Inicialmente até confundidos com um protesto, alunos do curso de Teatro da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), com os olhos vendados, chamaram a atenção durante uma performance no Centro de Campo Grande. Trocando um brigadeiro por uma fofoca, a apresentação levantou reflexões sobre o tempo, o cansaço, o afeto e a conexão.
Matheus Fernandes, professor de Teatro e coordenador do curso, explica que a dinâmica busca estudar as relações da cidade. A intervenção surgiu a partir de discussões realizadas nas aulas sobre a aceleração do tempo e a forma como as pessoas ocupam e transitam pelos espaços urbanos.
Consequentemente, a proposta utiliza performance, intervenção urbana e outras linguagens artísticas para provocar reflexões sobre essa dinâmica na prática.
“A grande maioria aqui são alunos ou egressos que estão fazendo parte do processo, mas a ideia é que a gente não difunda que é teatro ou que é performance. A ideia é compor esse espaço e discutir o espaço urbano mesmo, as pessoas, essa questão de afeto no espaço de Campo Grande, que, às vezes, nos falta”, pontua.
Arte ocupando o Centro
“A gente vai partir por vários espaços aqui do Centro, pensando no fio norteador: ‘Quando eu estiver bem, o que eu faço da minha vida?’. Ninguém está bem hoje em dia, essa era a nossa discussão e, muitas vezes, não estar bem quer dizer que a gente não pertence ao espaço da cidade.”
Segundo o professor, os participantes foram divididos em grupos para desenvolver intervenções em diferentes pontos do Centro. Entre as ações, está a performance “Troco Fofoca”, realizada na Rua 14 de Julho, na qual os participantes recebem um brigadeiro em troca de uma história ou fofoca.

Portanto, a proposta busca estimular a interação com o público e provocar reflexões sobre pertencimento, ocupação dos espaços urbanos e a relação dos moradores com a cidade, muitas vezes vista apenas como um local de passagem.
“A gente está passando no Centro justamente para tentar entender a questão cronológica, discutir a questão do tempo, de por que a gente não tem tempo para nada, tempo para almoçar, para parar. A gente não presta atenção no Centro, no que está ao nosso redor. A ideia é que eles [público e aluno] parem um pouquinho para ter um espaço de reflexão e pensamento.”

Um brigadeiro por uma fofoca
Aline Araújo, arte-educadora e artista, estava no grupo com a dinâmica “Um brigadeiro por uma fofoca”. Para ela, em tempos de era digital, manter a conexão com pessoas aleatórias, nem que seja por um breve momento, amplia a reflexão sobre o tempo e o afeto.
“A ideia vem da construção do saber por meio do cotidiano, da conversa, da relação com as pessoas. Então, a gente vai ter um lugar em que vai inverter essa lógica mercantil de que você compra as coisas com dinheiro e, no lugar do dinheiro, a gente vai estar recebendo uma fofoca por um brigadeiro. As pessoas que estiverem passando pelo Centro vão poder interagir com a gente.”
“Às vezes, a gente está nesse mundo digital, nessa questão do celular, do computador, das coisas, e as pessoas se esquecem um pouco da dinâmica relacional de conversar. E aí entra na questão da produtividade, em que a classe trabalhadora está sempre embutida. A gente só trabalha, trabalha e, quando chega em casa, descansa, faz a marmita e faz a mesma coisa no outro dia”, conclui.

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(Revisão: Nichole Munaro)






