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Cotidiano

Lanchonete onde jovem teria comprado lanche antes de morrer é autuada pela Vigilância

Sesau diz não haver relação comprovada entre irregularidades e a meningite que matou David
Lethycia Anjos -
Jovem morre após ficar 14 dias internado e família suspeita de lanche estragado
Família acredita que sanduíche estragado possa ter causado a morte de David. (Foto: Redes Sociais)

A lanchonete no bairro Zé Pereira, onde David Kauã Vieira, de 23 anos, teria comprado um lanche antes de adoecer, foi autuada pela Vigilância Sanitária de Campo Grande após uma denúncia feita pela família à Ouvidoria da Sesau. O jovem morreu em 31 de agosto, após ser diagnosticado com meningite bacteriana.

Durante a fiscalização, foram constatadas irregularidades higiênico-sanitárias, incluindo ausência de boas práticas e presença de vetores. No entanto, não foi possível coletar alimentos para análise laboratorial, pois não havia amostras disponíveis referentes ao período mencionado na denúncia.

O estabelecimento terá 15 dias para apresentar defesa, mas, segundo a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), as irregularidades encontradas durante a fiscalização não permitem estabelecer, até o momento, relação entre a lanchonete ou o alimento consumido e a meningite bacteriana que levou à morte do jovem.

Lanchonete contesta irregularidades

Ao Jornal Midiamax, o responsável pela lanchonete confirmou a fiscalização. Segundo ele, o local estava sem funcionamento desde sábado, devido a ameaças recebidas. Por isso, alguns dos itens apontados durante a fiscalização estavam fora das condições exigidas, como um recipiente de batata-palha sem tampa, panos de prato na cozinha e a falta de atualização da carteira de saúde de 2026.

Ele afirmou ainda que considera que as demais condições do estabelecimento estavam regulares e que, caso fossem identificadas irregularidades mais graves, o local teria sido lacrado. O responsável informou que já preparou, com auxílio de um advogado, a defesa que será apresentada à Vigilância Sanitária.

“Meu advogado já fez minha alta defesa e eu irei levar lá o que eles pediram para mandar por e-mail, mas eu vou levar escrito e reconhecido em cartório”, disse.

Morte ainda é investigada

A família de David Kauã Vieira Santos Lopes, de 23 anos, ainda busca esclarecer o que levou à morte do jovem em Campo Grande. A suspeita de uma possível relação com o lanche consumido dias antes surgiu após ele apresentar os primeiros sintomas.

Segundo Alex, pai de David, o filho comprou um lanche no bairro Zé Pereira e, enquanto comia, teria sentido gosto de carne estragada. Ele interrompeu a refeição e avisou a esposa e o filho para que não consumissem o alimento.

Logo depois, David começou a apresentar vômitos e diarreia, que duraram dois dias. A partir daí, passou por atendimentos nas UPAs Vila Almeida e Santa Mônica.

Conforme o boletim de ocorrência registrado pela mãe, o jovem foi atendido e liberado nas duas unidades e permaneceu por cinco dias “indo e retornando para atendimento nas unidades de saúde”. No sexto dia, foi encaminhado ao HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul), onde permaneceu internado por 14 dias. David morreu em 31 de agosto.

Bactéria pode explicar meningite, mas não confirma relação com lanche

A documentação médica apresentada pela família à Polícia Civil aponta que a primeira cultura do líquor identificou Streptococcus do grupo viridans. O documento também informa que David não tinha histórico de comorbidades e que não houve resposta ao tratamento antimicrobiano orientado pelo resultado da cultura.

Para a médica e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, Andyane Tetila, a identificação da bactéria no líquor é um achado importante e, quando o quadro clínico é compatível, “pode indicar que esse grupo de bactérias foi o responsável pela meningite”.

Os Streptococcus do grupo viridans normalmente vivem no organismo humano, principalmente na boca e na região da garganta. Em situações incomuns, porém, podem chegar à corrente sanguínea ou ao sistema nervoso central e provocar infecções graves, como a meningite.

Segundo Andyane, a infecção pode estar relacionada a focos na boca e nos dentes, infecções de ouvido ou dos seios da face, alterações na anatomia, traumas ou determinados procedimentos médicos. Em alguns casos, mesmo com investigação, não é possível identificar por onde a bactéria entrou no organismo.

Ainda assim, a relação com o lanche consumido por David segue sem confirmação. A suspeita da família surgiu porque os sintomas começaram após o consumo do alimento, mas, segundo a infectologista, essa sequência, por si só, não permite afirmar que o lanche provocou a infecção.

“Em relação ao lanche consumido antes do início dos sintomas, segue não sendo possível estabelecer uma relação entre uma possível intoxicação alimentar e a meningite apenas pelo fato de terem ocorrido em sequência”, explica.

Os vômitos relatados pela família, inclusive, podem fazer parte da própria apresentação da meningite, segundo a especialista.

Já a diarreia pode indicar que David teve algum problema gastrointestinal ao mesmo tempo. Ainda assim, Andyane ressalta que a meningite causada por Streptococcus do grupo viridans não é uma manifestação comum de uma doença transmitida por alimentos.

Por isso, com as informações disponíveis, seria “precipitado atribuir a meningite ao alimento consumido”. Para investigar a origem da bactéria, seria necessário analisar o histórico do paciente, os demais exames e possíveis focos de infecção, além de identificar exatamente qual espécie de Streptococcus foi encontrada.

A especialista explica que, mesmo que a mesma bactéria fosse encontrada no alimento, ainda seria necessário comparar os materiais e reunir outras evidências para confirmar que o alimento foi, de fato, a origem da infecção.

‘Fui covardemente atacado e linchado nas redes sociais’

Enquanto o caso segue em investigação, o responsável pela lanchonete afirma ter sido alvo de ataques e ameaças após a suspeita de que o lanche teria relação com a morte do jovem. Segundo ele, a família não o procurou para relatar qualquer problema após o consumo do alimento, e ele tomou conhecimento das acusações apenas pelas redes sociais.

O comerciante disse ainda que, um dia antes da morte de David, a esposa do jovem teria relatado a ele que o paciente havia contraído uma infecção hospitalar. Segundo ele, após tomar conhecimento das acusações, ele procurou orientação médica em um hospital particular e recebeu um parecer de que seria “altamente improvável” que o alimento vendido pela lanchonete tivesse causado a morte.

Ele afirmou também ter registrado boletins de ocorrência por conta das ameaças e dos ataques nas redes sociais. “Fui covardemente atacado e linchado virtualmente nas redes sociais”, declarou.

O comerciante negou ainda ter deixado Campo Grande ou se escondido após as acusações. Segundo ele, esteve na chácara de um amigo no domingo e retornou para casa.

“Destruíram injustamente a imagem do meu restaurante às vésperas de completarmos 10 anos de tradição. Sempre trabalhei de forma honesta com meus clientes e com a nossa comunidade”, afirmou.

Por fim, ele disse confiar na investigação das autoridades e afirmou que pretende buscar responsabilização judicial de pessoas que, segundo ele, tenham divulgado informações falsas sobre o estabelecimento.

Corpo encaminhado ao Imol

Além da suspeita de intoxicação levantada pelos familiares, o documento médico registra outra possibilidade para a evolução do quadro. Como David não respondeu ao tratamento antimicrobiano, os médicos consideraram a possibilidade de uma fístula cerebral espontânea, que poderia explicar a falha do tratamento mesmo com a terapia orientada pelo resultado da cultura.

A família também questiona se a demora para identificar a gravidade do quadro pode ter contribuído para a evolução da doença. Segundo o pai, na última passagem pela UPA antes do encaminhamento ao Hospital Regional, David já apresentava sinais de agravamento, estava desorientado e havia perdido a visão de um dos lados.

“Fiquei com meu filho quase uma semana nesse bate e volta. Será que não olharam no sistema para ver que a infecção estava aumentando e que não era mais caso de posto de saúde? Na última vez, já estava com uma parte do rosto e um lado da visão sem enxergar”, diz.

Segundo o HRMS, casos em que há suspeita de morte por infecção passam por avaliação médico-legal e o corpo segue para o Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal), conforme os protocolos e a legislação vigente. No entanto, o hospital afirmou que não comenta casos específicos em respeito ao sigilo das informações dos pacientes, dos prontuários médicos e à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais).

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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