, eu vou buscar, eu vou pra um médico; se precisar ir pra um médico aí, eu te levo. É muito difícil, porque a mãe trabalha o dia inteiro, né? A mãe é promotora de supermercado e não tem tempo, eu faço tudo. Mas eu faço com prazer, porque eu amo meus netos.”
Avó que é mãe
Antes de ser avó e cuidar dos pequenos, a dona de casa também foi neta. Nascida em Dourados — município localizado a 226 km de Campo Grande —, Maria mudou-se para a Capital aos sete meses de vida, para ser criada por sua avó.
“Quando eu fiquei doente, eu vim para Campo Grande e passei a morar aqui com a minha avó, então, a minha avó que é minha mãe. A minha avó me proporcionou muito amor, muito carinho. Hoje, é o que eu tento passar para os meus netos. Às vezes, os meus filhos falam que eu até estrago as crianças, mas não é. É porque eu tive uma perda muito grande. Então, hoje entendo o que é o amor.”

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(Revisão: Dáfini Lisboa)







