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Economia

Exportação de miúdos de MS à China pode alterar consumo de famílias mais pobres

Cortes como fígado, rabo, mocotó e costela formam a base alimentar das famílias de menor renda
Vinicios Araujo -
Preço no açougue pode ser impactado pelo aumento da venda externa. (Foto: Marcos Ermínio
(Foto: Marcos Ermínio

Após o governo da China reconhecer todo o território brasileiro como área livre da febre aftosa na terça-feira (2), abrindo mercado para a compra de carnes com osso e miúdos de bovinos e suínos, o valor dos cortes mais acessíveis nos açougues tende a ter leve aumento em razão da previsão da exportação.

Para Enrique Romero, economista da UFGD (Universidade Federal da Grande ), é natural que os produtores busquem o mercado exterior pelas vantagens cambiais. O analista detalha que os preços sobem quando a oferta de mercadorias no mercado interno cai.

“O produtor local sempre vai preferir a venda ao exterior por causa das divisas que vai receber que ao trocar em moeda nacional lhe proporcionará mais vantagens monetárias. Isso é natural em qualquer setor da economia, tanto em produtos como em serviços”, afirmou.

A avaliação é corroborada pelo coordenador do curso de economia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Adriano Marcos Rodrigues Figueiredo, que afirma que cortes como fígado, rabo, mocotó e costela formam a base alimentar das famílias de menor renda. Entretanto, ele frisa que a pressão adicional sobre os cortes mais populares deve ser modesta.

“O frigorífico que antes tinha pouca alternativa senão vender o fígado e a costela no mercado local passa a ter um comprador externo disposto a pagar mais. O resultado esperado é uma pressão de preço regressiva: ela tende a recair desproporcionalmente sobre os cortes consumidos pelas camadas de menor renda, e não sobre cortes nobres já amplamente exportados. Do ponto de vista distributivo, esse é o aspecto mais sensível do anúncio”, analisa o especialista.

Segundo Figueiredo, o reconhecimento sanitário atua em conjunto com outras variáveis econômicas na formação dos preços. O professor lembra que a cota de exportação de carne imposta por Pequim restringe as vendas totais do Brasil a 1,1 milhão de toneladas anuais.

Contudo, após o aumento do consumo de carne pelos asiáticos neste ano, as projeções indicam o fim desse limite entre setembro e outubro de 2026. Mas o reflexo nos preços dos açougues não é influenciado apenas pelo aumento da exportação de cortes mais baratos.

“O preço já está em patamar recorde por razões internas e globais: a arroba do boi gordo acumula alta superior em 2026. A causa estrutural é a retenção de fêmeas, que reduz a oferta de animais para abate — a Datagro projeta queda de 7,5% nos abates de 2026 (38 milhões de cabeças, ante 41 milhões em 2025) —, somada ao rebanho norte-americano no menor nível em 75 anos. Esse pano de fundo explica a maior parte da alta, independentemente da aftosa”, pontua.

Ademais, o professor da UFMS alerta que a restrição da cota não diminui os valores no Brasil, pois os frigoríficos cortam o ritmo de abate para evitar excesso de produto. Segundo o pesquisador, “o mercado interno e o externo não são vasos comunicantes simples”.

“A intuição do ‘menos exportação, carne mais barata’ não se sustenta. Ao perder o destino externo marginal, os frigoríficos tendem a reduzir o ritmo de abate para evitar excesso de oferta e compressão de margem, de modo que a oferta interna também cai e o preço se sustenta”, observa o analista.

Diante das variações de preço, os analistas preveem adaptação do consumo no orçamento doméstico. Os pesquisadores acreditam que o primeiro reflexo deve ser a adesão das carnes de frango, que já são as mais baratas no mercado.

Na visão do economista de Dourados, Enrique Romero, as mudanças da reforma tributária tendem a diminuir a carga de impostos sobre a carne a partir do próximo ano.

“Como também estamos em ano eleitoral, este tende também a ser um tema em discussão das correntes políticas que participarão do processo eleitoral”, acrescentou.

Figueiredo também observa reflexo no debate político, mas alerta para a simplificação da pauta. “O risco para o debate público é precisamente a simplificação, ou seja, transformar uma decisão sanitária marginal em bode expiatório de uma alta cuja origem é o ciclo pecuário e a política comercial chinesa”, concluiu.

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