A maior tradição do Dia de Finados em Campo Grande pode ter chegado ao fim. Fidedignamente, há quase 50 anos, fiéis e devotos vão ao túmulo da menina Fatinha, no Cemitério Santo Amaro, para beber e pegar um pouco de uma água considerada milagrosa.
Há anos, a água teria jorrado inexplicavelmente da sepultura e, até 2025, o irmão da criança sepultada levava esse líquido guardado e aplicava em conta-gotas em potes de barro próximos à sepultura, todo dia 2 de novembro.
Este ano, pela primeira vez desde 1979, no entanto, não havia água nos recipientes no Dia de Finados, quebrando 47 anos de tradição. Fiéis que chegaram para beber, se lavar e levaram garrafas para poder pegar um pouco do líquido ficaram frustrados e lamentaram a situação.
E em meio a tantas dúvidas sobre o que teria ocorrido para que os potes não tivessem sido abastecidos em 2026, a reportagem do Jornal Midiamax conversou com Paulo Eduardo Vieira, irmão da menina Fatinha, para esclarecer o mistério.
Ele é o responsável por encher os recipientes e pingar gotas da água que um dia teria saído do túmulo da irmã, mas, este ano, conforme Paulo, isso não aconteceu porque o cemitério não permitiu.
Segundo o familiar, há cerca de 3 meses, uma moça que limpa e cuida de túmulos para algumas famílias teria sido informada pela administração: “Não é mais para colocar água aí”. O motivo? Preocupação com larvas de mosquito da dengue e o próprio risco sanitário da exposição dos jarros no local.
De acordo com o irmão de Fatinha, assim que soube da proibição, lamentou, mas decidiu respeitar. É por isso que este ano não houve água “milagrosa” no túmulo da menina. Debilitado após sofrer uma queda em casa, o homem de 63 anos também não conseguiu ir até o local para providenciar os reparos e a pintura anuais, o que explica as condições de aparente abandono observadas por fiéis no último Dia de Finados.
Quanto à ausência da água, apesar da explicação dada pelo familiar da menina com fama de milagreira, o cemitério negou que tenha proibido o abastecimento dos potes. Ao Jornal Midiamax, a administração afirmou que jamais vetou a tradição. “Só se alguém da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) abordou ele, mas daqui do escritório isso não partiu”, afirma o administrador.
Além disso, o cemitério destaca que, quando quiser, a família ou qualquer pessoa está autorizada a preencher os jarros de barro para manter viva a tradição de quase 50 anos.
Teria sido a interrupção de 2026, então, um grande mal-entendido?
Quem foi Fatinha, a menina que se tornou símbolo de fé em Campo Grande
Fátima Aparecida Vieira, carinhosamente chamada de Fatinha, nasceu em 8 de dezembro de 1971 e morreu em 22 de maio de 1979, aos 7 anos. Sua história é marcada por uma tragédia que aconteceu na casa onde a garota vivia com a família, em Campo Grande.
Conforme relato do irmão, em entrevista concedida ao Jornal Midiamax em 2022, certo dia, a menina chegou da escola e decidiu rezar para Nossa Senhora Aparecida, depois de receber uma orientação da professora para acender uma vela antes de uma prova.
Fatinha entrou em um pequeno cômodo da casa, pendurou-se na chave para trancar a porta e começou a rezar. Durante a oração, uma vela acesa caiu sobre seu vestido, provocando um incêndio. A menina não conseguiu abrir a porta, que estava emperrada, e pediu ajuda à família, passando a chave pelo vão inferior.
Após conseguir sair do quarto, ela se ajoelhou e pediu perdão a Deus e à mãe, segundo as lembranças dos familiares. Foi socorrida e levada à Santa Casa, onde permaneceu internada por três dias. Apesar de aparentar recuperação, morreu ainda criança, em circunstâncias que marcaram profundamente a família.
A morte precoce e a história de religiosidade da menina deram início a uma devoção que atravessa gerações. Poucos meses depois, seu túmulo passou a ser associado a uma suposta água milagrosa, e Fatinha ganhou fama de interceder por fiéis que recorrem a ela em busca de graças.
A mãe, Nair Maria de Jesus, e o irmão sempre mantiveram viva a memória da menina. Em entrevista ao Jornal Midiamax em 2022, a família contou que Fatinha era uma criança generosa, que gostava de dividir o próprio lanche com colegas que passavam necessidade e ajudava pessoas que encontrava pelo caminho.
A origem da água e a tradição mantida pela família
A história da chamada água milagrosa começou poucos meses depois da morte de Fatinha, em 1979. O irmão Paulo Eduardo Vieira contou que uma mulher conhecida da família se sentou ao lado da capela para rezar. Ao se levantar, percebeu que sua saia estava molhada.
A partir daquele episódio, surgiu a crença de que uma água brotava na parte inferior do túmulo. Fiéis começaram a recolher o líquido com seringas e agulhas, atribuindo a ele propriedades de cura. Com o aumento das visitas, a família passou a deixar potes e jarros abastecidos para atender aos devotos.
Paulo explicou ao Midiamax que a água colocada nos recipientes não era exclusivamente aquela que supostamente vertia do túmulo. A família recolhia o líquido que dizia armazenar em casa e acrescentava algumas gotas aos jarros, completando o restante com água comum.
O irmão também esclareceu a polêmica sobre a existência de encanamento próximo à sepultura. Segundo ele, a família chegou a instalar uma ligação de água autorizada pela Prefeitura e pela concessionária Águas Guariroba para facilitar a limpeza da capela e o abastecimento dos recipientes. A estrutura foi retirada por volta de 2016 ou 2017, a pedido da administração do cemitério, para liberar espaço para novas sepulturas.
Apesar das explicações da família, a origem da água supostamente encontrada na parte inferior do túmulo nunca foi esclarecida. Em 2022, a Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde informou ao Midiamax que não recomendava o consumo do líquido, justamente pela procedência incerta. Na ocasião, uma equipe chegou a visitar o cemitério, mas não encontrou água para realizar uma análise.
Há mais de quatro décadas, a tradição reúne pessoas no Cemitério Santo Amaro, especialmente no Dia de Finados, onde fiéis costumam levar garrafas e recipientes, beber a água, lavar partes do corpo e fazer orações diante da sepultura.
Agora, com a situação esclarecida sobre a interrupção do costume em 2026, resta saber se a tradição será retomada em 2027.
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(Revisão: Nichole Munaro)


















