A incompatibilidade patrimonial do policial civil Andrey Elesbão Silva e a movimentação bancária chamaram atenção da PF (Polícia Federal) durante as investigações que culminaram na Operação Ifrit, deflagrada na quarta-feira (4), em conjunto com a Receita Federal, em Mato Grosso do Sul e outros seis estados.
A Operação Ifrit mirou organização criminosa transnacional liderada por um núcleo familiar e associada a facções criminosas, com participação de policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e um PRF (policial rodoviário federal) de outro estado. Entre os 29 alvos da operação, estão o policial civil Andrey Elesbão Silva; Douglas Tobias; delegado Hoffman D’Ávila Candido e Sousa; e o clã Haidar: Adel Hassan Haidar e Nasser Haidar, que estão foragidos, e Bassan Hassan Haidar, que está preso.
Conforme o relatório ao qual a reportagem do Jornal Midiamax obteve acesso, Andrey declarava rendimento líquido de R$ 9.420 em dezembro de 2025. A PF identificou uma comunicação obrigatória de cartório referente à aquisição, entre 19 de maio e 1º de junho de 2023, de um apartamento pelo valor de R$ 650 mil. Deste valor, R$ 350 mil foram pagos em espécie e R$ 300 mil financiados. Além disso, foi identificado o pagamento de R$ 45 mil em espécie na aquisição de veículo em uma concessionária.
As investigações identificaram ainda que Andrey declarava várias doações financeiras de pai, avô, mãe e tio, sendo o doador mais expressivo seu pai. Ao cruzar os dados bancários e fiscais, a PF notou divergência entre o declarado e o valor efetivamente recebido pelo pai dele.
O IRPF (Imposto sobre a Renda das Pessoas Físicas) registrou R$ 145.000 em doações no intervalo de 2021 a 2024 (desconsiderado o valor informado em 2016), enquanto os lançamentos bancários revelam R$ 360.134,31 creditados pelo pai nas contas de Andrey, entre os anos de 2020 e 2025.
Ainda foi demonstrado que a concessionária vinculada à organização criminosa remeteu recursos para o tio e o pai de Andrey. Foram sete transferências da garagem para os parentes do policial, totalizando R$ 227.813,80 — sendo R$ 150.039,52 para o pai e R$ 77.774,28 para o tio.
Mamede Alhaj Haidar, primo de Adule, também é apontado como integrante do núcleo operacional e financeiro do grupo. Ele atua como remetente de recursos a Andrey em duas oportunidades, segundo a PF. O policial também teria efetuado oito transferências em favor de um suposto gerente de um residencial, totalizando R$ 1.188.
‘Vai arrepiar essa fronteira’
No caso de Andrey, a relação de proximidade entre ele e Adel foi identificada após os investigadores encontrarem o contato do policial no celular do integrante da família Haidar e, inclusive, uma videochamada. Em abril de 2025, Andrey foi visto supervisionando a instalação de câmeras de segurança em um imóvel para onde se deslocava um veículo da casa de Adel, sendo que a caminhonete dele estava estacionada em frente ao local.
Diálogos entre um usuário identificado como “XL” e Andrey, mantidos entre 30 de maio e 12 de outubro de 2022, identificaram que o policial foi acionado para encontrar o endereço e o perfil de rede social de um desafeto. “Vai arrepiar essa fronteira”, dizia um deles na conversa.
Em junho de 2022, ao ser informada das placas dos veículos usados pela vítima e sua esposa, foram feitas consultas nos sistemas restritos da segurança pública, além de monitorar os deslocamentos por câmeras e radares, enviando os resultados a “XL”.
Suspeita de envolvimento em assassinato de traficante
Dias depois, Andrey manifestou o desejo de “sentar e conversar tomando uma cerveja e comendo uma carne todos nós” assim que o plano desse certo. Diálogos mantidos entre “XL” e Andrey também corroboram a hipótese investigativa de que os dois estariam envolvidos no assassinato do traficante rival “Dogão”. Isso porque “XL” indicou que a cocheira de “Dogão” passou a ser usada em Bela Vista e afirmou que o cavalo dele iria participar de uma corrida naquele município.
Cléber Riveros Segóvia, de 31 anos, conhecido como ‘Dogão’ e apontado como um dos líderes do PCC (Primeiro Comando da Capital), foi executado com tiros de metralhadora na madrugada de 28 de outubro de 2022, na casa onde morava com a esposa, em Sertaneja, no norte do Paraná.
Informante do grupo criminoso
Andrey também encaminhava informações sensíveis obtidas por meio dos sistemas policiais a Adel, que enviava para Adule. Os investigadores da PF encontraram conversa em que Andrey encaminhou a Adule um áudio, dizendo: “Eu vou tentar, tem que ter uma operação rodando pra ver isso aí, mas eu tô na rua, cara, só quando eu chegar, tá?”.
Em determinada conversa, Adule pediu a Andrey os nomes de uma quadrilha do Mato Grosso. “Que rouba”, “Que você prendeu?”, “Eu preciso saber dos nomes, onde que morava, essas coisas. Você tem tudo aí pra me mandar?”, pediu Adule.
Diálogo entre Adule e Daniel Jonatas, em 25 de julho de 2021, revelou Adule mandando uma selfie e, ao fundo, um veículo do Garras, com dois indivíduos no interior, aparentando posar para a foto. “Polícia parou aqui kkkkkkkkk”, falou Adule. Segundo a PF, na imagem, foram identificados dois policiais civis, Andrey e Douglas.
Policial era chamado de ‘Grandão’
Andrey é conhecido como “Grandão” entre os integrantes da organização criminosa. Outros diálogos entre Adule e Andrey revelam que os dois combinam um encontro pessoal e, no dia 22 de maio, Adule enviou uma foto ao lado de Daniel Jonatas. Em 13 de agosto de 2022, Andrey enviou à Adule uma foto com consulta da placa de um carro. Na sequência, Adule pediu que consultasse no sistema para localizar outro indivíduo, sendo o pedido prontamente atendido por Andrey.
Gravações do parlatório do Presídio Federal de Porto Velho (RO) mostram ainda que Maroan, mesmo preso, referiu-se a Andrey como “aquele grandão lá”, mencionando que ele não estava mais no Garras. Em outra conversa de 2020, entre Adel e Adule, Adel encaminhou um link de notícia sobre a continuidade das buscas das polícias sobre os envolvidos em um assalto de Ponta Porã, quando Adule identificou: “Olha o grandão lá”. A PF também encontrou uma planilha de pagamentos de Adule, constando “5.000 aska grandão”, possível pagamento a Andrey pelos serviços prestados à organização.
As investigações apontam que a atuação de Andrey não se limitava a contatos episódicos, mas se inseria de forma consciente e funcional na dinâmica da organização criminosa, mediante disponibilização de informações privilegiadas em benefício de seus integrantes.
A atuação de Andrey na rede de proteção policial da organização criminosa ficou evidente, mediante fornecimento de informações obtidas por acesso a sistemas restritos, assim como o aparente recebimento de valores incompatíveis com o exercício de sua função.
Operação Ifrit
Em Campo Grande, as equipes levaram um Mustang de um condomínio de luxo, na região do Parque dos Novos Estados. O veículo seria de Douglas Tobias, policial civil alvo da Operação Infiltrados, que investiga um esquema que desviava drogas apreendidas pela Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico).
Os policiais federais também foram até a residência de Hoffman D’Ávila para cumprir mandados. Ou seja, essa é a segunda vez em que o delegado e o policial civil são alvos de operação em menos de dois meses.
A organização criminosa investigada pela PF também teve apreendidos uma caminhonete L200 Triton, armas, munições, dinheiro, dólar e até um relógio Rolex dourado, guardado em uma caixa.
A Operação Ifrit cumpriu 76 mandados judiciais, sendo 25 deles de prisão preventiva e um de prisão temporária, e foi realizada em Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia. Três policiais civis foram afastados das funções.
Saiba quem são os 29 alvos da operação:
- Adel Hassan Haidar
- Adule Vasques Haidar
- Andrey Elesbão Silva
- Bassam Hassan Haidar Ahmed
- Brendo Benega Pereira
- Bruno Banega
- Bruno Leonardo Bergamasco
- Daniel Ecleverson da Silva Barbosa
- Daniel Jonatas Ferreira
- Douglas Tobias
- Eduardo Greco
- Fahd Haidar
- Hector Salinas Esquivel
- Hoffman D’ávila Candido e Sousa
- Ireneo Ramom Acosta
- João Fernando Andrade de Carvalho
- Jorge Adalid Granier Ruiz
- José Miguel Vela Caprioli Junior
- Mamede Alhaj Haidar
- Maroan Fernandes Haidar Ahmed
- Nasser Haidar
- Pedro Henrique Flores Camargo
- Rafael Rodas Neto
- Renan Braiana Garcia Presotto
- Salazar José Batista
- Valdeson Pereira dos Santos
- Valter Ulisses Martins Silva
- Victor Hugo Santos Queiroz
- Vitor da Silva
💬 Fale com os jornalistas do Midiamax
Tem alguma denúncia, flagrante, reclamação ou sugestão de pauta para o Jornal Midiamax?
🗣️ Envie direto para nossos jornalistas pelo WhatsApp (67) 99207-4330. O sigilo está garantido na lei.
✅ Clique no nome de qualquer uma das plataformas abaixo para nos encontrar nas redes sociais:
Instagram, Facebook, TikTok, YouTube, WhatsApp, Bluesky e Threads.
(Revisão: Dáfini Lisboa)








