Durante mais de 20 anos, Lidia Lemes Batista da Silva tinha um ritual de ir ao salão alisar os cabelos a cada trimestre. Na hora de sair para uma festa ou qualquer outro evento, não tinha muito segredo. Os fios precisavam estar escovados. Mas, em 2020, aos 47 anos, decidiu deixar a química de lado e conhecer os cabelos que, por tanto tempo, ficaram escondidos sob os alisamentos.
Primeiro vieram as tranças feitas com o próprio cabelo. Depois, o alongamento com fios sintéticos e, em outubro de 2021, o primeiro corte para retirar parte da química. “Com o primeiro corte, seguimos com hidratações e aqueles cuidados básicos, até cortar um pouco mais e, por fim, retirar toda a química dos cabelos. Hoje, hidrato e defino os cachos, às vezes no salão, às vezes em casa, mesmo”, pontua.
A vontade de mudar também veio de observar outras mulheres. Lidia conta que ver pessoas assumindo os cabelos naturais e falando sobre a beleza dos fios crespos fez com que começasse a olhar para si mesma de outra maneira. “Na minha infância e até pouco tempo atrás, a cultura do cabelo liso era muito forte. As mulheres pretas e de cabelos crespos não eram vistas como pessoas dentro dos padrões de beleza impostos pela sociedade”, recorda-se.
Nem todo mundo entendeu a decisão de imediato. O pai e o avô chegaram a perguntar se ela não voltaria a alisar os cabelos. Em alguns momentos, diziam até que preferiam os fios como eram antes. Mas Lidia não voltou atrás.
“Meus cabelos, para mim, não são vistos mais como um problema ou preocupação ou difíceis de arrumar. Sim, dá um certo trabalho, mas o resultado deixa minha autoestima elevada, pois é minha identidade, minha originalidade. Sinto-me livre!”, conta.
Espaços de luta
A história de Lidia tem um endereço conhecido na Comunidade Quilombola Tia Eva e alguém por trás: o salão de Marli Borges. Foi ali que ela passou boa parte dos anos em que mantinha os cabelos alisados. Há 21 anos, a cabeleireira acompanha de perto as mudanças na relação das mulheres com os próprios fios.
Descendente de Tia Eva e moradora da comunidade quilombola, Marli conta que o interesse pelos cabelos crespos surgiu ainda no começo da profissão. “Meu interesse pelos cabelos crespos surgiu desde o início da minha profissão. Sou da comunidade e foi justamente nesse contexto que comecei a perceber uma realidade que me inquietava muito.”
“Era comum ouvir relatos de mães que procuravam salões de beleza e recebiam respostas negativas de profissionais, dizendo que os cabelos de suas filhas não tinham jeito, que não havia nada que pudesse ser feito por eles”, conta.
A partir daí, Marli decidiu estudar e se especializar para oferecer outras possibilidades de cuidado. Hoje, ao lado da filha, atende mulheres e crianças que querem conhecer melhor os próprios cabelos, descobrir a curvatura dos fios e aprender a cuidar deles.

Uma das lembranças mais marcantes é a de uma menina de apenas seis anos que chegou ao estabelecimento acompanhada pelo pai, após passar por um procedimento químico para alisar os cabelos em outro salão. Abalada, a criança já havia ouvido críticas da própria família sobre seus fios. Com o apoio do pai, Marli começou a recuperação e valorização dos cabelos naturais, com cuidados e orientações durante a transição capilar.
“Hoje, poder vê-la feliz, confiante e em paz com seus cabelos é uma das maiores recompensas que essa profissão poderia me proporcionar. Quando uma criança aprende a conhecer seu tipo de cabelo, entende como cuidar dele, descobre os produtos adequados e conhece as possibilidades de tratamento e finalização, ela cresce com mais segurança para fazer suas próprias escolhas. Ela aprende que não precisa mudar sua identidade para se sentir bonita.”
“Ao longo desses 21 anos, pude acompanhar uma transformação muito significativa. Percebi um interesse cada vez maior das mulheres em conhecer seus próprios cabelos, como entender seu biotipo capilar, identificar sua curvatura, descobrir quais produtos são mais adequados e aprender a cuidar dos fios da maneira correta.”
Dia do Orgulho Crespo
Neste sábado (7), Mato Grosso do Sul celebra o Dia do Orgulho Crespo, data instaurada no calendário como uma homenagem à adolescente Karina Saifer de Oliveira, que foi vítima de bullying na escola por conta do seu cabelo. Ela faleceu aos 15 anos, e a sua história motivou a criação da Lei Estadual 5.206/2018, de autoria do ex-deputado Amarildo Cruz.
“Vejo a nova geração empoderada, com sentimento de pertencimento e com orgulho de suas origens”, afirma Lidia. “Pode usar seus cabelos naturais, mudar o visual ou escolher outros estilos. O mais importante é que tenha liberdade para decidir, sem vergonha, imposições ou preconceitos”, conclui Marli.
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(Revisão: Dáfini Lisboa)








