Uma denúncia de irregularidades, uma suposta tentativa de suborno e dois dias trancado dentro de um banheiro — sim, um banheiro de uma agência bancária. É parte da história que o escritor e defensor dos direitos humanos Brígido Ibanhes decidiu colocar no papel em “Os Três Poderes da Corrupção”, livro em que relembra episódios vividos durante os últimos anos da ditadura militar e o período de transição para a democracia.
Nascido no Paraguai, filho de brasileiros que estavam exilados no país, ele foi registrado em Bela Vista e passou os primeiros anos de vida na região de fronteira de Mato Grosso do Sul. O pai era comerciante, conhecido como “bolicheiro”, e Brígido cresceu entre o Brasil e o Paraguai até os 7 anos.
Já no Brasil, estudou, serviu ao Exército e iniciou a carreira no serviço público. Primeiro, passou em concurso para tesoureiro da Prefeitura de Bela Vista. Depois, conquistou uma vaga no Banco do Brasil, instituição onde permaneceu por 21 anos e que o levou a morar em Minas Gerais, Pernambuco e, posteriormente, Mato Grosso do Sul.
Em 1984, Brígido foi transferido para Sidrolândia para trabalhar como fiscal da área rural do Banco do Brasil. Ele conta que era um período em que a ditadura militar caminhava para o fim e o país começava a discutir a redemocratização.
O começo da saga
Contudo, foi durante o trabalho de fiscalização que, segundo Brígido, ele começou a perceber irregularidades relacionadas ao crédito rural. O escritor afirma que passou a prestar atenção à atuação de autoridades e pessoas ligadas ao setor e descobriu um esquema que envolvia interesses políticos e recursos destinados ao setor agrícola.
Segundo ele, entre os envolvidos, estavam o gerente da agência em Sidrolândia e autoridades políticas locais. “O gerente da agência era CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva), oficial do Exército, e já fora prefeito ‘biônico’ em Mundo Novo, e agora queria ser eleito prefeito de Sidrolândia”, relata.
Brígido afirma que levou o que havia descoberto à auditoria do Banco do Brasil. Foi quando começaram as pressões para que parasse de mexer nos documentos.
“O gerente me ofereceu uma promoção, o presidente da Câmara da cidade me perguntou o que eu queria para parar de mexer com os papéis — um suborno. Eu fiquei surpreso. Mas não ia voltar atrás, porque já tinha comunicado a falcatrua à auditoria do banco.”
A recusa teria desencadeado uma sequência de perseguições dentro da própria agência. “Eu cheguei no gerente e disse não [para a oferta de suborno]. Foi ali que, primeiro, me colocaram em uma sala para estagiário; depois, me aprisionaram no banheiro da gerência.”

Preso no banheiro
O espaço onde Brígido ficou isolado tinha apenas uma mesa. Segundo ele, foram colocadas sobre ela instruções e normas. Os colegas entravam no banheiro, mas não podiam conversar com ele. “No começo, eles [colegas] ficaram sem entender; depois, viram que estava sendo mantido ali por um exemplo de um castigo.”
O escritor afirma que permaneceu dois dias naquela situação. No segundo dia, a Polícia Federal teria ido até a agência para retirá-lo. Para Brígido, aquele episódio foi apenas uma das consequências de ter decidido denunciar o que havia encontrado. Ele afirma que perdeu o cargo, sofreu novas perseguições e, anos depois, acabou demitido.
As experiências são retomadas no livro “Os Três Poderes da Corrupção”, no qual o escritor reúne relatos sobre episódios que atravessaram sua trajetória.
A obra, com venda em livrarias de Dourados, também aborda outras denúncias feitas por Brígido, entre elas, acusações relacionadas ao Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária). O livro ainda aborda documentos e testemunhos sobre os casos e relata que Brígido chegou a ser convocado pelo SNI (Serviço Nacional de Informações) durante o período.
As consequências, segundo Brígido, não ficaram restritas à vida profissional. Ele relata ainda ter sido vítima de outras represálias ao longo dos anos, incluindo um atentado à bomba contra sua esposa. Atualmente, afirma ser assistido pela Defensoria Pública da União em razão das consequências desses episódios.
Negociação da democracia
Brígido também apresenta sua interpretação sobre a transição política brasileira. Para ele, a passagem da ditadura para a democracia foi marcada por negociações que deixaram estruturas daquele período preservadas.
“Durante 38 anos, lutei contra as injustiças que me atingiram por ter feito a minha obrigação de servidor público e de cidadão ao denunciar, como fiscal da rural, corrupção bilionária no Proagro do Banco do Brasil.”

“Perda do cargo, humilhações, demissão de uma carreira promissora, mesmo estando em período de estabilidade por representação sindical; censura a meus livros. Tudo isso faz parte do pacote de retaliação de que fui alvo, e que a sociedade sequer imagina existir.”
O escritor foi recentemente empossado como novo imortal da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Ele ocupa a cadeira de número 13, que anteriormente pertenceu ao Prof. J. Barbosa Rodrigues e a Antônio João Hugo Rodrigues.
Brígido abriu processos indenizatórios contra o Banco do Brasil. No entanto, o pedido foi julgado improcedente em primeira instância, em agosto de 2002. Na época, a Justiça acatou a alegação do banco, considerando que o escritor não havia apresentado elementos suficientes para corroborar a denúncia. Além disso, a instituição afirmou que tinha a prerrogativa de demitir qualquer funcionário.
Ele recorreu em agosto e setembro de 2006, mas os recursos também foram julgados improcedentes. Em 2019, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos aceitou a petição apresentada pelo escritor sobre o caso.
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(Revisão: Nichole Munaro)












