Passar anos estudando, fazendo cursinhos, realizando simulados e questões para, um dia, ser aprovado em um concurso público é o objetivo de diversas pessoas em Mato Grosso do Sul e em todo o Brasil. No entanto, nem sempre a aprovação é a última etapa, já que muitos dos concurseiros ficam meses ou até anos à espera de serem convocados.
A possibilidade de ocupar a vaga muda de acordo com cada concurso e edital, sobretudo na diferença de quando o aprovado está dentro das vagas previstas, ou quando está no chamado cadastro reserva. Porém, em ambos os casos, a chance de ingressar em um emprego como concursado pode mexer com a saúde mental do aprovado, que pode cair em um ‘limbo profissional’.
Em Mato Grosso do Sul, organizações e profissionais protestaram, nos últimos anos, a favor da convocação de aprovados e da realização de novos concursos, principalmente na área da educação.
Vagas previstas x cadastro reserva
Uma das grandes dúvidas sobre a nomeação e convocação em concursos públicos é a diferença entre os aprovados dentro das vagas previstas pelo edital e os aprovados em cadastro reserva.
Segundo o advogado André Luiz Godoy, especialista em casos de concursos públicos, o candidato aprovado no número de vagas previsto no edital, em regra, tem direito à nomeação. Já o candidato aprovado em cadastro de reserva, normalmente, tem uma expectativa de direito, já que o edital não garantiu vaga imediata para ele.
“Expectativa de direito não significa ausência de direito ou desamparo jurídico. O que acontece, na prática, é que muitos candidatos em cadastro de reserva acabam sendo tratados como se não pudessem questionar nada, e isso não é correto”, explica o advogado.
Porém, André Godoy explica que, a depender da maneira como a administração do concurso age durante a validade dele, o cadastro reserva pode garantir um direito à nomeação. “Isso pode ocorrer, especialmente, quando ficam demonstradas necessidade de pessoal e preterição dos aprovados”. Além disso, o especialista afirma que o poder público tem ‘poder de decisão’ limitado, sendo obrigado a nomear em caso de os fatos demonstrarem “necessidade concreta de provimento”.
“Não é juridicamente aceitável, por exemplo, manter candidatos aprovados aguardando enquanto a estrutura administrativa revela carência de pessoal, e o serviço é preenchido por vínculos precários ou por soluções paralelas. Quando há concurso válido, necessidade efetiva e elementos que apontam preterição, a escolha administrativa deixa de ser livre e passa a estar sujeita a controle”, completa.
Mobilizações buscam atender a direitos
Organizações, grupos e comissões de aprovados buscaram ter seus direitos garantidos por meio de protestos e manifestações realizadas nos últimos anos. Em outubro de 2025, professores e trabalhadores da educação de MS realizaram mobilização na Alems (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul) para pedir a abertura de vagas efetivas e realização de novo concurso.
A presidente da Fetems (Federação dos Trabalhadores em Educação), Deumeires Morais, explica que a federação segue em luta para a ampliação das vagas. Segundo ela, já foi possível aumentar os aprovados de 722 para 1,2 mil. “Estamos em luta permanente, cobrando o governo para a chamada do concurso vigente, bem como a realização do novo concurso, e já existe um compromisso do governador em assinar, nos próximos dias, a autorização para 2 mil vagas”, conta.
A mobilização ocorre porque muitos profissionais atuam como convocados, substituindo os efetivos, e recebendo remunerações menores, mesmo exercendo a mesma função. No começo do ano passado, inclusive, os professores fizeram um protesto ‘do bem’, cobrando as chamadas com doações de sangue no Hemosul de Campo Grande.
Outro episódio que retrata a realidade dos concurseiros em Mato Grosso do Sul ocorreu recentemente, com a epidemia de chikungunya em Dourados. No dia 8 de abril, a prefeitura iniciou uma contratação temporária de profissionais para atuar na Secretaria Municipal de Saúde.
O processo seletivo aproveitou a lista de candidatos aprovados e remanescentes em um concurso público de 2024, considerando a ordem de classificação. Apesar de ter possibilitado o fim da espera para alguns concurseiros, a chamada mostra como o cadastro reserva pode ser utilizado apenas em casos específicos e momentâneos.
André Godoy explica que, enquanto o concurso estiver dentro do prazo de validade informado no edital, a administração pode realizar as nomeações. “O problema começa quando esse tempo de espera é acompanhado de condutas contraditórias, como contratação de temporários, terceirização de atividades ou adoção de outras medidas que revelam necessidade real de pessoal.”
Limbo profissional e ansiedade geral
A expectativa por ocupar a vaga, mais do que adiar um emprego do profissional que foi aprovado, pode causar diversos efeitos para sua carreira e saúde mental. A psicóloga Carla Domingues explica que o aprovado pode ter uma dificuldade de se identificar no meio em que atua, como um ‘limbo profissional’.
“A pessoa não se sente mais alguém que está ali estudando para passar no concurso, porque ela já passou. Mas também não consegue se ver atuante na profissão, porque ela ainda não foi chamada. Então, isso vai criando uma sensação de estar no meio do caminho, sem ter esse lugar definido”, conta. A situação pode fazer, inclusive, a pessoa ficar ‘paralisada’ na carreira, organizando sua vida em função dessa espera. “Fica mais difícil de conseguir tomar decisões, investir, talvez, em outras áreas. A vida fica ‘em aberto’, e isso, com certeza, prejudica, sim, esse senso de identidade.”
Há também, segundo a especialista, o medo de perder o que já se conquistou — neste caso, a vaga. “Existe esse pensamento, que chamamos de dicotômico, que é: ‘Eu não vou fazer nada, porque, se eu fizer alguma coisa, vai que eu perco essa oportunidade de me chamarem. Então, eu prefiro ficar parada aqui'”, explica Carla.
Como consequência, a expectativa dos aprovados pode gerar grande ‘ansiedade geral’, segundo a presidente da Fetems, Deumeires Morais, que conhece diversas pessoas nessa situação. A psicóloga explica que esse tipo de efeito pode impactar também no longo prazo. “A tendência é criar cenários negativos, começar a pensar muito que tudo pode dar errado, ficar em alerta o tempo todo. Isso pode gerar uma dificuldade para relaxar, para dormir, até para se concentrar. É uma sensação de perda de controle da sua vida.”
Estou à espera, e agora?
Apesar de existir a grande expectativa em relação à convocação, a psicóloga alerta que o aprovado deve, primeiramente, separar o que consegue controlar do que não consegue. “A convocação não depende mais da pessoa. Ela já estudou, se preparou e conseguiu passar. Ela deve focar em organizar e manter sua rotina, trabalhando como pode no momento”, explica.
A especialista também afirma que o aprovado deve entender que é possível, sim, conciliar a disponibilidade para o concurso enquanto atua em outra função. “Ele pode ficar disponível para o concurso, mas, ainda assim, continuar se movimentando profissionalmente — uma coisa não anula a outra. Manter essa rotina com objetivos mais próximos, mais palpáveis, pode ajudar muito nesse momento de espera. Isso tira essa sensação da pessoa de que ela tá com uma vida parada”, completa.
Já André Godoy sugere que o aprovado sempre se mantenha ativo após conseguir a vaga, mesmo que não tenha sido chamado. “A orientação que sempre damos é que o candidato não fique aguardando passivamente. Além de acompanhar o prazo de validade do concurso, as nomeações realizadas, exonerações, aposentadorias e eventuais contratações temporárias, é recomendável que ele também provoque formalmente a Administração Pública por meio de requerimentos administrativos”, conta.
Com essa postura, o candidato pode ter informações sobre o edital, questionar contratações precárias e registrar oficialmente a situação. Assim, caso aconteça uma futura ação judicial para exigir a vaga, esses requerimentos e respostas podem ser importantes ferramentas para o andamento da ação.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)



