Após o fim do ensino médio, uma cena se repete em muitas casas brasileiras: familiares cercam os jovens com editais de concursos públicos, com a velha crença de que “basta estudar para passar”. No entanto, com concorrência cada vez maior, a dedicação, embora essencial, já não é suficiente — aprovação exige estratégia.
Francini Peliciari, moradora de Dourados, foi uma dessas jovens e até conseguiu a aprovação num concurso de nível médio, da prefeitura, aos 18 anos. “Eu tinha a mente ainda fresca da escola”, explica. Porém, ela queria alçar voos maiores e percebeu que precisaria de muita estratégia para conquistar cargos mais concorridos.
Entre idas e vindas, do setor público à faculdade e à iniciativa privada, Francini demorou cerca de 15 anos para voltar à preparação para concursos. “Descobri que estudar era uma coisa muito mais complexa, tinha se tornado uma profissão”. Ela fez mais de dez provas e reprovou em muitas até conseguir a primeira nomeação.
Nesse caminho, aprendeu a otimizar a preparação. “Eu acreditava que somente esforço era sinônimo de resultado. Então, focava em horas de estudos, mas não tinha metodologia nenhuma. Estudava de forma passiva, não fazia questões, não revisava, tentava estudar tudo com o mesmo peso”, explica.
De concurseira a servidora pública de Câmara Municipal em Mato Grosso do Sul, Francini Peliciari agora se dedica a ajudar outros sul-mato-grossenses a conquistarem a aprovação. Ela administra a página @leia.oedital, no Instagram, com mais de 15,7 mil seguidores interessados em concursos públicos do Estado.
Conhecer a banca
“Aprovação para concurso requer mais que incansáveis horas de estudo, uma das principais técnicas é conhecer o perfil da banca examinadora”, explica Andreia Arguello, docente do curso de Direito na Estácio Campo Grande. Cada banca tem critérios diferentes, e a preparação também precisa ser personalizada.
Foi isso que Francini Peliciari percebeu na trajetória como concurseira. “O que mudou para mim foi sair de um estudo genérico e passar para um estudo com direcionamento”, afirma. “Quando você entende o padrão da banca, começa a reconhecer como os conteúdos aparecem na prova”, detalha a turismóloga de formação.
Assim, uma boa dica é estudar com base no edital de cada concurso. “Algumas bancas diferem de outras pela forma como são elaboradas as questões e pela forma de correção; por isso, a condução dos estudos será de acordo com cada banca examinadora”, diz Andreia Arguello.
Estudar, estudar, estudar?
Se quantidade de horas fosse parâmetro para aprovação em concurso público, a prova seria desnecessária. Bastaria um cronômetro. Mais importante que quantidade de estudo, é a qualidade da preparação.
“Na competição de tempo de estudo, vai se destacar quem for disciplinado e administrar o tempo com qualidade capaz de absorver o que foi estudado”, diz a professora Andreia Arguello. Inclusive, horas de estudo maçante podem ser um problema e até afetar a saúde, diz Arguello.
Ainda, saber o conteúdo não é suficiente. “A prova exige que você saiba aplicar isso. E, além disso, saber aplicar esse conteúdo no estilo da banca, a resolução e, principalmente, a revisão são importantes”, diz a concurseira Francini Peliciari. “Quando comecei a fazer revisão, percebi que a memória acaba nos traindo.”
Particularidades de Mato Grosso do Sul
Francini acredita que o interesse por concursos em Mato Grosso do Sul está em alta, o que explicaria o sucesso da página dela em rede social. “Ao contrário do que muita gente pensa, o Estado tem uma boa frequência de concursos”, opina. Para quem está se preparando, MS é um ambiente com boas possibilidades.”
Como bancas organizadoras recorrentes no Estado, Peliciari cita o Instituto AOCP, Instituto Avalia, Selecon, IBFC, Fapec e FGV. Cada uma delas atua de forma diferente.
Confira as especificidades de bancas, conforme a experiência da concurseira:
Fapec
- Perfil mais direto e tradicional (“banca raiz”);
- Questões pouco enfeitadas, mas com cobrança forte de detalhes;
- Exige atenção minuciosa à legislação;
- Português: foco em gramática normativa, com mistura de conteúdos (concordância, regência etc.);
- Direito: predominância de lei seca; raramente cobra doutrina ou jurisprudência complexa;
- Estratégia-chave: memorização da letra da lei.
FGV
- Enunciados mais longos e elaborados;
- Forte cobrança de interpretação de texto;
- Exige mais raciocínio e análise do candidato.
Instituto AOCP
- Perfil mais objetivo e literal;
- Evoluiu nos últimos anos (de nível mais fácil para médio/alto, especialmente em carreiras policiais);
- Português: gramática, interpretação de texto, sintaxe, classes de palavras e substituição de termos;
- Direito: lei seca predominante, com cobrança ocasional de jurisprudência consolidada (STJ e STF), principalmente em cargos de nível superior.
Selecon
- Muito presente em concursos municipais (câmaras e prefeituras);
- Comparada ao AOCP, mas com nível geralmente mais acessível;
- Português: foco em semântica, interpretação e sentido das palavras;
- Direito: cobrança mais literal da lei, sem aprofundamento em jurisprudência.
Saúde da mente
É difícil conquistar a aprovação na primeira prova, e o processo pode ser frustrante. “Um erro muito forte que eu vivi foi a autossabotagem”, diz Francini Peliciari. Ela não acreditava ser capaz de passar em determinados concursos, mas o desempenho só mudou quando a autoconfiança aumentou.
“Precisa mensurar e dividir o tempo de estudo, tempo de cuidado com o corpo, lazer e alimentação. Tem que haver essa harmonia entre corpo e mente”, orienta Andreia Arguello, docente do curso de Direito na Estácio. “É normal passar em vários certames e ser eliminado de acordo com as etapas, não pode desanimar.”
Num universo de tanta concorrência, quem precisa conciliar trabalho e estudo pode se sentir atrás dos ‘concurseiros profissionais’. Nesse caso, a competição é mais difícil, e o foco precisa ser redobrado.
“Se você tem menos tempo, então vai ter que aproveitar esse tempo. Eu mesma já precisei reorganizar a minha rotina em determinado momento para conseguir evoluir, porque eu entendi que precisava de tempo de qualidade para estudar, e isso fez muita diferença nos meus resultados”, diz Francini.
Guia de sobrevivência do concurseiro
Depois de anos de estudo, reprovações, aprovações, criação de conteúdo sobre os concursos públicos de Mato Grosso do Sul e interação com outros concurseiros, Francini Peliciari lista dicas para quem sonha com a aprovação:
- Trate o estudo como uma profissão, porque isso exige rotina, disciplina e renúncias;
- Estudar para concurso não é uma prisão, é um estudo temporário;
- Faça muitas questões, revise constantemente para consolidar o aprendizado;
- Estude a banca e a incidência dos conteúdos;
- Vá além do conteúdo em si;
- Pesquise sobre o cargo que você está tentando, não olhe somente para remuneração;
- Cuide da sua mente, acreditar na aprovação faz muita diferença;
- Não se compare, cada trajetória é única;
- A constância sempre vai trazer resultado.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)



