Com atendimentos suspensos desde o início do mês de setembro após a demissão de médicos, a ala de cirurgia cardíaca pediátrica da Santa Casa de Campo Grande segue à espera de solução definitiva para a retomada dos procedimentos, que são referência no estado. A gestão do hospital afirma que ainda mantém uma criança internada sem condições clínicas de transferência enquanto negocia com o Estado e o Município uma alternativa para manter o serviço.
Na manhã desta sexta-feira (9), durante entrevista coletiva, o gestor Luiz Alberto Kanamura, disse que houve uma reunião entre a Santa Casa e as secretarias de saúde do Estado e de Campo Grande, nesta quinta-feira (8), em busca de uma solução para a retomada dos serviços de atendimento de cardiologia infantil, mas que enquanto uma solução não é definida, a entidade ainda mentem uma criança sob cuidados das equipes até que tenha condição clínica para transferência.
“Eu tive reunião ontem com o Estado e com o município. Tá em resolução. Vai ter uma saída nos próximos dias. Nós só temos uma criança atualmente que está em assistência porque não tem condições de ser transferida. Todo o primeiro atendimento aí que a estabilização do paciente vai ser feita”, explica Kanamura.
Além disso, questionado sobre a investigação do Ministério Público e o repasse envolvendo o Ministério da Saúde, o gestor afirma que o MS foi comunicado sobre o encerramento dos atendimentos do setor. “Ministério Público já foi avisado e o Ministério da Saúde foi avisado também; é a norma mesmo que a gente tem que avisar”, afirma o gestor.
Por outro lado, o Ministério da Saúde foi procurado pelo Jornal Midiamax para esclarecimento sobre o fechamento da ala e negou qualquer comunicação sobre a situação dos atendimentos envolvendo a pediatria cardíaca.
“O Ministério da Saúde não recebeu, até o momento, solicitação de desabilitação do estabelecimento nem comunicação formal sobre eventual interrupção dos serviços mencionados. A pasta permanece à disposição para atuar dentro de suas competências e apoiar a continuidade da assistência à população”, diz a nota.
Ainda em entrevista, Kanamura reafirmou que a situação não está normalizada, mas que está sendo resolvida.
“A situação não está normalizada. Está sendo resolvida porque isso envolve uma rede; a rede é composta por Santa Casa, Estado e Município, que envolvem os outros hospitais do Estado, e nisso está se encontrando uma saída que atenda toda a rede, não exclusivamente a Santa Casa”, finaliza.
Crianças transferidas
Conforme apurado pelo Midiamax, a Santa Casa de Campo Grande fechou o setor de cirurgia cardíaca pediátrica e transferiu as crianças internadas para unidades de referência em São Paulo e no Paraná. O hospital era o único centro de referência do SUS (Sistema Único de Saúde) para atendimento de crianças com cardiopatia congênita no Estado.
O problema já estava anunciado desde o dia 2 de setembro, quando um grupo de médicos recusou-se a seguir trabalhando na unidade, já que estavam com quatro meses de salários atrasados. No dia 11 de setembro, a presidente da Santa Casa, Alir Terra, e diretores foram presos por suspeita de fraudes em contratos.
Desde então, quatro crianças ficaram internadas na Santa Casa, aguardando operação cardíaca, e mais uma foi admitida. “Foram transferidas para outro serviço do SUS, no interior de São Paulo e no hospital de referência de Curitiba”, explica a diretora clínica da Santa Casa, médica Izabela Falcão.
Apenas uma das crianças segue na Santa Casa, porque não tem condições de saúde suficientes para a transferência. No entanto, assim que for estabilizada, a paciente com cardiopatia congênita também deve ser retirada do hospital e levada a outra unidade de saúde, fora de Mato Grosso do Sul.
‘Grande perda para o Estado’
O cirurgião Luiz Alberto Kanamura, novo diretor-presidente da Santa Casa, diz que o hospital não tem mais condições de manter esse atendimento. “É um problema que não é só da Santa Casa, é dos gestores estaduais, municipais e federais. Então, a decisão tem que ser pactuada em todos os níveis”, opina.
A diretora clínica da Santa Casa, Izabela Falcão, lamenta que Mato Grosso do Sul tenha perdido o único centro gratuito para este tipo de atendimento e espera uma solução. “É uma grande perda para o Estado, mas os secretários de Saúde e o Ministério Público estão trabalhando arduamente para tentar reverter essa situação”, revela.
O que dizem as secretarias?
A Sesau informa que “não houve, por parte do Município, qualquer decisão de retirar a cirurgia cardíaca congênita das discussões do contrato relacionadas à assistência pelo SUS. A Sesau participou, inclusive, de uma discussão realizada no âmbito do Ministério Público, com a equipe responsável pela cirurgia cardíaca, ocasião em que foi manifestada a disponibilidade para a manutenção do serviço, desde que asseguradas as condições estruturais do hospital necessárias para sua continuidade. A Secretaria ressalta que a organização e a disponibilização da estrutura necessária para a realização dos procedimentos também envolvem a unidade hospitalar responsável pelo atendimento. Dessa forma, as tratativas seguem em andamento, com o objetivo de garantir a continuidade da assistência às crianças que necessitam desse tipo de procedimento, evitando qualquer desassistência. A Sesau permanece acompanhando a situação e participando das discussões necessárias para a manutenção da oferta do serviço pelo SUS em Campo Grande“.
O Jornal Midiamax perguntou à SES (Secretaria Estadual de Saúde) se a pasta estuda medidas para a reabertura do setor de cardiopediatria e se haverá apoio às famílias de crianças transferidas. Não houve resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
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