Quem vê graça em retalhos de tecido? Quem olha para uma vitrine do Centro de Campo Grande pode até enxergar apenas um manequim montado. Mas, para Baiflu Gonçalves Alencar, a moda vai muito além disso. O campo-grandense de 25 anos viralizou mostrando a moda como uma ferramenta de expressão, arte, identidade e uma forma de contar histórias.
Baiflu descobriu ainda no ensino médio que poderia experimentar diferentes versões de si mesmo por meio de uma roupa. A liberdade para ousar veio em um período que ele considera um divisor de águas na própria vida.
“Logo após tornar pública à família minha orientação sexual, me senti mais livre para explorar estilos e ousar na personalidade, tudo isso na época em que estive no IFMS [Instituto Federal Mato Grosso do Sul] de Campo Grande”, conta.
“Em 2018, comecei como artista visual, com produções que tinham o fashion e o estranho como inspiração, além de começar a customização de peças pessoais, que logo evoluiu para a paixão pelo styling, que é vestir alguém, criar silhuetas semióticas e contar histórias através da roupa e da composição de looks.”
A relação com a costura também começou cedo. Em 2017, Baiflu ganhou do irmão mais velho uma máquina de costura doméstica. Sem curso específico, aprendeu na prática e com a ajuda de vídeos na internet.
Hoje, trabalhando em uma loja de tecidos, ele encontrou nos retalhos que sobram na loja a matéria-prima para transformar ideias em roupas. A brincadeira virou conteúdo para as redes sociais e ganhou vida própria.
A série publicada no Instagram mostra Baiflu criando peças que gostaria de usar no dia a dia a partir dos retalhos encontrados na loja. Com apenas dois episódios, o conteúdo já começou a ganhar engajamento e a alcançar pessoas fora da própria bolha.
Formado em Produção de Moda pelo Senac Hub Academy, em dezembro de 2024, ele também criou o projeto Blossom Forever, que reúne profissionais da moda e convida mulheres transexuais e travestis para protagonizarem ensaios.
A proposta é usar a moda para trabalhar autoestima, quebrar paradigmas, democratizar o acesso ao universo fashion e fortalecer a comunidade LGBTQIAPN+ de Campo Grande.
O projeto também se tornou uma maneira de lidar com o luto pela morte da mãe, em janeiro de 2024. Ao mesmo tempo que construía sua formação profissional, ele passou a ampliar a atuação como criador e fomentador cultural.
No caminho, trabalhou com artistas nacionais, como DJ Clementaum e Liniker. Em junho deste ano, recebeu a Medalha Alanys Matheusa, na Câmara Municipal de Campo Grande, pelo trabalho de fomento à comunidade LGBTQIAPN+.
Para ele, a moda campo-grandense tem espaço para crescer, principalmente com a força das redes sociais e dos artistas.
“Tempos atrás, fiz um questionamento de ainda não termos um curso da área de moda em universidade pública ou privada que fosse. Nos tempos atuais, com a divulgação correta e conteúdo, seria um novo mercado ‘reflorestado’ com muito potencial de crescimento. MS não é apenas varejo, mas nem somente moda autoral inspirada na cultura local. Também há estética e direções criativas que saem apenas da cabeça de cada criador.”
“O fomento desse cenário depende de uma pirâmide que começa com o fomento da cultura. Sem fomento à cultura e ao acesso, não há eventos como shows, festivais, semanas de moda. E, se não há isso, não há incentivo e motivo para as pessoas saírem de casa e consumirem e comprarem roupa. No fim, a cadeia não gira e não há economia.”
Enquanto pensa nos próximos passos, Baiflu mira a construção da própria marca e uma carreira como designer e diretor criativo. Entre uma vitrine e outra, ele vai deixando sua assinatura em uma cena que acredita ainda ter muito a mostrar.
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(Revisão: Nichole Munaro)







