Elas estão nas calçadas, parques, praças e quintais. Fazem sombra para quem espera, ajudam a amenizar o calor e moldam a paisagem ao longo das estações. Em Campo Grande, conhecida como a “capital mais arborizada do país”, as árvores estão tão integradas à rotina urbana que fazem parte do cenário cotidiano.
Em Campo Grande, 91,4% dos domicílios estão localizados em trechos de vias com pelo menos uma árvore, o maior índice entre as capitais brasileiras, segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE. Em março deste ano, a cidade recebeu, pelo sexto ano consecutivo, o título de Cidade Árvore do Mundo (Tree Cities of the World), concedido pela Arbor Day Foundation em parceria com a FAO/ONU.
Mas a presença constante das árvores também exige atenção. Como todo ser vivo, elas envelhecem, adoecem e morrem, e algumas condições podem aumentar o risco de queda. Identificar esses sinais antes que um problema aconteça é parte do desafio de manter a arborização urbana segura.
O alerta ganhou força após o temporal que atingiu Campo Grande nesta quinta-feira (10). Mais de 100 ocorrências relacionadas à queda de árvores foram registradas. Em 30 minutos, foram registrados 18 milímetros de chuva, com ventos que ultrapassaram 85 km/h e mais de 5 mil raios, deixando estragos em diferentes regiões da Capital.
A preocupação também remete à morte da estudante Khadyja Gharyb, de 23 anos, atingida por uma árvore no dia 20 de agosto enquanto andava de patinete no Parque dos Poderes. O caso trouxe novamente para o centro da discussão os riscos relacionados à arborização urbana e à identificação de árvores que podem oferecer perigo.
Uma árvore aparentemente saudável pode oferecer risco?

A aparência nem sempre revela o que acontece no interior de uma árvore. Pragas, doenças e alterações estruturais podem comprometer sua resistência sem que o problema seja percebido de imediato por quem passa.
Biólogo e doutor em Ecologia e Conservação, José Milton Longo explica que alguns sinais podem ser identificados em uma primeira observação, mas há situações em que o problema é mais sutil.
“Alguns tipos de praga às vezes são bem sutis, como cupins, mas geralmente deixam sinais aparentes. Um descascado, perda da casca, que é a principal estrutura de condução da seiva e dos nutrientes para nutrir a planta. Galhos secos e podres são sinais identificáveis em uma primeira olhada. Há também as perfurações no caule, provocadas por algum besouro ou outro tipo de artrópode, que podem causar danos à planta”, afirma.

É justamente por isso que a vistoria técnica considera características que nem sempre são percebidas por quem circula pela cidade. Silvia Rahe, bióloga e auditora fiscal de Meio Ambiente da Semades (Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável), explica que são observados desde fungos na base e quantidade de ramos secos até a inclinação e as alterações no pavimento próximas às raízes.
“Algumas situações que rapidamente a gente identifica são fungos na base da árvore; quando ela já está com uma grande quantidade de ramos secos, o que denota alguma doença; uma inclinação acima de 40 graus; e levantamento do pavimento no lado oposto à inclinação”, explica.
Para definir o risco, também é preciso olhar para o entorno. A condição da árvore é um dos critérios, mas a avaliação considera, ainda, o que poderia ser atingido em caso de queda.
“Não só avaliamos a saúde da árvore, que é um critério de peso, mas também avaliamos tudo o que temos em volta que pode ser afetado se aquele indivíduo cair, que é a consequência do evento”, afirma Silvia.
Uma árvore morta dentro de uma área onde ninguém circula não representa o mesmo risco que outra com as mesmas condições diante de uma via movimentada, exemplifica Silvia.
‘Risco nunca é zero’
Mesmo uma árvore saudável não está completamente livre do risco de queda. Em condições climáticas extremas, a força do vento pode superar a resistência de um indivíduo sem sinais aparentes de doença ou deterioração.
“Não existe risco zero quando estamos tratando de gestão de arborização. Em condições climáticas extremas, com ventos acima de 90 km/h, até árvores saudáveis podem cair e oferecer riscos, assim como temos destelhamento de casas e outros problemas em infraestruturas.”
Manejo e podas inadequadas aumentam riscos

Entre os fatores de risco está o manejo inadequado. Segundo o biólogo José Milton, uma poda mal executada ou que considera apenas questões estéticas pode retirar parte da sustentação e deixar a estrutura mais vulnerável.
“O manejo dessa arborização tem que ser feito de forma a manter o equilíbrio do indivíduo. Cortes enviesados, que tiram a sustentação da planta, podem colocá-la em risco.”
Outro ponto que merece atenção são os impactos depois de uma chuva forte ou de uma ventania. O movimento da própria árvore, a condição dos galhos e até um estalo podem indicar que alguma parte perdeu resistência.
“Olhe as tendências de balanço que a própria árvore traz, identifique se ela foi podada corretamente. Se escutar estalos de galhos partindo, é sinal de que aquela árvore pode estar perdendo galhos e caindo”, orienta o biólogo.
A recomendação, nesse caso, é não permanecer sob a copa e acionar os órgãos responsáveis pela arborização urbana. “Primeiro, procurar um abrigo, não ficar sob a copa dessa árvore, comunicar aos responsáveis pela arborização urbana, se estiver no calçamento.”
E aquela árvore perto de casa?

Quando uma árvore apresenta sinais de risco, o próprio morador pode solicitar uma avaliação técnica à Semades. A retirada, porém, não pode ser feita por conta própria. É necessária a autorização do município, e o corte irregular de árvores pode resultar em multa.
O pedido é feito digitalmente, pelo portal da secretaria. Na área da Gerência de Arborização, há um canal para solicitações de avaliação, poda ou remoção de árvores, além de pedidos relacionados às leucenas.
Após a solicitação, a equipe técnica avalia as condições da árvore e o que existe ao redor dela. Essa troca de informações entre a população e a Prefeitura é essencial para prevenir novos acidentes.
“A população é o nosso olho ao redor da cidade e nos auxilia nesse sentido”, afirma Silvia Rahe.
A avaliação também define qual intervenção é necessária. Em alguns casos, uma poda pode reduzir o risco, sem que seja necessário retirar a árvore.
Em 2025, Campo Grande registrou 3.563 avaliações de árvores, 1.903 solicitações de poda ou remoção e 2.172 autorizações para supressão. Mas o processo entre identificar um problema, solicitar a avaliação e chegar a uma eventual intervenção pode se arrastar por meses, a depender da demanda. Em períodos chuvosos, por exemplo, as solicitações de retirada costumam aumentar significativamente.
Na Rua Pedro Medeiros, na Vila Duque de Caxias, uma árvore tem tirado o sono de Salete há pelo menos sete meses. Segundo a moradora, o problema se agravou após as chuvas de julho. A árvore fica em uma via movimentada e cresceu a ponto de os galhos alcançarem o outro lado da rua.
“É uma rua movimentada e a árvore está enorme. Os galhos já estão baixos e, quando passam caminhões, geralmente quebram os galhos, que ficam dependurados. Muitas vezes, os moradores precisam serrar”, relata.
Durante os temporais, a situação também passou a afetar a rede elétrica. Segundo Salete, mesmo após solicitar à Defesa Civil e à concessionária de energia, a poda demorou meses para ser realizada.
“Era muito vento, os galhos batiam nos fios, saíam faíscas e dava até oscilações de energia. Depois, nas chuvas seguintes, só piorou. Começou a cair a luz e queimou aparelhos da casa. Quando tem temporal, desligamos tudo, com medo do que pode acontecer”, afirma.
E se a árvore estiver na calçada?
Para árvores localizadas em calçadas de imóveis particulares, o pedido pode ser encaminhado para o e-mail arvorecg@gmail.com. Junto dele, é necessário apresentar:
- requerimento de poda e/ou supressão preenchido e assinado pelo proprietário ou representante legal;
- cópia do CPF;
- cópia do IPTU ou ficha imobiliária;
- foto que permita identificar a árvore.
Também existe atendimento presencial no setor de arborização, localizado no segundo andar do prédio anexo à Central de Atendimento ao Cidadão, na Rua Marechal Rondon, 2.655, em frente à Maternidade Cândido Mariano.
Para árvores localizadas dentro de imóveis particulares, há um procedimento específico junto à Semades. Quando a necessidade de remoção está relacionada à realização de uma obra, também existem regras próprias para autorização e compensação.
Antes de plantar, é preciso olhar o espaço

Na hora de plantar uma árvore, o primeiro passo não é escolher a espécie, mas sim olhar para o lugar onde ela vai crescer. Conforme o Manual de Arborização Urbana de Campo Grande, a escolha deve considerar aspectos como a largura da calçada, a presença de fiação, o espaço disponível para a copa e o desenvolvimento das raízes.
Para calçadas e locais com pouco espaço, a recomendação é priorizar espécies de menor porte. Entre as opções, estão quaresmeira, manacá-da-serra, ipê-de-el-salvador e resedá. Já em áreas maiores, onde há espaço para o desenvolvimento da copa e das raízes, podem ser consideradas espécies de médio e grande porte.
“Considere o local de plantio — se está sob fiação, se a área é aberta. Em calçadas, respeite o espaço-árvore, que é uma área de infiltração de água, para ela poder respirar pelas raízes também, absorver água, evitando enxurradas e problemas que a gente tem decorrentes de chuvas torrenciais”, explica José Milton Longo.
Para quem quer atrair fauna para o quintal, o biólogo recomenda árvores frutíferas de porte médio.
“A gente tem, na nossa flora nativa, muitas espécies que atraem a fauna, como o araçá, a jabuticaba e a própria goiaba.”
O cuidado também está no que deve ser evitado. Longo cita os ficus como exemplo de árvores que podem causar problemas quando plantadas em espaços pequenos, uma vez que as raízes podem provocar danos ao calçamento e ao piso.
“Com exceção das espécies invasoras, não existe árvore errada, mas sim inadequada ao espaço disponível”, reforça Silvia Rahe Pereira.

O desafio das espécies invasoras
Em alguns casos, o manejo da arborização começa pela retirada de árvores. É o caso das leucenas e murtas, espécies invasoras que passaram a ser alvo de um plano de erradicação no município.
Para quem passa, a retirada pode causar estranhamento, já que onde havia sombra e uma faixa contínua de verde fica o espaço aberto. Mas, em muitos casos, essa retirada ocorre para dar lugar ao plantio de espécies nativas.
“Há uma confusão da população, porque ela sente justamente aquela eliminação do serviço ecossistêmico que estava sendo proporcionado ali. O que ela vê é que tinha uma área fresca e arborizada, com sombra, que foi retirada”, explica Silvia.

No caso da leucena, a espécie produz mimosina, substância que, segundo o biólogo, inibe o crescimento de outras espécies e a germinação de sementes. Com isso, pode formar áreas dominadas pela própria planta.
“Leucenas são espécies invasoras que atuam diretamente na redução da biodiversidade. À primeira vista, são verdes, mas muito pouco diversificadas”, afirma.
Ainda assim, José Milton Longo defende que a retirada seja acompanhada pelo replantio de outras espécies.
“Esse manejo de retirada sucessiva, com o replantio de espécies nativas em condições de crescimento, reduz o impacto da espécie invasora à biodiversidade, como a leucena, e revegeta as áreas, protegendo os solos e recursos hídricos nas áreas de fundo de vale.”
Uma cidade entre 175 mil árvores
Em toda a cidade, são aproximadamente 175 mil árvores espalhadas pelas vias. Essas árvores, contudo, não estão distribuídas de maneira uniforme.
Um levantamento da Semades identificou diferenças na cobertura de copa entre os bairros. Há regiões onde o verde é mais presente e outras em que ainda há espaço para novas árvores.
No Centro, onde parte da arborização é mais antiga, existe um déficit que também está relacionado à retirada de árvores que chegaram ao fim do ciclo de vida. Já nos bairros mais afastados, a menor presença está ligada principalmente ao crescimento da cidade, onde árvores são retiradas para dar lugar a construções.
“Nos próximos anos, temos o planejamento da intervenção da gerência de arborização justamente nesses bairros com déficit de cobertura arbórea”, explica Silvia.
Uma das estratégias é o projeto Via Verde. Quando uma obra precisa retirar árvores, a compensação é calculada a partir de um fator de conversão e pode resultar no plantio de novos indivíduos nas vias públicas.
Muito além da sombra

Se uma árvore pode representar risco quando adoece, é também porque, enquanto saudável, presta uma série de serviços que nem sempre são percebidos no cotidiano. Em Campo Grande, onde a arborização faz parte da paisagem urbana, o efeito vai muito além da sombra nas calçadas.
Para José Milton Longo, a presença das árvores interfere diretamente no microclima. Uma copa adulta pode criar uma diferença de temperatura significativa entre um ponto exposto ao sol e outro protegido pela vegetação.
“O maciço florestal reduz a temperatura significativamente, ainda mais em momentos de mudanças climáticas, quando temos que nos preocupar muito com o reflorestamento e a recuperação de áreas degradadas.”
O efeito também pode ser percebido na umidade. Em áreas como o Parque dos Poderes, a presença de uma vegetação mais densa muda a sensação térmica de quem circula pelo local. “As árvores regulam a temperatura do microclima local, melhoram a condição e a qualidade de vida de todos.”
A arborização também interfere no caminho da água da chuva. A copa intercepta parte da água antes que ela alcance o solo, enquanto as raízes favorecem a infiltração.
“As árvores e as formações florestais são imprescindíveis para o sequestro de carbono, a redução da temperatura e a prevenção de processos erosivos. A água chega na copa antes de bater no chão, e as raízes ajudam essa água a penetrar no solo, enriquecendo nossos lençóis freáticos.”
Além dos benefícios à população, as árvores sustentam parte da vida que existe dentro da cidade. Flores e frutos oferecem alimento para abelhas, beija-flores, mamíferos e outras espécies, enquanto os animais ajudam na dispersão das sementes.
“Quando elas frutificam, também alimentam uma gama de animais da nossa fauna, que também são dispersores de suas sementes para que elas se perpetuem no espaço urbano.”
Manual completo
O Guia de Identificação de Árvores e o Manual de Arborização Urbana são materiais que visam, principalmente, à educação ambiental. O material ajuda a população a reconhecer, cuidar e valorizar as árvores que compõem o patrimônio natural e paisagístico da cidade. Os documentos estão disponíveis gratuitamente, em formato digital, nos sites da Prefeitura de Campo Grande.
- Para acessar o guia, clique aqui;
- Para acessar o manual, clique aqui;
- Para acessar informações referentes às regras sobre supressão arbórea em Campo Grande, clique aqui.
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(Revisão: Nichole Munaro)







