Antes da doença dificultar a sua voz, Roberto Higa passou uma vida inteira contando a história de Mato Grosso do Sul por meio das fotografias. Agora, aos 74 anos, um dos maiores nomes da fotografia brasileira enfrenta um câncer de garganta, sem chances de cura.
Afirmando com força sobre encarar a morte como a aceitação da finitude após uma vida intensa, Higa diz que prefere passar os últimos dias em casa, com a família, e que quer morrer de uma forma digna, sem dor ou em uma cama de hospital.
O Jornal Midiamax visitou a casa do profissional referência no fotojornalismo. Espalhadas pelas paredes desde a garagem, as fotografias dividem espaço com quadros, presentes de amigos, artesanato e lembranças.
Museu Higa
É impossível caminhar entre aquelas lembranças sem perceber que, ali, cada objeto carrega um pedaço da história de Campo Grande. A casa onde vive é praticamente um retrato da própria existência. Fotografias, quadros, presentes de amigos, peças de artesanato e imagens icônicas transformam cada ambiente em um abraço de museu.
Em dois cômodos, mais de cem câmeras, negativos guardados desde a década de 1970 e livros acumulados ao longo de décadas transformam a casa em memória paupável. Higa aponta cada foto e descreve o momento, como quando ele e a esposa, Sandra Higa, foram enredo da escola de samba Deixa Falar.
Higa caminha com auxílio de um andador, fala com esforço e precisa interromper frases para hidratar a boca, consequência da quimioterapia e da radioterapia. Ainda assim, conserva intacto o olhar de quem aprendeu a encontrar beleza, memória e humanidade em cada cena cotidiana.

“Eu estou com 74 anos, está tudo encaminhado. Por isso, optei pelo tratamento paliativo, porque eu já fiz tudo o que tinha para fazer. Não tenho ambições na vida, pois tudo o que quis fazer, fiz”, resume ele.
O câncer foi especialmente cruel com alguém apaixonado pela conversa. Higa sempre gostou de contar causos, explicar fotografias, lembrar personagens. Hoje, falar é doloroso fisicamente.
“O problema do câncer é que ele te tira praticamente tudo. Eu não produzo mais saliva, preciso de hidratação para continuar falando. Vocês que são jovens, aproveitem, pois a velhice é cruel e vem. Não adianta serem belos e formosos, pois depois a velhice vem.”


Apaixonado pela fotografia
A paixão pela fotografia nasceu cedo, quase por acaso. Na juventude, enquanto trabalhava no antigo Diário da Serra, foi um colega quem enxergou o talento que Higa ainda desconhecia.
“Eu me emociono até hoje com os retratos que eu faço, até mesmo pelas dificuldades. Isso aqui é LER (Lesões por Esforço Repetitivo) de tanto fotografar, meus dedos ficaram tortos. Hoje em dia, não consigo segurar direito uma câmera pesada, então tenho usado o celular.”
“Quem notou meu dom para a foto não fui eu. Foi Danton. Ele me disse: ‘Japonês, você leva jeito para a coisa. Vou te dar um conselho. Vai embora daqui, vai para São Paulo, vai estudar, senão vai virar mais um fotógrafo que tira foto 3×4 ou de evento privado’. Sempre odiei fazer evento privado. Eu gostava de fazer fotojornalismo.”
O conselho mudou sua vida. Em São Paulo, aprendeu uma lição que carregaria para sempre. “Me falavam: você não pode tirar foto para o papai e a mamãe acharem Bonito. Para saber o que é bom mesmo, tem que botar para julgamento público”, afirma.
“Lá me chamavam de Mato Grosso e diziam para fotografar tudo de bonito e feio, porque, no interior, qualquer coisa poderia ser manchete… Foi o que comecei a fazer, assim fiz a primeira exposição fotográfica, com meu amigo Almir, em 1971.”

Escada rolante é memória fresca
Esse olhar visionário fez Higa registrar cenas que, na época, pareciam apenas acontecimentos cotidianos, mas que se tornaram documentos históricos. Entre elas, a inauguração da primeira escada rolante de Campo Grande, nas Lojas Pernambucanas da Rua 14 de Julho.
“Até hoje fotografo e faço sucesso, mas é aquela coisa de que você precisa colocar seu trabalho para julgamento público… Você não pode se achar o máximo e só aceitar elogio.”
“Eu sabia o que iria virar histórico. Quando inaugurou a escada rolante, era um acontecimento na cidade. Tinha criança que pedia de presente para os pais levarem para andar de escada rolante.”

‘Vivi uma vida perfeita’
Talvez por isso suas palavras mais marcantes não falem sobre fama, prêmios ou reconhecimento. Elas falam sobre plenitude.
“Constituí família, vi meus filhos e netos crescerem. Não tive inveja ou ciúme. Minha vida foi perfeita em termos de tudo. Vivi uma vida perfeita.”
Ao lado dele há mais de cinco décadas, Sandra Higa acompanha cada etapa desse processo. “Foram 50 anos bem vividos. Tivemos altos e baixos, mas um casamento bom… Se tivesse que fazer, faria tudo de novo. Gostaria de conhecer o mesmo Roberto Higa e ter a mesma trajetória de vida com ele.”
“Ele me disse: não quero mais me internar. Se precisar, não me leve. Quero ficar em casa com você, com meus filhos, com as minhas coisas. Não quero partir em um ambiente que não é meu.”
A vida também tratou a situação como lição para Sandra, que é enfermeira. “A médica perguntou o que eu achava [sobre os cuidados paliativos] e eu disse que sempre trabalhei na área da saúde, sempre cuidei das pessoas. Eu não vou cuidar do meu marido?’ Quando a médica disse: ‘Mas ele não é seu paciente, é seu marido’. Isso é muito doloroso”.
Hoje, a rotina é marcada por cuidados, medicamentos e pequenos gestos de amor. Roberto já não se alimenta pela boca, mas Sandra continua preparando os pratos favoritos dele.
“Ele pede e eu faço sempre, como costela ou pudim, pelo cheiro. Deus me dá muita força. Eu perco o sono, acordo e rezo por ele. Ele sempre está nas minhas orações.”

Velório com festa
Em casa, apesar de ser um tema doloroso, a morte deixou de ser um tabu e passou a ser uma conversa feita com serenidade, humor e afeto.
“Quando você entra no paliativo como entrei, você não tem o que fazer. [A morte] é prevista. Falando sobre o velório, ela [Sandra] me perguntava: Quer padre? Quero. Quer umbanda? Quero. Quer candomblé? Quero. Está todo mundo convidado”, ri Higa.
“Ele chegou na médica e disse: não quero mais que me fure. Não quero mais. Não quero sentir dor, quero dignidade para morrer, pois isso eu mereço. A médica ficou de boca aberta dizendo que estava se preparando para falar sobre o paliativo. Ela disse: ‘Eu ia te falar isso, mas você está a anos-luz à minha frente’. Porque é isso que prevíamos”, completa Sandra.
“Eu vou morrer satisfeito com o que a vida me deu, com o prestígio de tudo de bom que guardo. Minha profissão me deu muito isso. Eu já fiz tudo… Conheci até o Santo [Papa João Paulo II], em Campo Grande. Até hoje me arrepio.”
A verdade é que a imprensa se despede, aos poucos e de forma dolorosa, do mestre da fotografia. Talvez esse seja o maior privilégio de todos: ter conhecido Roberto Higa em vida e compreender que, embora um dia sua câmera descanse, seu olhar permanecerá eterno nas imagens que deixou para tantas gerações.
“Eu quero agradecer todas as orações que fazem, inclusive de vários amigos pelo mundo. Desde o começo, me colocam nas orações. Sou muito grato”, conclui.














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(Revisão: Nichole Munaro)






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