Responsável por movimentar R$ 49.947.019 em exportações de Mato Grosso do Sul aos Estados Unidos no primeiro semestre de 2026, o sebo bovino fundido sofre o principal impacto do tarifaço de 25% imposto pelo governo Trump aos produtos brasileiros. Para diminuir o baque ao setor dos derivados de carne em MS, a expectativa é de achar novos mercados e ampliar o uso interno do sebo como matéria-prima na produção de biodiesel.
A tarifa entrou em vigor nesta quarta-feira (22), mas 97% das exportações do Estado ao país norte-americano ficaram isentas, como carne bovina, ferro-gusa e celulose. Além do sebo, serão taxados produtos como biquínis e maiôs, concentrados de proteína, ovos de aves, álcool etílico não desnaturado, colas e adesivos. Até junho deste ano, esses itens somados renderam US$ 10.232.112 a MS, o que equivale a R$ 52.042.568.
O sebo bovino fundido é matéria-prima na produção de sabões, detergentes, cosméticos, ração, velas, giz de cera, lubrificantes, tintas e até biodiesel. Nos Estados Unidos, o produto é transformado em sabonete e outros derivados de limpeza. Agora, os americanos precisarão pagar mais 25% ao comprar o sebo bovino de empresas sul-mato-grossenses e podem preferir adquirir no mercado interno ou importar mais barato de outro país.
No primeiro semestre, o Estado enviou 9.039 toneladas de sebo bovino fundido ao país norte-americano. “O momento é de procurar novos mercados para recolocar essa produção”, diz Regis Comarella, presidente do Sicadems (Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de MS). “Acredito também no aumento da porcentagem do biodiesel [para produção de diesel]”, completa.
Atualmente, o óleo diesel vendido ao consumidor contém 15% de biodiesel e 85% de diesel fóssil. Se o percentual obrigatório de biodiesel aumentar, a demanda pelo biocombustível também sobe. Consequentemente, a elevação também aumenta a procura por matérias-primas, entre elas o sebo bovino.
Sebo bovino vira biodiesel
Conforme a Embrapa, a produção de biodiesel utiliza como matérias-primas óleos vegetais, gordura animal, óleos e gorduras residuais. A gordura animal pode ser retirada do sebo bovino, óleos de peixe, óleo de mocotó, banha de porco, entre outras fontes. Cerca de 1,56 milhão de toneladas de sebo bovino são produzidas no Brasil a cada ano, e cada quilo de sebo pode gerar até 800 ml de biodiesel.
O setor da proteína bovina em Mato Grosso do Sul considera que, se a mistura obrigatória de biodiesel no diesel avançar de 15% para 20%, aumentará a procura por sebo bovino para a produção do biocombustível, o que ajudaria a absorver a produção e sustentar o preço.
“Quem sabe agora o governo [federal] libera uma ajuda ao setor? Isso pode ser relevante para o preço do sebo bovino: se o Brasil caminhar de 15% para 20%, a demanda total por matéria-prima para biodiesel aumentará bastante. Isso ajudará muito”, opina o presidente do Sicadems, Regis Comarella.
Impacto reduzido
No entanto, apesar do impacto negativo à exportação de sebo bovino, o Sicadems considera que a extensa lista de exceções à tarifa de 25% é o ponto mais relevante desse novo tarifaço. “O mais importante é que a carne não foi taxada”, conclui Comarella, representante do setor da carne e outros derivados bovinos.
Carne bovina desossada e congelada corresponde a 51,4% das exportações aos Estados Unidos, seguida de ferro-gusa fundido bruto (20%), celulose (16%), carne bovina fresca ou refrigerada (5,42%), carne bovina em salmoura ou defumada (1,67%) e filé de tilápia (1,1%). Todos esses produtos, que correspondem a 96% das exportações de MS aos Estados Unidos, estão livres da nova tarifa.
Em julho do ano passado, após o presidente norte-americano Donald Trump anunciar taxas de 50% sobre produtos brasileiros, frigoríficos sul-mato-grossenses habilitados para exportação chegaram a suspender a produção de carne destinada aos Estados Unidos. A avaliação era de que a sobretaxa tornaria esse comércio insustentável.
Naquele momento, o setor estimava um impacto destrutivo às exportações do Estado, mas Mato Grosso do Sul diversificou o mercado e conseguiu destinar a produção bovina a outros países. Tempos depois, a carne brasileira passou a figurar na relação de produtos isentos do tarifaço norte-americano.
Outros produtos taxados
Os outros produtos de Mato Grosso do Sul que estão taxados em 25% são menos representativos nas exportações aos Estados Unidos. Dados do Observatório da Indústria mostram a participação dos itens nas exportações ao país, o valor movimentado e o volume vendido até junho de 2026. Confira a lista:
- Concentrados de proteínas e substâncias proteicas texturizadas — 0,03%, US$ 127.050, 38 toneladas;
- Maiôs e biquínis de banho, de malha, de uso feminino, de fibras sintéticas — 0,03%, US$ 101.438, volume não informado;
- Ovos de aves, sem casca, secos — 0,03%, US$ 95.880, 120 toneladas;
- Outro álcool etílico não desnaturado — 0,02%, US$ 83.505, 100 toneladas;
- Outros produtos de qualquer espécie utilizados como colas ou adesivos, acondicionados para venda a retalho como colas ou adesivos, com peso líquido não superior a 1 kg — 0,01%, US$ 18.978, volume não informado.
Entenda o novo tarifaço
A decisão de impor o novo tarifaço de 25% é fruto da investigação do USTR, que acusou o governo brasileiro de “práticas injustificáveis, desarrazoadas ou discriminatórias de governos estrangeiros que oneram ou restringem o comércio dos EUA”. O etanol, o Pix e o desmatamento ilegal são algumas das motivações da taxa.
A maior parte dos produtos já estava isenta da cobrança quando a investigação da Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos foi concluída, em junho, mas o governo norte-americano ampliou as exclusões na última quarta-feira (15). O ferro-gusa de Mato Grosso do Sul entrou na lista de isenções só agora.
As exceções às tarifas foram aplicadas a produtos considerados importantes para a indústria estadunidense, mas que têm pouca oferta no país. Assim, a taxa poderia causar impacto negativo à produção dos Estados Unidos.
Exportações de MS
Conforme o Observatório da Indústria, painel disponibilizado pela Fiems (Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul), os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Estado.
A China é a principal parceira, responsável pela compra de 1,8 milhão de toneladas de produtos, o que representa US$ 1,3 bilhão apenas nos primeiros seis meses deste ano.
Neste período, as exportações totais do Estado acumulam movimentação de US$ 3,83 bilhões. Nos primeiros seis meses do ano passado, o valor era de US$ 3,78 bilhões. Ou seja, as exportações do primeiro semestre de 2026 superam o registrado em 2025.
As exportações aos Estados Unidos também subiram neste período, apesar dos imbróglios na política internacional entre os dois países. Entre janeiro e junho de 2025, o comércio internacional com o país norte-americano movimentou US$ 3,2 milhões, ante US$ 3,7 milhões no mesmo período deste ano.
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(Revisão: Nichole Munaro)






