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Cotidiano

‘Moedor de gente’: funcionários expõem sobrecarga, adoecimento e assédio na Santa Casa

Enfermeira diz que perdeu um rim ao viver a realidade invisível dentro do hospital
Lethycia Anjos -
Colapso: MS chega a 821 internados e 100% de lotação no HRMS, HU e Santa Casa
(Reprodução)

Superlotação, filas de espera intermináveis, cirurgias suspensas e atrasos salariais já colocaram a Santa Casa de Campo Grande inúmeras vezes nas manchetes dos jornais. Mas, para além dos problemas visíveis ao público, há uma realidade ainda mais complexa vivida pelos profissionais de saúde nos corredores.

Relatos de funcionários revelam uma rotina exaustiva, marcada por sobrecarga constante, silêncio institucional e impactos significativos na saúde física e emocional de quem sustenta o maior hospital da cidade.

Sem pausas para ir ao banheiro, enfermeira perdeu um rim

De todas as histórias, a de Maria* é talvez um dos exemplos mais extremos de como as más condições de trabalho podem impactar a saúde dos profissionais. Foram dez anos atuando como técnica de enfermagem na Santa Casa, período em que, segundo ela, a diferença de tratamento entre técnicos e enfermeiros já era evidente. A decisão de cursar Enfermagem surgiu justamente da expectativa de ter mais autonomia e contribuir para mudanças dentro da instituição.

A realidade, contudo, foi bem diferente do que ela imaginava. Maria relata que a sobrecarga fazia parte da rotina, especialmente em setores críticos, como o CTI (Centro de Terapia Intensiva). Plantões exaustivos, múltiplos pacientes e a falta de pausas para necessidades básicas eram frequentes. “Não havia tempo sequer para ir ao banheiro ou beber água.”

Foi nesse cenário que um episódio marcou sua trajetória. Durante uma pequena pausa para ir ao banheiro, um dos pacientes sob seus cuidados morreu. A responsabilização recaiu toda sobre ela e desencadeou um trauma tão grande que a fez negligenciar suas necessidades básicas.  

“Parei de beber água e de ir ao banheiro durante os plantões”, conta.

Anos depois, em 2019, Maria passou por uma nefrectomia, cirurgia para retirada de um rim, procedimento que ela atribui ao desgaste acumulado e à falta de condições adequadas de trabalho. Mesmo após o procedimento, decidiu seguir na profissão.

Já formada como enfermeira, ingressou em 2024 no programa trainee da Santa Casa. O que deveria ser um período de aprendizado acabou sendo marcado por cobranças excessivas e falta de suporte. Recém-contratados chegavam a assumir até 12 pacientes simultaneamente, conciliando assistência, sistemas e demandas médicas.

‘Onde você comprou seu diploma?’

Santa Casa. (Pietra Dorneles, Midiamax)

Maria relata ainda episódios frequentes de humilhação diante de colegas e pacientes. “Fui chamada de ‘vergonha’ e questionaram se eu tinha comprado meu diploma”, afirma. 

Com o tempo, a enfermeira diz que passou a duvidar da própria capacidade profissional. “Chegava em casa me perguntando se era burra. Foi uma quebra total de expectativa.”

A enfermeira buscou apoio em órgãos como Ministério Público e Ministério do Trabalho, mas afirma não ter recebido retorno efetivo. O impacto emocional foi tão intenso que ela passou cerca de um ano sem conseguir sair da cama, período em que iniciou tratamento psicológico em um Caps.

Além dos problemas emocionais, Maria desenvolveu hérnia de disco e tenossinovite. Segundo ela, os laudos médicos relacionavam os quadros a atividades que extrapolavam suas atribuições, como o transporte de pacientes e macas.

O desfecho veio com o desligamento do programa trainee por não atingir a nota mínima exigida. Para a enfermeira, porém, a decisão não pode ser dissociada do contexto de denúncias e conflitos vividos dentro da instituição. “A gerência sabia do que acontecia. Hoje, só de ouvir o nome de algumas pessoas, eu sinto medo”, afirma.

‘Você chega e já te jogam no CTI’

Santa Casa enfrenta superlotação
Santa Casa enfrentou superlotação – imagem ilustrativa. (Divulgação, Santa Casa)

Claudia*, de 54 anos, entrou na Santa Casa em 2011 como técnica de enfermagem e, assim como Maria, enfrentou dificuldades desde os primeiros dias de trabalho. Segundo ela, a falta de treinamento e a pressão por produtividade colocavam em risco tanto os profissionais quanto os pacientes.

“Você chega e já é jogada no setor. Não tem instrução. Só dizem ‘é assim’ e você precisa se virar”, relata. Sem experiência prévia em terapia intensiva, foi alocada diretamente no CTI, ambiente que exige preparo técnico e tomada de decisões rápidas. “Um erro mínimo pode ser fatal.”

De acordo com a profissional, a sobrecarga era constante. Em determinados períodos, chegou a ser responsável por até 15 pacientes em estado grave, incluindo queimados, que demandam cuidados complexos e monitoramento contínuo. Ela afirma que a falta de pessoal comprometia a segurança da assistência e aumentava o risco de falhas.

Ao questionar a chefia e se recusar a assumir uma quantidade de pacientes que considerava incompatível com um atendimento seguro, Cláudia recebeu advertência por insubordinação. 

“Registrei que estava sendo coagida a trabalhar sem condições adequadas, mas fui punida mesmo assim”, afirma. Segundo ela, tentativas de buscar apoio por meio da ouvidoria também não tiveram retorno.

Desgaste chegou ao Judiciário

O cenário se agravou em 2019, após Claudia ingressar com uma ação judicial contra o hospital. A partir de então, relata ter sofrido mudanças de setor e aumento da carga de trabalho, medidas que interpreta como retaliação. A pressão, segundo ela, tinha como objetivo forçar seu desligamento da instituição.

A sobrecarga também deixou marcas físicas. Claudia sofreu uma lesão ao movimentar um paciente sem apoio adequado e precisou se afastar. Mesmo com restrições médicas, afirma ter sido designada para atividades incompatíveis com sua condição de saúde, o que agravou seu quadro. 

“Há um desgaste que vai além do corpo. É psicológico também”, diz.

Em 2021, a técnica obteve decisão favorável na Justiça. No entanto, segundo ela, a instituição não formalizou sua saída, impedindo o acesso a direitos trabalhistas como o FGTS. Em 2026, chegou a ser convocada para retornar ao trabalho, mas, sem condições de voltar ao ambiente que considera adoecedor, ingressou com uma nova ação judicial.

‘Santa Casa é um moedor de gente’

Hospital em Campo Grande – ilustrativa. (Madu Livramento, Jornal Midiamax)

Para Luiza*, o que começou como um sonho de infância terminou em frustração e adoecimento. A enfermagem, que antes representava vocação e propósito, hoje é uma área da qual pretende se afastar. “Eu sempre quis isso para a minha vida. Era um sonho cuidar das pessoas, fazer a diferença e mostrar que o paciente não é só um leito”, relembra.

Após seis anos de atuação na Santa Casa, instituição que descreve como um “moedor de gente”, a profissional afirma ter vivido uma rotina marcada pelo desgaste físico e emocional e pela falta de reconhecimento. Segundo ela, os plantões frequentemente ultrapassavam a carga horária prevista devido à escassez de funcionários. 

“Era para ter 11 profissionais, mas trabalhávamos com cinco ou seis. A gente assumia o dobro de pacientes, muitos em estado crítico.”

Nos fins de semana e feriados, a situação se agravava. Sem possibilidade de escolher a escala, os trabalhadores precisavam abrir mão do convívio familiar e, para conseguir uma folga, tinham que negociar trocas de plantão que depois eram compensadas com jornadas extras. 

“Quando questionava, a resposta era sempre a mesma: ‘Não havia funcionários’. Se não estivesse satisfeita, a orientação era procurar um médico e se afastar”, relata.

Com o passar dos anos, os impactos apareceram na saúde. Luiza foi diagnosticada com transtorno de ansiedade, depressão e uma doença autoimune. “Eu nunca tive nada disso antes. Hoje faço tratamento e tenho laudos que apontam relação com o ambiente de trabalho”, diz.

Assédio moral e silenciamento

Além da sobrecarga, a profissional denuncia uma cultura de assédio moral e silenciamento dentro da instituição. Segundo ela, trabalhadores que questionavam condições de trabalho ou denunciavam problemas eram vistos como ameaça.

“Quando você fala, vira problema. Existe um medo muito grande de denunciar”, afirma.

Ela cita, inclusive, a aplicação sucessiva de advertências como forma de pressionar funcionários e justificar desligamentos por justa causa. Em um dos episódios, conta que foi chamada para uma reunião após se manifestar nas redes sociais sobre situações vividas no ambiente de trabalho.

“Disseram que o que eu estava fazendo poderia incentivar outras pessoas a denunciar. Tentaram me calar”, relata. Para Luiza, o medo de represálias faz com que muitos profissionais optem pelo silêncio, mesmo diante de situações que consideram abusivas.

A técnica também acredita que esse cenário afeta diretamente o atendimento aos pacientes. A aparente frieza atribuída aos profissionais, segundo ela, não está relacionada à falta de empatia, mas ao esgotamento físico e emocional provocado pelas condições de trabalho. “Não é falta de humanidade. É um sistema que esgota o profissional”, pontua.

Mesmo assim, Luiza tentou manter um atendimento humanizado. “Eu era criticada por isso. Diziam que eu não estava trabalhando. O reconhecimento vinha dos pacientes e das famílias, mas não de dentro da instituição”, conta.

‘Eu poderia ser só mais uma nota de luto’

Luiza diz que percebeu ter chegado ao limite quando sua própria saúde passou a estar em risco. “Eu me entreguei totalmente à profissão, mas chegou um ponto em que me perdi de mim mesma”, relata. 

A experiência a fez repensar não apenas a carreira, mas também o preço cobrado de quem permanece por anos em um ambiente que considera adoecedor.

“Eu poderia hoje ser só uma nota de luto. Quantas pessoas não acabam sendo apenas uma nota de luto, esquecidas, sem que ninguém saiba o que aconteceu de verdade?”, questiona.

Hoje, faltando apenas um semestre para concluir a graduação em Enfermagem, ela afirma que já tomou uma decisão. Apesar de concluir o curso, não pretende seguir na área. “Vou terminar porque já estou no final, mas não quero mais trabalhar com isso. A enfermagem não adoece ninguém. O que adoece é o ambiente, o sistema”, conclui.

relógio santa casa
Santa Casa é um hospital que atende casos de alta e média complexidade. (Madu Livramento, Midiamax)

Violência institucional

Além da sobrecarga e do desgaste emocional, profissionais de saúde denunciam episódios de violência institucional. Técnica de enfermagem, Francisca* afirma ter enfrentado represálias após integrar a Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), órgão responsável por identificar riscos e propor melhorias nas condições de trabalho.

Segundo ela, a decisão de se candidatar surgiu da preocupação com problemas estruturais, como macas danificadas, cadeiras quebradas e elevadores com defeito. No entanto, após ser eleita, passou a sofrer isolamento e resistência de colegas e gestores. 

“Diziam que eu queria prejudicar a equipe, quando na verdade queria proteger os funcionários”, relata.

A profissional afirma que foi transferida entre setores e passou a enfrentar situações que interpretou como intimidação. Ao percorrer diferentes unidades para ouvir trabalhadores sobre problemas de estrutura, falta de insumos e saúde mental, percebeu que sua atuação era vista como uma ameaça. As pressões, segundo ela, partiam principalmente das chefias intermediárias, enquanto muitos colegas evitavam denunciar irregularidades por medo de represálias.

O impacto na saúde foi significativo. Francisca relata ter desenvolvido depressão em decorrência do ambiente de trabalho e ficou afastada por um ano e meio. Mesmo após retornar, ainda sob uso de medicação, afirma ter enfrentado novos conflitos. Um deles ocorreu após questionar a restrição de acesso a um banheiro no CTI, episódio que resultou em advertência, suspensão e desconto salarial.

“Eu amo a enfermagem e amo cuidar das pessoas, mas tem gente que acaba com o sonho de quem gosta da profissão”, desabafa. Segundo ela, a cultura institucional costuma atribuir problemas psicológicos a questões pessoais, sem reconhecer a influência do ambiente de trabalho.

Mesmo afastada, a técnica defende mudanças na gestão e maior responsabilização interna como essenciais para romper um ciclo que adoece os trabalhadores e impacta diretamente a assistência prestada aos pacientes. 

“A gente quer cuidar, mas também precisa ser cuidado. Do jeito que está, o sistema adoece quem está dentro dele”, conclui.

‘Profissional deve fazer a parte dele também’

Ex-presidente reeleita da Santa Casa, Alir Terra foi firme ao dizer que “a instituição faz a parte dela, mas o profissional deve fazer a parte dele também” ao responder aos questionamentos do Jornal Midiamax. À época da entrevista, ela ainda não estava presa. Assim, afirmou que “a instituição é grande e existem questões, por exemplo, subjetivas, que a gente não consegue detectar”.

“Num universo de mais de 4 mil pessoas trabalhando, uma vida perdida para nós é traumática, mas ela acontece neste universo”, disse Terra. Contudo, pontuou que “muitas vezes, as pessoas taxam o problema no trabalho. As pessoas também têm uma vida pessoal e muitas vezes elas trazem esse problema pessoal com elas e acaba interferindo na vida profissional”.

Para a presidente da instituição, “a pessoa tem que estar preparada psicologicamente, porque ela escolheu a profissão, então ela mesma já tem que tomar o cuidado”.

Apesar dos relatos e questionamentos do Jornal Midiamax sobre a rotina exaustiva dos trabalhadores, Alir negou o adoecimento dos funcionários. “Nós não temos, assim, um corpo de colaboradores adoecidos. Nós não temos.”

Logo, justificou que o número de atendimentos reflete a boa saúde do corpo técnico. “Tanto é verdade que nosso número de atendimentos de sucesso é muito grande. O número de atendimentos dentro da Santa Casa de Campo Grande é o maior de Mato Grosso do Sul”, finalizou.

Ala vermelha: no limite da emergência

O Jornal Midiamax publica neste mês uma série de reportagens especiais sobre a Santa Casa, aprofundando-se nas problemáticas que compõem o hospital de referência em Mato Grosso do Sul.

Com casos de alta e média complexidade, a instituição cura e salva vidas. Porém, no meio do caminho, a rotina do hospital também pode adoecer quem presta o atendimento. Camadas de dor — dos profissionais, dos pacientes e das famílias dos que já partiram dentro do hospital — se entrelaçam, formando parte da característica de ser uma instituição de alta complexidade.

*Nomes fictícios usados para sigilo das fontes, previsto pelo artigo 5°, inciso XIV, da Constituição Federal de 1988.

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(Revisão: Nichole Munaro)

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