Nem mesmo a proximidade com o Dia dos Pais foi suficiente para aquecer de forma significativa a procura por relógios como opção de presente para a data. Há quem diga que o item se tornou algo de significado maior do que apenas uma lembrança de ocasião, representando um bem de valor simbólico que marca momentos e atravessa gerações, passando de pai para filho ao longo dos anos.
Essa simbologia do relógio como um objeto carregado de valor afetivo é percebida diariamente por relojoeiros que trabalham há décadas na região central de Campo Grande. Para eles, o verdadeiro valor do presente nem sempre está no preço ou na marca, mas na história que acompanha cada peça.
Presente no comércio da Capital há 51 anos, a relojoeira e proprietária de uma oficina de conserto e restauração de relógios, Simone da Silva Araújo, explica que muitos clientes chegam com peças herdadas da família, em busca de preservar lembranças que atravessam gerações.
“Tem bastante valor afetivo nos relógios. Às vezes é algo de formatura ou aquele famoso ‘meu pai me deu e vou guardar para o meu filho’. É bem comum isso. As pessoas colocam bastante valor afetivo e o relógio é algo bem sugestivo. Além da parte funcional, ele ainda traz essa memória”, conta a especialista.

A percepção é compartilhada pelo relojoeiro Paulo Pereira Leite Filho, que acumula quase cinco décadas de experiência na profissão. Acostumado a restaurar peças antigas, ele afirma que o trabalho vai além do conserto de um acessório: muitas vezes, significa devolver à família um objeto carregado de lembranças e histórias.
“Eu comecei lá na época do manual, depois os automáticos, depois os de geração a pilhas e bateria. Eu achei que iriam acabar com esses modelos mais tradicionais, mas as marcas nacionais, que fabricam esses modelos, investiram mais e os tradicionais voltaram a cair no gosto. A demanda continua muito forte, apenas com o problema de mão de obra, que começou a ficar ruim”, explica o especialista.

Apesar do movimento abaixo do esperado para o Dia dos Pais, os profissionais do setor afirmam que o relógio tradicional segue longe de cair em desuso. Na contramão do avanço dos celulares e dos relógios inteligentes, as peças clássicas continuam despertando interesse, principalmente entre consumidores que buscam um acessório mais discreto e atemporal.
Segundo o empresário Cezar Nogueira, a expectativa era de que os modelos tradicionais perdessem espaço ao longo dos últimos anos. O cenário, porém, acabou sendo diferente.
“Há bastante procura pelos relógios tradicionais. Nós achávamos que essa procura ia acabar entre 2026 e 2030, mas eles ressuscitaram. Embora os smartwatches sejam mais tecnológicos e praticamente todo mundo tenha um, a preferência agora está sendo pelos modelos tradicionais e com caixas menores”, relata.

Ele acrescenta que o crescimento do interesse também está ligado ao colecionismo e à valorização das peças mecânicas e clássicas. “Aumentou bastante a procura de modo geral, porque as pessoas começaram a colecionar.”
Embora os modelos tradicionais mantenham espaço no mercado, os smartwatches já não registram o mesmo ritmo de vendas observado nos últimos anos.
“A demanda no Dia dos Pais é bem inferior à de outras datas festivas. Esperamos que o mercado aqueça nesses próximos dias, já que o brasileiro geralmente deixa pra última hora. Acredito muito que o filho geralmente busca o relógio tradicional para presentear o pai e deixa o mais tecnológico para uso próprio, então esse é o nosso público de maior procura”, explica o gerente de uma loja de venda de celulares e relógios do Centro de Campo Grande, Hugo Arthemar.

Além da preferência pelos modelos clássicos, outro movimento chama a atenção das relojoarias: muitos consumidores têm buscado restaurar relógios antigos em vez de adquirir uma peça nova. Segundo Simone, o serviço de pós-venda e de restauração ganha força justamente em datas como o Dia dos Pais, quando famílias aproveitam a ocasião para recuperar relógios herdados.
Neste ano, porém, o comportamento do consumidor ainda está mais tímido. “Fazemos muito o pós-venda e a restauração de relógios de família. Geralmente, nesta época, o movimento já está bem aquecido porque as pessoas não só compram, mas também querem restaurar um relógio para presentear. Neste ano, ainda não fomos surpreendidos com esse movimento”, afirma.
Mesmo diante de um mercado mais frio neste Dia dos Pais, quem trabalha há décadas entre engrenagens, mostradores e ponteiros acredita que o relógio continua ocupando um espaço que a tecnologia dificilmente substitui. Mais do que marcar as horas, ele preserva memórias, carrega histórias e segue atravessando gerações como um dos presentes de maior valor afetivo entre pais e filhos.
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(Revisão: Nichole Munaro)










