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Como promessa, estagiária deu metade de seu 1º salário à ONG que gastava doações em iFood

Suado dinheirinho de doadores seria gasto por ONG de animais em bares e até cinemas: 'Eu sempre fazia um Pix'
João Ramos -
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Abrigo acolhe cães e gatos em Campo Grande. (Fotos: Instituto Guarda Animal)

Acreditando estar fazendo o bem, uma jovem estagiária doou metade de seu primeiro salário para a ONG IGA (Instituto de Guarda Animal), denunciada pelo Ministério Público por gastar o dinheiro das doações em cinemas, bares, salões de beleza, restaurantes, supermercados, lojas de roupas e até cafeterias em (MS).

A notícia de que a organização não governamental desviava a verba beneficente destinada aos cuidados com os cães e gatos abrigados foi um choque e abalou todos os que um dia fizeram transferências bancárias, crentes de que estavam ajudando os bichinhos desamparados.

Logo que ficaram sabendo da ação do Ministério Público contra o Instituto, campo-grandenses que já doaram dinheiro ao local se manifestaram lamentando a situação.

Animais no Instituto Guarda Animal. (Imagens: Reprodução das Redes Sociais)

‘Fiquei bem chocada’, diz jovem que doou parte de seu salário

Abalada, a estagiária citada no início deste texto desabafa sobre a frustração que sentiu ao descobrir o esquema. “Sempre fui muito religiosa e fiz uma promessa para cumprir quando conseguisse um estágio: metade do meu primeiro salário seria doada para uma ONG”, recorda.

“Em 2023, consegui um estágio e, na época, o salário era de cerca de R$ 900. Fiz a doação porque a causa animal sempre mexeu muito comigo. Meu cachorro, por exemplo, foi resgatado da rua e precisou de uma transfusão de sangue. Como o custo desse procedimento é alto, imaginei que o valor doado seria muito útil para a ONG”, relata.

Segundo a jovem, que hoje tem 24 anos e já é formada, esta foi a única vez que doou dinheiro para o IGA. “Fiquei bem chocada ao descobrir, porque é um valor muito alto gasto com pedidos de iFood. Entendo que a vida delas seja dedicada aos cuidados com os animais, mas a forma como organizaram as finanças, conforme foi divulgado, ficou muito mal explicada”, lamenta.

“Fiz a doação de bom grado, sempre acreditando que esse recurso seria utilizado em benfeitorias e no cuidado dos cães e gatos, mas isso acabou gerando dúvidas sobre se as doações realmente eram destinadas à ONG e aos animais ou se estavam sendo usadas em benefício delas mesmas”, reflete a jovem.

Comprovante da doação ao Instituto. (Foto: Arquivo Pessoal)

Decepção de quem sempre doava foi enorme: ‘Acreditei neles’

Outra moradora de Campo Grande, de 30 anos de idade, também ficou estarrecida com a notícia. “Faz cerca de um ano e meio, se não me engano, que comecei a ajudar essa ONG. Na época, havia muitos compartilhamentos dizendo que eles estavam passando dificuldades e que faltava até ração para os animais”, reforça.

Preocupada com a situação dos bichinhos abrigados no IGA, ela não mediu esforços e encaminhou doações constantemente. “Na primeira vez, doei R$ 15. Sei que não é um valor alto, mas era o que eu podia naquele momento. Afinal, eu também já tenho meu próprio ‘canil’, com sete pets, e sei o quanto os custos são altos. Mesmo assim, sempre que via um novo apelo nas redes sociais, ajudava novamente dentro das minhas possibilidades”, afirma.

“Por isso, minha decepção foi enorme quando as prestações de contas vieram a público. Quem doa acredita que cada centavo está sendo usado para cuidar dos animais, especialmente quando a campanha transmite uma situação de extrema necessidade. Ver gastos que não condizem com essa expectativa faz a confiança ser abalada”, desabafa.

Apesar do sentimento de traição, ela diz que jamais vai desacreditar da causa. “Obviamente, nunca vi um protetor de animal enriquecer, mas transparência é o mínimo que quem doa merece. Mesmo assim, continuo acreditando no trabalho sério de muitas ONGs e vou seguir ajudando causas animais. No fim, eu só espero que cada animalzinho dali ganhe um lar de amor”, afirma a moradora.

‘Sempre que podia, eu fazia um Pix’, revela ativista da causa animal

Desde que teve sua carteira assinada pela primeira vez, uma outra voluntária de Campo Grande faz pequenas doações para campanhas que vê pela internet. Em relação ao IGA, diz ter sido “fisgada” por apelos deles em momentos diferentes. Então, sempre que podia, fazia um Pix.

Disposta a dar tudo de si para ajudar os bichanos, a moça de 28 anos teve o coração partido ao descobrir que seu suado dinheirinho, talvez, fosse usado para as protetoras irem ao salão de beleza tratar seus cabelos.

“Fiquei decepcionada quando vi esses gastos e especialmente por como o Instituto lidou com a repercussão. Além disso, me pareceu que só pararam na época quando foi revelado no relatório. A gente se apega tanto à credibilidade transmitida/construída no Instagram, mas tudo isso mostra que não conhecemos ninguém de fato”, dispara.

Para a ex-doadora, essa situação destaca que ONGs precisam trabalhar com organização e que até mesmo a boa vontade precisa ser acompanhada de transparência, especialmente quando envolve altos volumes de dinheiro.

“Ainda assim, penso que não devemos deixar de doar para projetos que acreditamos que realizam bons trabalhos na sociedade civil, especialmente onde o Estado deveria ser o responsável”, finaliza.

ONG para animais de Campo Grande gastava dinheiro de doações em bares e iFood

Relatório elaborado pelo Daex (Departamento Especial de Apoio às Atividades de Execução), do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), revelou que a ONG IGA (Instituto Guarda Animal) usou cerca de R$ 36,8 mil em compras para fins pessoais, totalmente incompatíveis com a finalidade da instituição.

Em um período de 120 dias, foram gastos pouco mais de R$ 15 mil somente em pedidos do iFood. As despesas teriam sido pagas com recursos das doações feitas por apoiadores do instituto. 

Audiência de conciliação envolvendo a instituição, na tarde desta quarta-feira (15), resultou em um acordo que prevê a realização de duas feiras de adoção por mês. Leia mais detalhes sobre o caso e a decisão clicando na reportagem abaixo:

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(Revisão: Nichole Munaro)

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