Liderança das Testemunhas de Jeová anunciou na sexta-feira (18) uma mudança em uma de suas mais polêmicas diretrizes. A partir de agora, a decisão de aceitar ou doar os quatro componentes principais do sangue (glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma e plaquetas) passa a ser uma questão de consciência pessoal de cada fiel.
Apesar da nova orientação, a posição histórica da religião contra a transfusão de sangue total continua inalterada. A recusa se baseia em princípios religiosos, especificamente na passagem bíblica de Atos 15:20, que orienta a “abster-se de sangue”.
A decisão amplia uma regra já existente na organização. Anteriormente, os membros já tinham liberdade para decidir sobre o uso das chamadas “frações” do sangue.
O novo ajuste estende esse raciocínio aos quatro componentes principais, sob a justificativa de que a Bíblia não traz proibições específicas sobre esses elementos, tornando o assunto uma decisão de foro íntimo.
Paul Gillies, porta-voz internacional do grupo, ressaltou que a visão teológica sobre o tema não mudou.
“Para as Testemunhas de Jeová, o sangue continua sendo sagrado, e elas continuam a considerar a vida e o sangue como presentes preciosos de Deus”, explicou. Segundo ele, as lideranças das congregações não vão interferir nessas escolhas médicas, que agora cabem exclusivamente a cada pessoa.
A organização também reforçou que seus membros não praticam a cura pela fé e desejam receber os melhores tratamentos médicos disponíveis. O grupo orienta seus fiéis a buscarem profissionais de saúde que consigam oferecer tratamentos eficazes e, ao mesmo tempo, respeitem suas convicções religiosas.
Atualmente, as Testemunhas de Jeová reúnem mais de nove milhões de membros em todo o mundo, distribuídos em congregações por mais de 200 países e territórios. No Brasil são mais de 938 mil fiéis, segundo balanço de 2025.
Decisão do STF preservou direito religioso
No Brasil, o STF (Supremo Tribunal Federal) já tratou do tema. Os magistrados decidiram, por unanimidade, que pacientes adultos e capazes da religião Testemunhas de Jeová têm o direito de recusar procedimentos médicos que envolvam transfusão de sangue, com base na liberdade religiosa.
A decisão determina que o poder público é obrigado a disponibilizar e custear tratamentos alternativos pelo SUS, inclusive com o deslocamento do paciente para outras localidades, se necessário e houver viabilidade técnica.
No entanto, o tribunal definiu uma exceção rigorosa para crianças e adolescentes: nesses casos, o direito à vida e à saúde se sobrepõe à liberdade religiosa dos pais, que não podem impedir tratamentos vitais para os filhos.
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