R$ 32 milhões! Um prêmio de loteria ou uma herança milionária? Bem que poderia ser uma dessas opções, mas esse é o valor que a ABCG (Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande) deve aos médicos de contrato PJ (Pessoa Jurídica), que estão com salários atrasados desde maio deste ano. O valor surge durante discussões sobre paralisação de profissionais e negociações com a nova diretoria do hospital, que recentemente foi palco de um escândalo de desvios de recursos milionários.
Por mês, segundo o Sinmed-MS (Sindicato dos Médicos de MS), a folha de pagamento desses profissionais, aproximadamente 300 médicos, é fechada entre R$ 8 milhões e R$ 8,5 milhões, valor que também se acumula à dívida do maior hospital de Mato Grosso do Sul a cada novo mês que os médicos ficam sem salário.
Mas qual a saída para a Santa Casa encerrar essa situação e “limpar o nome na praça” com os funcionários? Conforme o presidente do Sinmed, Marcelo Santana Silveira, parte desses profissionais, que são especialistas em anestesiologia, deve entrar em negociação com a nova diretoria do hospital na esperança de receber a fortuna de salário que a instituição deve a eles.
Segundo Marcelo, chegou a existir entre os médicos o pensamento de paralisação e até mesmo demissões pelos atrasos, que perduram por quase cinco meses, mas nenhuma decisão foi tomada devido a essa nova “conversa” entre a Santa Casa e os médicos. “Como houve uma mudança da diretoria, parece estar ocorrendo uma renegociação lá dentro. A princípio, eles se demitiriam; eles sairiam do serviço, o serviço de anestesiologia, mais de 100 profissionais e pessoas jurídicas. Mas parece que voltaram à renegociação com essa nova diretoria que assumiu à frente da Santa Casa”, diz o presidente.
Marcelo explica que, caso não haja negociação favorável aos médicos em questão, a dívida da Santa Casa com a classe deve crescer mais neste mês, chegando a mais de R$ 40 milhões. Além da dívida com os médicos, o hospital ainda enfrenta outras dívidas e problemas relacionados a fornecedores, insumos e lotação.
Recentemente, outro problema, também por atraso em pagamentos, gerou o fechamento da ala cardíaca cirúrgica pediátrica do hospital, referência no procedimento em todo Mato Grosso do Sul, após a demissão de médicos especialistas. As demissões foram informadas pelo Sinmed-MS e confirmadas pela própria Santa Casa.
Conforme apurado pela reportagem do Midiamax, antes dos desligamentos, houve uma conversa de tentativa de acordo com os profissionais das modalidades PJ e CLT, a fim de chegar a uma resolução. Foi informado que apenas os médicos com contrato CLT optaram por continuar com os atendimentos no hospital, enquanto a outra parte dos profissionais seguiu com a demissão.
A doutora Izabela Falcão, diretora clínica da Santa Casa de Campo Grande, disse que a saída desses profissionais já havia sido sinalizada devido ao atraso no pagamento de salários e que os desligamentos causariam um grande impacto, deixando a população de Campo Grande e de todo o Estado desassistida.
“A Santa Casa é referência nessa especialidade na cirurgia cardíaca pediátrica e, com a saída dessa equipe, haverá o descredenciamento dessa especialidade na instituição. Então, os órgãos competentes serão avisados, como o Ministério da Saúde e os gestores públicos também, tanto municipais quanto estaduais, e o Ministério Público”, disse a diretora, em nota.
Crise na Santa Casa
Há meses, a Santa Casa de Campo Grande vem noticiando uma crise relacionada a contratos de repasse de recursos que estariam defasados, destacados em diversos eventos e documentos pela antiga diretoria da instituição. Essa crise se arrasta há mais de 20 anos e culminou na intervenção realizada entre 2005 e 2013, a qual não resolveu o problema crônico das dívidas do hospital, que voltaram a crescer nesses 13 anos.
Em julho deste ano, a então presidente Alir Terra, hoje presa, destinou a culpa da crise enfrentada pelo hospital à falta de reajuste na Tabela SUS, nos contratos com o Poder Público: “A dívida total da Santa Casa é em torno de 600 milhões”. Na data, em 27 de julho, Alir informou à imprensa que o hospital apostava no recebimento de valores, que chegaram a R$ 757,2 milhões em ações judiciais que alega ter vencido, para superar a crise financeira que se arrasta há anos.
“Então, se as coisas viessem andando desde o início, os contratos tivessem sido reajustados — e a Santa Casa, já de longuíssima data, vem recebendo o reajuste muito aquém do necessário para o seu funcionamento —, não teria como se endividar tanto. Se a Santa Casa recebesse tudo, o hospital estaria revitalizado, atendendo a todos os pacientes da melhor maneira possível e com repasses em dia a todos os funcionários e fornecedores”, alegou à época.
Desvios de recursos
A nova gestão assume o hospital após a Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) e pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul).
A ação cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO). Entre os presos, estavam a então presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, além de integrantes e ex-integrantes da direção do hospital e um empresário.
Segundo as investigações, o grupo teria atuado em um esquema envolvendo um contrato para digitalização de prontuários. O acordo previa R$ 1,8 milhão por ano, durante três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Conforme o MPMS, somente no primeiro ano, o desvio teria chegado a R$ 1,4 milhão.
As investigações também apontaram irregularidades em contratos da Santa Casa Saúde com empresas ligadas ao mesmo grupo. Segundo o MPMS, somente em 2025, os pagamentos chegaram a R$ 9,6 milhões, com prejuízo estimado em pelo menos R$ 3,5 milhões. O total do eventual prejuízo à Santa Casa ainda é investigado.
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(Revisão: Nichole Munaro)









