Em meio à epidemia de chikungunya, que já resultou em 12 mortes em Mato Grosso do Sul, a vacinação surge como uma das principais estratégias para conter o avanço da doença. No entanto, a campanha inicial não contempla justamente os grupos mais vulneráveis, crianças e idosos, que concentram a maior parte das mortes no Estado.
Neste ano, o Estado representa 63% de todos os 19 óbitos registrados no país e mais de 6 mil casos prováveis em 2026. Os dados do boletim epidemiológico da SES (Secretaria de Estado de Saúde) mostram que os óbitos ocorrem majoritariamente entre idosos e crianças.
Dourados concentra o maior percentual de óbitos, com oito mortes confirmadas, sendo sete entre indígenas. As vítimas tinham 69, 73, 60, 55, 77 e 63 anos, além de dois bebês de 1 e 3 meses. Também há registros em Bonito (72 anos), Jardim (82 e 94 anos) e Fátima do Sul (82 anos).
Além disso, o cenário é agravado pelo avanço do mosquito Aedes aegypti. Na última semana, a SES informou que 67% dos municípios sul-mato-grossenses estão em nível de alerta para infestação, o que amplia o risco também para dengue e zika.
Vacinação começa, mas com restrições
A cidade de Itaporã foi a primeira do Estado a iniciar a vacinação contra a chikungunya. O município recebeu 3 mil das 20 mil doses enviadas inicialmente e tem como meta imunizar 21,2% do público-alvo. A aplicação começou no dia 18 de abril e, nesta fase, é destinada exclusivamente à população de 18 a 59 anos sem comorbidades.
Em Mato Grosso do Sul, foram recebidas 20 mil doses, com previsão de chegar a 46,5 mil. Destas, 7 mil foram encaminhadas ao núcleo regional de Dourados. A distribuição ocorre de forma fracionada, conforme a capacidade de armazenamento da rede de frio, para garantir a conservação adequada dos imunizantes.
Quem pode se vacinar?

A vacina é de dose única e indicada para pessoas de 18 a 59 anos, 11 meses e 29 dias, independentemente de infecção prévia. Conforme a SES, a estratégia inicial contempla profissionais de saúde e a população indígena dentro dessa faixa etária.
Por se tratar de um imunizante de vírus vivo atenuado, há contraindicações: gestantes, puérperas, imunocomprometidos, pessoas com doenças crônicas descompensadas e indivíduos com histórico de reação alérgica grave não devem receber a dose.
Além disso, pessoas que já tiveram chikungunya também podem se vacinar, independentemente de infecção prévia (soropositivos e soronegativos).
Impacto epidemiológico e limitações
Médica infectologista Andyane Tetila, presidente da Sociedade Sul-Mato-Grossense de Infectologia, explica que a definição do público-alvo não se baseia apenas na gravidade dos casos.
“A definição do público de 18 a 59 anos não é baseada apenas em quem mais adoece gravemente, mas principalmente nos dados disponíveis de segurança e eficácia da vacina, que ainda são mais robustos nessa faixa etária”, explica.
Segundo ela, embora crianças e idosos sejam mais vulneráveis às formas graves da doença, a vacinação de adultos tem efeito coletivo. Isso porque esse grupo concentra grande parte da exposição ao vírus e da transmissão, o que faz com que a imunização contribua para reduzir a circulação viral e proteger, de maneira indireta, os grupos de risco.
“Vacinar adultos tem impacto epidemiológico relevante, porque esse grupo concentra grande parte da exposição e da transmissão. Assim, a vacinação ajuda a reduzir a circulação do vírus na comunidade.”
Contudo, a médica pondera que os efeitos não serão imediatos. “No cenário atual de Dourados, a vacina não deve alterar o pico imediato da epidemia, mas pode amenizar a intensidade e a duração dos casos nas próximas semanas, além de diminuir complicações crônicas.”
Primeira vacina do mundo contra chikungunya

O imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan, em parceria com a farmacêutica Valneva, foi aprovado pela Anvisa em abril de 2025, sendo o primeiro do mundo contra a chikungunya. Produzido com tecnologia de vírus atenuado, ele induz resposta imunológica sem causar a doença e apresenta alta taxa de eficácia.
A vacina foi avaliada nos Estados Unidos em 4 mil voluntários de 18 a 65 anos, tendo apresentado um bom perfil de segurança e alta imunogenicidade: 98,9% dos participantes do ensaio clínico produziram anticorpos neutralizantes, com níveis que se mantiveram robustos por ao menos seis meses.
Em 2022, o Instituto Butantan realizou testes da vacina com adolescentes de 12 a 17 anos em novas cidades, incluindo Campo Grande (MS). Os resultados de estudos clínicos, com publicação na The Lancet Infectious Diseases, apontaram para a presença de anticorpos neutralizantes em 100% dos voluntários com infecção prévia e em 98,8% daqueles sem contato anterior com o vírus. A proteção foi mantida em 99,1% dos jovens após seis meses.
Apesar do avanço da vacinação, autoridades reforçam que o controle do mosquito Aedes aegypti continua sendo fundamental. A principal medida é evitar água parada, ambiente propício para a reprodução do vetor.
‘Vacinação segue essencial’
Hoje a vacinação representa um avanço importante, mas ainda limitado, especialmente para os grupos mais vulneráveis, que permanecem fora da atual estratégia de imunização.
Apesar disso, a infectologista Andyane Tetila ressalta que a imunização segue essencial e não substitui outras medidas de controle. “Mesmo com essa limitação, a vacinação segue sendo uma estratégia importante e complementar ao controle do mosquito e ao manejo clínico adequado”, completa.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)








