O Dia de Finados foi de surpresa e tristeza para devotos que visitaram o túmulo da menina Fatinha, conhecido por conter uma água considerada milagrosa, no Cemitério Santo Amaro, em Campo Grande (MS). Neste 2 de novembro, quem foi ao local em busca do líquido encontrou os recipientes completamente vazios, além da própria estrutura tumular apresentando sinais de abandono. Esta é a primeira vez que isso acontece, ao longo de quase 50 anos.
A situação chamou a atenção de pessoas que mantêm o costume de visitar o túmulo para levar um pouco da água para casa. Tradicionalmente, os potes ao redor do sepulcro são abastecidos todos os anos pelo irmão de Fatinha, mas, desta vez, amanheceram secos e empoeirados. A reportagem do Jornal Midiamax tenta localizar o familiar para dar uma resposta aos devotos da menina com fama de milagreira.
Mesmo sem encontrar o fluido ali, eles não deixaram de passar pela sepultura. Muitos foram ao local para expressar a fé, agradecer por graças alcançadas e prestar homenagens à garota. A visita, porém, terminou com frustração para quem esperava encontrar a água para beber, lavar partes do corpo ou levar um pouco do líquido para casa.
O promotor de vendas Claudemir Seabras foi um dos que se surpreendeu com a situação este ano. Ele conta que visitava o local há alguns anos e levou uma garrafinha na expectativa de recolher um pouco da água, mas encontrou os potes vazios. “Uns três anos atrás, quatro anos, a gente vinha e tinha água. Eu trouxe até a garrafinha para pegar. Que pena que não tem mais”, lamenta.
Para Claudemir, a água representa uma tradição de fé e tem um significado especial para os devotos. Embora diga que não tenha recebido uma graça pessoalmente, afirma conhecer pessoas que atribuem acontecimentos positivos à menina Fatinha. “É milagrosa. A gente tomava e tem um significado muito grande. O milagre dela”, afirma.
Um milagre atribuído à água do túmulo de Fatinha
A vendedora Elisângela Paniago também mantém uma relação de devoção com a menina. Ela atribui à água uma graça recebida há cerca de 15 anos, quando enfrentava um problema doloroso na unha do dedão do pé. Com medo de precisar retirar a unha, decidiu visitar o túmulo depois de participar do cortejo fúnebre do sogro.
“Falaram para mim: vai lá no túmulo da Fatinha, que ela é milagrosa. Eu falei: eu vou”, relembra. Elisângela conta que estava com tanta dor que mal conseguia pisar. No local, lavou o pé com a água e levou um pouco para casa, onde também bebeu.
“Eu simplesmente não lembrava da dor. Aquela noite eu já dormi, porque eu não dormia, doía demais. Foi passando os dias e eu fiquei pensando: como é o milagre? Realmente foi a menina de Fátima que fez esse milagre. Curou, sarou meu pé”, relata.
Segundo ela, a melhora foi tão significativa que não precisou mais retirar a unha. Desde então, a experiência fortaleceu sua devoção.

“É a primeira vez que venho aqui e não tem água. Acabou, secou. Triste”
Já o lustrador de móveis Edson Caldeira Cabral diz que visita o túmulo há muitos anos, sempre que vai ao cemitério prestar homenagens aos próprios familiares. Acostumado a encontrar água nos recipientes, ele diz que nunca havia presenciado a situação deste ano. “É a primeira vez que eu venho aqui que não tem água. Acabou, secou, não sei dizer”, comenta.
Edson lembra que costumava recolher a água para beber e também levar para os familiares. Segundo ele, a prática estava relacionada à fé e à sensação de bem-estar. “A gente sempre vinha e pegava água para tomar. A gente se sentia bem. Tomava, levava para a família. Por crer, fazia bem para a gente. Aliviava o corpo”, recorda.
Ao encontrar os potes vazios neste Dia de Finados, o sentimento foi de tristeza. “Agora, do nada, acabou tudo. Hoje eu fiquei triste, passei aqui e está seco, não tem água mais. É a vida”, conclui, sem saber o que aconteceu.

Quem foi Fatinha, a menina que se tornou símbolo de fé em Campo Grande
Fátima Aparecida Vieira, carinhosamente chamada de Fatinha, nasceu em 8 de dezembro de 1971 e morreu em 22 de maio de 1979, aos 7 anos. Sua história é marcada por uma tragédia que aconteceu na casa onde vivia com a família, em Campo Grande.
Conforme relato do irmão, em entrevista concedida ao Jornal Midiamax em 2022, certo dia, a menina chegou da escola e decidiu rezar para Nossa Senhora Aparecida, depois de receber uma orientação da professora para acender uma vela antes de uma prova.
Fatinha entrou em um pequeno cômodo da casa, pendurou-se na chave para trancar a porta e começou a rezar. Durante a oração, uma vela acesa caiu sobre seu vestido, provocando um incêndio. A menina não conseguiu abrir a porta, que estava emperrada, e pediu ajuda à família, passando a chave pelo vão inferior.
Após conseguir sair do quarto, ela se ajoelhou e pediu perdão a Deus e à mãe, segundo as lembranças dos familiares. Foi socorrida e levada à Santa Casa, onde permaneceu internada por três dias. Apesar de aparentar recuperação, morreu ainda criança, em circunstâncias que marcaram profundamente a família.
A morte precoce e a história de religiosidade da menina deram início a uma devoção que atravessa gerações. Poucos meses depois, seu túmulo passou a ser associado a uma suposta água milagrosa, e Fatinha ganhou fama de interceder por fiéis que recorrem a ela em busca de graças.
A mãe, Nair Maria de Jesus, e o irmão sempre mantiveram viva a memória da menina. Em entrevista ao Jornal Midiamax em 2022, a família contou que Fatinha era uma criança generosa, que gostava de dividir o próprio lanche com colegas que passavam necessidade e ajudava pessoas que encontrava pelo caminho.
A origem da água e a tradição mantida pela família
A história da chamada água milagrosa começou poucos meses depois da morte de Fatinha, em 1979. O irmão Paulo Eduardo Vieira contou que uma mulher conhecida da família se sentou ao lado da capela para rezar. Ao se levantar, percebeu que sua saia estava molhada.
A partir daquele episódio, surgiu a crença de que uma água brotava na parte inferior do túmulo. Fiéis começaram a recolher o líquido com seringas e agulhas, atribuindo a ele propriedades de cura. Com o aumento das visitas, a família passou a deixar potes e jarros abastecidos para atender aos devotos.
Paulo explicou ao Midiamax que a água colocada nos recipientes não era exclusivamente aquela que supostamente vertia do túmulo. A família recolhia o líquido que dizia armazenar em casa e acrescentava algumas gotas aos jarros, completando o restante com água comum.
O irmão também esclareceu a polêmica sobre a existência de encanamento próximo à sepultura. Segundo ele, a família chegou a instalar uma ligação de água autorizada pela Prefeitura e pela concessionária Águas Guariroba para facilitar a limpeza da capela e o abastecimento dos recipientes. A estrutura foi retirada por volta de 2016 ou 2017, a pedido da administração do cemitério, para liberar espaço para novas sepulturas.
Apesar das explicações da família, a origem da água supostamente encontrada na parte inferior do túmulo nunca foi esclarecida. Em 2022, a Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde informou ao Midiamax que não recomendava o consumo do líquido, justamente pela procedência incerta. Na ocasião, uma equipe chegou a visitar o cemitério, mas não encontrou água para realizar uma análise.
Há mais de quatro décadas, a tradição reúne pessoas no Cemitério Santo Amaro, especialmente no Dia de Finados, onde fiéis costumam levar garrafas e recipientes, beber a água, lavar partes do corpo e fazer orações diante da sepultura. Também deixam cartinhas com pedidos e agradecimentos, além de brinquedos, mas, desta vez, se depararam não apenas com os potes de água vazios: a janela de vidro da sepultura também estava trancada.
Agora, a dúvida dos devotos é se algo aconteceu com os familiares que, anualmente, iam até o cemitério fazer a manutenção do espaço de fé. A reportagem tenta localizá-los para entender o que aconteceu.
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