Você se sente seguro ou segura de caminhar na rua, utilizar transporte público e ocupar todos os lugares? Se você é homem, cis e heterossexual, é provável que sua resposta seja ‘sim’. Se você é mulher ou parte de qualquer outra minoria, por outro lado, provavelmente sua percepção de segurança será diferente do primeiro grupo mencionado.
Este ano, tal preocupação deixa de estar restrita apenas ao cotidiano e, em período eleitoral, também chega às urnas. Em Mato Grosso do Sul, o público feminino representa 52,8% do eleitorado estadual, com 1.069.380 votantes, conforme o TRE-MS (Tribunal Regional Eleitoral). Entre diferentes perfis de eleitoras, segurança e outras questões que atravessam a vida das mulheres surgem como prioridades na hora de escolher os próximos governantes.
Quando questionada sobre o que deve ser melhorado no Estado — em contexto geral, sem mencionar especificamente as mulheres —, Laís Rocha Oliveira, de 26 anos, tem a resposta na ‘ponta da língua’. “A gente precisa melhorar bastante em questão de segurança. Nosso país tem um índice muito alto em relação aos casos de feminicídio, ocorrência em relação à agressão contra a mulher”, comenta.
Artista visual e mãe de dois filhos, ela explica que existem, ainda, outros três pontos que considera no momento de selecionar seus representantes: inclusão, educação e cultura.
“Isso pra mim é inegociável, sempre. Tem que ter, é necessário pra nossa vivência, muito relevante pra nossa existência. Então, como artista, eu reivindico muito bem a questão da cultura. Como mulher, a questão da segurança em relação às mulheres. Como minoria em relação ao LGBT, também todas as questões de segurança em relação a toda a minoria. E educação, com toda certeza, pras crianças e pra quem quiser estar presente na educação.”

Vivendo ‘com medo’
Assim como Laís, a principal demanda de Sandra Mara de Souza, de 64 anos, também é segurança. Mais uma vez, sem mencionar questões de gênero na pergunta, a resposta da diarista não só se refere às mulheres, como surge com um ‘justamente’.
“É justamente sobre as mulheres mesmo. As mulheres têm sofrido muito preconceito, muitos ataques, principalmente dos homens. […] E essa violência também, que precisa acabar. Hoje você abre o noticiário, você só vê falar sobre morte, homens matando mulheres”.
Só em 2026, Mato Grosso do Sul registrou 27 feminicídios até o dia 18 de setembro, conforme a Sejusp-MS (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de MS). Por trás da estatística, estão também os relatos daquelas que convivem diariamente com o medo da violência.
“Nós temos que tomar muito cuidado, até dentro dos ônibus. […] Infelizmente, nós estamos vivendo uma situação que nós temos que ficar com medo de qualquer pessoa do sexo oposto que se aproxima da gente. A gente tem medo de ser agredida, de ser estuprada, de ser abusada sexualmente, moralmente, fisicamente. A gente tem medo”, comenta.

Atenção à saúde
Já a dona de casa Carmen Glória Fialho, de 48 anos, explica que sua demanda principal seria na área da saúde. “A área da saúde pra mulher tá precária, né? A gente vai no posto, não tem ginecologista, não tem o que a gente precisa pra fazer exame de sangue, de urina, às vezes tá faltando.”
Para a empreendedora Regina Prado, de 65 anos, as preocupações assemelham-se às já apontadas. Com uma loja na região central, ela afirma que tanto a saúde quanto a segurança são pontos de precariedade. “Olha, eu acho que a prioridade é a saúde. A nossa saúde está precária. Depois, vem a questão da segurança também.”


De onde surgem essas demandas?
As demandas mencionadas nas ruas de Campo Grande representam, segundo Andrea Romero, professora do curso de Engenharia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), um ‘tripé’ na vida da mulher. Ela destaca que, além da segurança e da educação, a atenção à saúde estende-se à questão psicológica.
“Por exemplo, segurança: a gente vive feminicídios, a gente quer ir e vir, pegar um ônibus e chegar em outro ponto sabendo que eu tenho segurança. Eu quero chegar na minha casa e saber que eu tenho uma segurança pública, que eu tenho uma Lei Maria da Penha que vai ser feita com rigor e que vai me ajudar enquanto mulher. A gente precisa de segurança, precisa de educação, porque essa mãe quer um futuro melhor para o seu filho, e a gente precisa de saúde, porque, sem saúde, a gente não faz nada.”

Empoderamento feminino
Apesar da segurança ser uma constante em meio aos posicionamentos, é comum que outras preocupações — como saúde, educação, cultura, inclusão e assistência social — surjam conforme cada realidade. Para a professora e bióloga Rosiane de Morais, compreender essas prioridades exige olhar para o contexto social vivido pelas mulheres ao longo do tempo.
“Quando a gente pensa no posicionamento, na figura da mulher na sociedade brasileira, não só de Mato Grosso do Sul, mas em nível nacional, nós estamos realmente num novo contexto, ocupando espaços que até então a mulher não tinha tanto acesso. Mas quando a gente pensa no voto feminino, nessas questões da segurança, educação, até mesmo na assistência social, a gente tem que entender o contexto social dessas mulheres.”
Assim, segundo Rosiane, as mudanças na posição social das mulheres também ajudam a explicar a presença dessas pautas no debate eleitoral. “Quando a gente pensa na questão do voto, da segurança, a gente começa a observar que o movimento feminino anda muito mais organizado. A partir do momento desses movimentos sociais, a gente começa a ver que a mulher começa a se empoderar em assuntos que, durante muitos anos, eram pauta apenas do ambiente masculino.”
Afinal, existe solução?
Entre as entrevistadas, há quem desacredite que as demandas sociais tenham, de fato, uma solução. Por outro lado, existem também mulheres que, além de acreditarem na possibilidade de mudanças, arriscam ‘palpites’ sobre soluções. Para a artista visual Laís, por exemplo, os representantes políticos deveriam considerar as diferentes realidades enfrentadas pela população e, a partir daí, reconhecer a origem das preocupações.
“Olhar pros bairros, olhar pra quem tá precisando, olhar pra quem realmente necessita de uma luta, né? Se a gente não olha pra onde a gente veio ou pra onde a gente está, a gente não consegue mudar nada. Eu acho que é sempre buscar essa questão de entender onde está o problema e resolver de pouquinho em pouquinho. Cada um resolvendo um pouquinho, a gente resolve tudo.”

As soluções, apesar de dependerem também dos governantes, partem primeiramente de quem os coloca no poder. A professora Andrea Romero destaca que, ao votar em candidatos que melhor o representam, o eleitor ou a eleitora também exerce seu direito como cidadão ou cidadã.
“Não é fácil a gente exercer o nosso voto quando a gente tem muitas dúvidas. Agora, é muito importante que a gente saiba que o exercício do voto é muito importante, porque você não está deixando que o outro escolha. […] Ter esperança e acreditar que podemos ter pessoas comprometidas com o público, eu acho que faz parte da cidadania.”
Além disso, a bióloga Rosiane de Morais ressalta que esse papel não se limita à escolha do candidato ou ao dia da votação. “Eu falo que o papel da mulher vai além das urnas. O nosso papel tem que ser no dia a dia, cobrando, sabendo se posicionar e ocupando os espaços que durante muito tempo nos foram negados. […] Na realidade, a solução tem que ser construída pela população. Eu falo que a solução não vem de cima para baixo. Ela tem que partir de nós.”
Eleições 2026
As Eleições de 2026 ocorrem no dia 4 de outubro, em um domingo. Em caso de necessidade de segundo turno, este ocorre três semanas depois, no dia 25. Os eleitores precisarão escolher representantes para os seguintes cargos:
- Deputado federal;
- Deputado estadual;
- Senador (dois votos);
- Governador;
- Presidente.
O segundo turno ocorre somente se nenhum dos candidatos à Presidência ou ao Governo do Estado conseguir 50% ou mais dos votos no primeiro turno. Os votos brancos e nulos não são considerados.
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(Revisão: Nichole Munaro)






