Guardar uma embalagem até encontrar uma lixeira, evitar jogar óleo de cozinha na pia e entender por que não se deve desperdiçar água. Atitudes que parecem simples passaram a fazer parte da rotina de Alice da Silva Oliveira, aluna do 5º ano da Escola Municipal Irene Szucala, em Campo Grande. Mais do que aprender sobre meio ambiente nos livros, ela começou a compreender como o saneamento básico está diretamente ligado à saúde e à qualidade de vida das pessoas.
O conhecimento adquirido em sala de aula também mudou a maneira como a estudante enxerga situações do dia a dia. Se antes jogar uma embalagem de bala na rua poderia passar despercebido, hoje ela sabe que o descarte incorreto de resíduos pode prejudicar o meio ambiente e o funcionamento da rede de esgoto.
“Eu sempre guardo. No meu carro, tem uma sacolinha, que aí, se você sujar alguma coisa lá, você coloca lá, depois você chega em casa e joga no seu lixinho. Ou, se você não tem uma sacolinha ali por perto, guarda no bolso, segura, e aí, quando você vê uma lixeira, você joga”, conta Alice.
A preocupação da menina vai além dos próprios hábitos. Ao falar sobre o descarte correto do óleo de cozinha, ela explica que o material pode ser armazenado em garrafas PET e encaminhado para pontos de coleta ou reaproveitado na produção de sabão.
“Hoje, se você faz isso, você planta um futuro melhor para você e para suas futuras gerações, seus filhos, seus netos”, afirma.
O aprendizado que chega em casa
A mudança de comportamento também é percebida pela família. A mãe de Alice, Gleice Regina de Oliveira, conta que os ensinamentos trazidos da escola ajudaram a reforçar cuidados que já faziam parte da rotina doméstica, principalmente em relação à separação de materiais recicláveis e ao descarte do óleo de cozinha.
Para ela, a participação em projetos educativos faz diferença porque permite que as crianças compreendam, de maneira mais prática, orientações que muitas vezes são transmitidas apenas dentro de casa.
“Às vezes, a gente só fala e faz em casa, mas não é a mesma coisa do que quando ela participa de algum projeto. Ela consegue entender de outra forma e leva também, tanto na escola quanto em casa”, relata a mãe.

O aprendizado, inclusive, já começa a ser compartilhado com a irmã mais nova. Alice conta que procura ensinar à pequena, por meio de brincadeiras, algumas das práticas que conhece na escola. Uma das atividades envolve um jogo criado a partir de um canteiro de plantas, no qual as crianças precisam acertar determinados espaços para avançar.
Para Gleice, ver a filha reproduzindo os ensinamentos e envolvendo a irmã demonstra como a educação ambiental pode alcançar outras pessoas dentro da própria família.
Ela conta que a escola intensificou os projetos de preservação desde o ano passado, com atividades como arrecadação de óleo usado e criação de jardins com plantas medicinais.
“Hoje a gente vê como o meio ambiente está sendo agredido, com tanto lixo, poluição e óleo descartado de forma incorreta. Isso é o que vai ser bom para eles mesmos no futuro, um ambiente melhor para a gente viver”, afirma.
Conhecimento ultrapassa os muros da escola
A consciência ambiental que Alice demonstra é resultado de um trabalho desenvolvido na escola, onde o tema do saneamento é abordado por meio de atividades, conversas e experiências que aproximam o conteúdo da realidade dos estudantes. A proposta é fazer com que as crianças entendam não apenas a importância de preservar os recursos naturais, mas também como o acesso à água tratada e à coleta de esgoto interfere diretamente na saúde.
Há 31 anos na educação, a professora Sandra Ambrosio, responsável pela turma do 5º ano, acompanha a construção desse aprendizado e incentiva os estudantes a reproduzirem em casa os cuidados trabalhados em sala de aula.
Segundo ela, as orientações envolvem desde evitar o desperdício de água nos bebedouros até separar materiais recicláveis e descartar corretamente resíduos. A mudança de comportamento também aparece nos relatos que os próprios alunos levam para a escola.

“Outro dia ele chegou: ‘Professora, meu pai fez isso, minha mãe fez isso e eu corrigi’. Eu falei: ‘Então já é a consciência que eles estão trabalhando, passando para os pais’”, relata Sandra.
A professora conta que a turma também participou de uma atividade de arrecadação de óleo de cozinha usado, envolvendo estabelecimentos comerciais e pessoas próximas aos estudantes. A iniciativa ajudou a mostrar, na prática, que o descarte inadequado de resíduos pode provocar problemas ambientais.
Ao explicar a importância de evitar que o óleo seja despejado na pia, Sandra utiliza uma comparação para aproximar o assunto da realidade das crianças.
“Eles ainda falaram assim: ‘Professora, é igual o nosso coração’. A gente come e aquilo cai em gordura para entupir nossas veias, e o óleo jogado no lixo é igual, só que no nosso meio ambiente”, recorda-se.
Para a educadora, ensinar sobre saneamento também significa preparar as crianças para compreenderem os impactos de atitudes que, muitas vezes, são reproduzidas pelos adultos sem que exista uma reflexão sobre suas consequências.
A própria experiência dos estudantes durante as atividades ajuda a desmistificar o caminho percorrido pela água e pelo esgoto. Sandra recorda que, depois de conhecerem mais sobre o tratamento, alguns alunos ficaram surpresos ao descobrir que o esgoto coletado não é simplesmente despejado nos rios, mas encaminhado para estações específicas.
“Antes, eles achavam que tudo ia para o rio. Mas não é assim que acontece. Tudo antes vai para o tratamento”, explica.

Educação ambiental como parte do saneamento
Em Campo Grande, esse trabalho também é desenvolvido por meio de iniciativas da Águas Guariroba, responsável pelos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário na Capital.
Uma das principais frentes é o Programa Sanear, criado em 2006 e que completa 20 anos em 2026. Ao longo desse período, a iniciativa já alcançou mais de 207 mil estudantes e capacitou mais de 1.300 professores, com atividades voltadas à educação socioambiental.
Somente em 2026, foram realizadas 92 ações e palestras, que chegaram a 2.545 alunos. Os conteúdos abordam temas como a origem da água, as etapas do tratamento, a coleta de esgoto, a destinação correta dos resíduos e a preservação ambiental.
Para o gestor de Responsabilidade Social da Águas Guariroba, Jonathan Santos, a participação das crianças é importante porque o conhecimento adquirido na escola pode chegar às famílias e contribuir para a mudança de hábitos.
“As crianças, na verdade, são os maiores agentes fiscalizadores dos adultos. Então, a gente municia essas crianças de informações e de coisas práticas e materiais para que elas possam ter como falar para os pais o que aprenderam”, afirma.

Além das palestras nas escolas, a concessionária desenvolve o programa Portas Abertas, que recebe estudantes em unidades de tratamento de água e esgoto. Durante as visitas, os alunos acompanham as etapas dos processos e conhecem de perto estruturas que fazem parte do funcionamento do saneamento.
Uma estação lúdica instalada na Estação de Tratamento de Água também ajuda a tornar o aprendizado mais acessível. A proposta é permitir que os estudantes visualizem as etapas do tratamento e compreendam o caminho percorrido pela água até chegar às residências.
O material educativo também é utilizado como ferramenta para levar o conhecimento para casa. A concessionária distribui gibis com informações sobre saneamento, jogos e atividades que permitem aos estudantes revisar o conteúdo e compartilhar o que aprenderam com os familiares.
“Quando ele vai tomar água, entende que não é simplesmente uma água que está saindo da torneira, mas que existe um trabalho por trás”, destaca Jonathan.
Para o gestor, o investimento em educação também tem reflexos no futuro da cidade. Ele lembra que a compreensão sobre a importância do esgotamento sanitário pode influenciar a maneira como as próximas gerações vão lidar com a infraestrutura disponível.
“Fazendo um estudo, a gente percebeu que o adulto de hoje é a criança de 20 anos atrás que aprendeu sobre a importância do saneamento. É uma sementinha que a gente planta no coração da criança para que, no futuro, ela seja a pessoa que vai entender a importância desse benefício”, afirma.

Saneamento também é prevenção de doenças
A importância desse aprendizado ganha outra dimensão quando relacionada aos impactos do saneamento na saúde pública. O acesso à água tratada, à coleta e ao tratamento de esgoto reduz a exposição da população a agentes contaminantes presentes na água e no solo, ajudando a prevenir doenças que atingem principalmente crianças.
O infectologista Bruno Filardi explica que a falta de condições adequadas de saneamento, associada à higiene inadequada, favorece a transmissão de doenças diarreicas e outras infecções. Crianças estão entre os grupos mais vulneráveis, tanto pela exposição durante brincadeiras em ambientes contaminados quanto pelas características do sistema imunológico.
“As doenças diarreicas estão entre as principais causas de morte em crianças menores de cinco anos. Quando existe um saneamento básico inadequado, a população fica mais exposta a essas infecções”, explica.
Segundo o médico, a transmissão pode acontecer por diferentes caminhos. O contato com solo contaminado, o consumo de água sem tratamento e a ingestão de alimentos preparados sem os cuidados adequados de higiene estão entre os principais fatores de risco.

O especialista destaca que o saneamento precisa ser entendido como parte de um conjunto de medidas de prevenção, que inclui água de boa qualidade, instalações sanitárias adequadas e hábitos de higiene, especialmente a lavagem correta das mãos.
“São três fatores interligados: água, saneamento e higiene. Quando não existe uma rede de esgoto adequada, quando a água não tem qualidade e não há uma higienização correta das mãos, as crianças podem entrar em contato com esses agentes e desenvolver doenças”, detalha.
Além das doenças diarreicas, a exposição prolongada a ambientes contaminados pode favorecer infecções intestinais causadas por parasitas, como ascaridíase, tricuríase e ancilostomíase. Em casos recorrentes, essas infecções podem provocar prejuízos nutricionais e comprometer o desenvolvimento infantil.
O infectologista também chama atenção para as consequências de episódios de diarreia na infância. A perda de líquidos pode provocar desidratação, que, em situações mais graves, exige atendimento médico e até internação.
“Quando a criança apresenta um quadro de diarreia que persiste por três, quatro ou cinco dias, é necessário procurar uma unidade de saúde para avaliar a situação e fazer o tratamento adequado, principalmente a hidratação”, orienta.
Para o médico, a melhoria das condições de saneamento tem reflexos que vão além da prevenção de doenças. A redução dos episódios de infecção também diminui a necessidade de internações, os afastamentos dos pais do trabalho e as interrupções na rotina escolar das crianças.
Expansão acompanha redução de internações
Em Campo Grande, a relação entre saneamento e saúde também aparece nos indicadores de cobertura da rede e de internações por doenças diarreicas.
Dados da Águas Guariroba apontam que a cobertura de esgotamento sanitário na Capital chegou a 95% da população, enquanto o abastecimento de água alcança 99,8%.
A dimensão dessa transformação aparece em um levantamento sobre os indicadores de saúde pública e esgotamento sanitário em Campo Grande. Entre 2003 e 2021, o percentual da população atendida com esgotamento sanitário passou de 19% para 89,32%, alcançando 665.032 pessoas.
No mesmo período, o estudo identificou redução de 91% nos registros de doenças diarreicas agudas e queda de 97% nas internações por essas doenças entre crianças menores de quatro anos.


Outro recorte, com dados da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde Pública), mostra que, entre 2011 e 2024, a cobertura de coleta de esgoto passou de 61,3% para 91,1%. Paralelamente, a incidência de internações por diarreia caiu de 2,90 para 1,36 por 10 mil habitantes, uma redução de 53%.
Em 2024, Campo Grande registrou 1,36 internação por diarreia por 10 mil habitantes. A Sesau também acompanha outros agravos relacionados às condições sanitárias e ambientais, como hepatite A e leptospirose.
A secretaria ressalta, entretanto, que a evolução dos indicadores não permite atribuir a redução das internações exclusivamente à expansão da rede de esgoto, uma vez que fatores epidemiológicos, ambientais e comportamentais também influenciam a ocorrência dessas doenças.
Ainda assim, a ampliação do saneamento contribui para reduzir a exposição da população a agentes contaminantes. No caso de crianças, a coleta e o tratamento de esgoto ajudam a diminuir o contato com dejetos e ambientes que podem favorecer a transmissão de doenças.
Mudança que pode atravessar gerações
Se os números ajudam a dimensionar os avanços de Campo Grande, a transformação também pode ser observada nas atitudes de crianças que começam a compreender o papel de cada pessoa na preservação dos recursos naturais.
Para a professora Sandra, o acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário representa uma conquista que interfere diretamente nas condições de aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes. Ela destaca que crianças saudáveis têm melhores condições de participar das atividades e aproveitar a rotina escolar.
“Uma criança saudável se desenvolve bem melhor”, afirma.
Na casa de Alice, os ensinamentos já ultrapassaram a rotina escolar. A estudante compartilha o que aprende com a mãe e a irmã mais nova, mostrando que a educação ambiental pode começar com pequenas atitudes e alcançar diferentes gerações.
O desafio é fazer com que esse conhecimento acompanhe os estudantes ao longo da vida. Na escola, Alice já aprendeu que preservar o meio ambiente também significa cuidar da própria saúde e das pessoas que ainda virão.


Uma lição que começa com uma embalagem guardada no bolso ou uma garrafa de óleo separada em casa, mas que aponta para algo muito maior: a possibilidade de construir uma cidade em que o saneamento seja compreendido não apenas como um serviço essencial, mas como parte do cuidado com a vida.
💬 Fale com os jornalistas do Midiamax
Tem alguma denúncia, flagrante, reclamação ou sugestão de pauta para o Jornal Midiamax?
🗣️ Envie direto para nossos jornalistas pelo WhatsApp (67) 99207-4330. O sigilo está garantido na lei.
✅ Clique no nome de qualquer uma das plataformas abaixo para nos encontrar nas redes sociais:
Instagram, Facebook, TikTok, YouTube, WhatsApp, Bluesky e Threads.
(Revisão: Dáfini Lisboa)

























