É muita criatividade? Comida, peça íntima, alergia, nível de esperteza e até marca de inseticida: em Mato Grosso do Sul, tudo pode virar apelido de bandido.
Cada vez mais, as alcunhas de infratores têm ganhado destaque nas manchetes policiais para facilitar a identificação das ocorrências, gerando curiosidade não apenas em quem não faz parte do mundo do crime, mas até em outros delinquentes, pela variedade, imaginação e originalidade de cada cognome.
E é quando esses “vulgos” aparecem nas notícias que as perguntas surgem: afinal, o que define o “nome de guerra” de um criminoso? Como eles surgem? Quais as histórias por trás de cada apelido?
Geralmente, infratores usam a criatividade para impor medo, passar uma imagem de poder ou simplesmente como referência a piadas internas e características físicas. No universo do crime organizado, os apelidos costumam seguir algumas lógicas bem específicas, mas, para quem “trabalha” na biqueira ou em grupos criminosos menores, nunca há uma regra.
Os cognomes costumam surgir principalmente por detalhes no corpo, comportamento, local de origem, crimes cometidos ou referências à cultura pop. Funcionam como marcas registradas no crime e servem para dificultar a identificação pela polícia, protegendo a real identidade do delinquente.
Confira a seguir alguns apelidos desse tipo que chamaram atenção em Mato Grosso do Sul nos últimos anos:
Delação de ‘Lasanha’ teria motivado atentado
“Lasanha” era o apelido de Robert Ortiz do Prado, de 33 anos, que morreu após um confronto com a Polícia Militar em 8 de agosto de 2026, no bairro Jardim Noroeste, em Campo Grande. Ele é apontado como suspeito de roubo e ligado à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). A origem de seu “nome de guerra” é desconhecida.

‘Calcinha’ é suspeito de homicídio em Campo Grande
“Calcinha” é o apelido de um jovem que sofreu uma tentativa de assassinato no bairro Portal Caiobá, em Campo Grande. Nas investigações, ele é apontado como suspeito de envolvimento na execução de outro jovem em dezembro de 2021, na região do residencial Celina Jallad. A história por trás de seu cognome, “Calcinha”, não é de conhecimento público.

‘Zé Gotinha’ aproveitava plantões para vender cocaína em hospital
“Zé Gotinha” é o nome de guerra de um homem de 35 anos que trabalhava como segurança hospitalar e foi preso em flagrante por tráfico de drogas e ligação com o Comando Vermelho (CV). Ele atuava dentro da Santa Casa de Cassilândia, município localizado a cerca de 430 km de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul.
O rapaz aproveitava os seus plantões noturnos no hospital para vender pinos de cocaína e confessou ter realizado entregas da droga nas dependências da instituição pelo menos duas vezes.

‘Sagaz’ morreu enquanto planejava outro assassinato
“Sagaz” era o apelido de Guilherme de Souza Oliva, um jovem de 24 anos morto em confronto com o Batalhão de Choque da Polícia Militar em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 1º de setembro de 2026. Ele era suspeito de cometer o assassinato de Bruno Pereira Barbosa (conhecido como “Doze”) no bairro Aero Rancho, em uma disputa por pontos de tráfico de drogas.
‘Doze’ foi morto com arma calibre 12 e tinha apelido porque comeu doze ovos na biqueira
“Doze” foi o nome de guerra de Bruno Pereira Barbosa, traficante de drogas de Campo Grande envolvido em uma disputa violenta por pontos de venda de entorpecentes. O autor de seu homicídio era conhecido pelo apelido “Sagaz”. Investigações apontaram que os dois já haviam trabalhado juntos no crime antes de se tornarem rivais pelo controle da biqueira.
Curiosamente, “Doze” foi morto por tiros disparados de uma arma calibre 12, mas, segundo a polícia, o armamento escolhido por “Sagaz” para cometer o crime não tem relação com o apelido do inimigo.
Isso porque, conforme os policiais, Bruno ficou conhecido como “Doze” porque comeu 12 ovos em uma aposta com amigos da biqueira.
“Soa de forma meio irônica e um tanto quanto ridícula, mas ele passou a ser chamado de ‘Doze’ por causa disso. Então, não teve nenhuma conexão com o fato da arma ser de calibre 12, não teve nenhuma. Acredito que era a arma mais potente que tinha disponível naquele momento do cometimento do delito”, declarou um policial sobre a coincidência.

‘Baygon’ era ‘nome de guerra’ de homem com sobrenome de doença
Criminoso conhecido pelo apelido de “Baygon”, Anderson Vicente Chagas foi um homem de 45 anos com um extenso histórico criminal em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Ele foi executado com pelo menos 12 tiros em março de 2024.
“Baygon” foi réu e denunciado pelo Ministério Público pelo assassinato de um homem em 2017. De acordo com relatos de testemunhas, ele ainda atuava ativamente no comércio de entorpecentes no bairro onde morava, na Capital.
Anderson teria sido batizado com essa alcunha em referência ao famoso inseticida usado para matar e controlar pragas em casa. O termo escolhido seria uma ironia ao sobrenome Chagas, que também é o nome de uma doença causada por um parasita.

‘Pesadelo’ foi baleado na perna enquanto se preparava para confronto
Mais comum no mundo do crime, “Pesadelo” é um apelido usado por diversos infratores. O caso mais recente que virou notícia em MS refere-se a um integrante da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) envolvido em confrontos em Campo Grande.
Identificado apenas pelo vulgo “Pesadelo”, ele foi baleado na perna por policiais militares no bairro Jardim Noroeste, no dia 15 de agosto. Ele estava em fuga em um veículo, reagiu à abordagem e tentou tomar a arma de um policial dentro de um carro de aplicativo. Investigação aponta que o rapaz estava se preparando para um confronto armado contra uma facção rival na região.
‘Cicatriz’
“Cicatriz” também já é outro nome mais conhecido e frequentemente usado por criminosos. No caso mais recente registrado em MS, em meados de agosto de 2026, um homem conhecido como “Cicatriz” morreu em um confronto armado com a Polícia Militar no município de Paranaíba.
Ele era integrante da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). A ação policial ocorreu após a descoberta de que o grupo estava torturando um desafeto em um suposto “tribunal do crime”. Ao ser localizado em um imóvel, “Cicatriz” apontou uma pistola calibre .9mm contra os policiais, que reagiram.
Tudo vira nome de guerra
Local de origem, bairro ou cidade onde a pessoa cresceu, um traço marcante do corpo ou do rosto, histórico ou mania, hábito antigo ou algo que marcou a entrada no mundo do crime… tudo vira nome de guerra.
Apelidos baseados em peso, altura, cor da pele ou cicatrizes (Gordinho, Alemão, Cicatriz), nomes inspirados em filmes, desenhos ou heróis (Batman, Coringa, Scarface) ou que refletem o temperamento ou o modo de agir (Psicopata, Manso, Marrento) — o que não faltam são motivos.
Há ainda os baseados no tipo de delito cometido (Piloto, Carioca das Joias, Playboy dos iPhones), herança ou hierarquia. No fim, se a polícia pega, os apelidos ganham destaque nas notícias. Mas, quando a origem não é clara, eles viram alvo de especulação.
Em relação aos criminosos de Mato Grosso do Sul citados neste texto, você sabe a história de alguns desses “nomes de guerra”? Lasanha… calcinha? Caso saiba, entre em contato com a reportagem através do WhatsApp abaixo e compartilhe o relato:
*Colaboraram com esta reportagem os repórteres Rodrigo Santos e Keyla Santos
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(Revisão: Nichole Munaro)









