Memórias da infância, imagens do cotidiano e cenas construídas a partir da imaginação ganham novas formas na exposição “O que permanece em nós?”, do artista visual Wendel Fontes. A mostra reúne 21 pinturas e uma instalação Sonora na Galeria Wega Nery, do Centro Cultural José Octávio Guizzo, em Campo Grande, a partir de 2 de outubro.
As obras foram produzidas nos últimos três anos, período em que Wendel investigou as relações entre infância, memória, imaginação e os desafios da vida adulta. Em suas pinturas, crianças aparecem em momentos de introspecção, brincadeira e descoberta, mas as cenas se afastam de uma representação nostálgica da infância.
Objetos deslocados de seu lugar habitual, perspectivas distorcidas, cores vibrantes e situações que transitam entre o real e o imaginado criam um universo em que memória e ficção se misturam.
Para Wendel, esse processo está diretamente relacionado à maneira como desenvolveu sua própria pintura ao longo da trajetória. Antes de se dedicar à construção de imagens mais abertas à interpretação, o artista trabalhava com desenhos de retratos feitos a partir de modelos e fotografias. Com o tempo, passou a compreender as imagens de referência como pontos de partida, e não como modelos a serem reproduzidos fielmente.
“Eu costumo dizer que trabalho com a lentidão. Eu venho aprendendo cada vez mais a respeitar o tempo de cada trabalho. Eu inicio um trabalho com uma ideia, uma direção geral, mas o caminho percorrido é definido ao longo do processo”, explica Wendel.
Idealização da infância
Para ele, a pintura exige tempo para que a imagem se transforme durante sua realização. “A pintura é uma imagem que começa com as mãos antes de chegar aos olhos, então é preciso respeitar esse tempo.”
Essa ideia de desaceleração também atravessa a experiência proposta pela exposição. Em vez de apresentar a infância apenas como lembrança de um período idealizado, Wendel a utiliza como uma alegoria para pensar a formação dos desejos, das angústias e da maneira como cada pessoa se relaciona com o mundo.
Os títulos das obras também participam desse processo. Em trabalhos como “Pensamentos náuticos num corpo náufrago”, “Fazer do ócio ofício”, “Cultivar a densidade dos sonhos” e “Calcule: quanto peso tem num desejo?”, as palavras não funcionam apenas como identificação, mas também como parte da construção de sentido das imagens.
Segundo o artista, os títulos são pensados como uma espécie de chave para ampliar as possibilidades de leitura de cada pintura.
Vozes que atravessam o tempo
Outro elemento central da exposição é a instalação sonora, construída a partir da imagem de uma árvore de aproximadamente 2,5 metros, com latinhas de alumínio penduradas nos galhos, em uma referência à tradicional brincadeira do telefone sem fio.
Por meio das latas, o público poderá ouvir áudios de pessoas idosas contando memórias da infância, a partir de um projeto desenvolvido com idosos da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). A escolha da brincadeira não é casual. Para Wendel, o telefone sem fio depende justamente de uma atitude cada vez mais rara no cotidiano: parar e escutar.
“Para ouvir bem a voz da outra pessoa era necessário fazer silêncio e prestar atenção. A voz chegava bem fraquinha, mas era possível ouvir muito bem a mensagem que vinha do outro lado, pela vibração da linha”, conta.
As vozes de pessoas idosas introduzem, assim, uma segunda temporalidade na exposição. Ao lado das imagens de crianças, as memórias narradas por quem já percorreu diferentes fases da vida criam uma relação entre infância, velhice e passagem do tempo.
“Achei que seria interessante pôr vozes de pessoas idosas contando suas memórias da infância, pois isso estabelece de início uma ideia de oposição. Mas, ao mesmo tempo, traz uma relação com o tempo, como as lembranças são temperadas à medida que vamos amadurecendo na vida”, afirma.
A própria árvore carrega uma história. Para compor a instalação, o artista buscou uma árvore seca que havia sido derrubada pelo vento durante uma das tempestades que atingiram Campo Grande. Depois de procurar pelo material que considerava adequado, encontrou uma árvore que passou a integrar a obra e ganhou uma nova função dentro da exposição.
“É uma árvore que guarda uma memória, mas que ganhou um novo significado ao ser transformada numa obra.”
Serviço
- Exposição: “O que permanece em nós?” – Wendel Fontes
- Abertura: 2 de outubro, com show do duo Vozmecê
- Período: 2 a 30 de outubro de 2026
- Horários: terça a sexta-feira, das 8h às 20h; sábado, das 8h às 22h; domingo, conforme o funcionamento do Teatro Aracy Balabanian
- Local: Galeria Wega Nery – Centro Cultural José Octávio Guizzo, Rua 26 de Agosto, 453, Centro, Campo Grande
- Entrada: gratuita
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