Um policial civil investigado na Operação Infiltrados teria investido dinheiro para viabilizar uma operação de transporte e desvio de drogas, além de participar da negociação de cocaína apreendida pela própria polícia.
As suspeitas contra Neverson Vieira de Araújo — afastado do cargo após a prisão — estão descritas na denúncia do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) apresentada no dia 9 de outubro à Justiça.
O documento pede a condenação de 23 pessoas envolvidas em esquema que desviava drogas apreendidas pela Denar e seria liderado pelo delegado — atualmente afastado — Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa. Também requer a perda dos cargos públicos do delegado e dos policiais envolvidos, além do pagamento de R$ 10 milhões.
Na denúncia, o Gaeco transcreve um áudio atribuído ao suspeito de tráfico de drogas Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, no qual ele cita Neverson e um terceiro homem, identificado pelo apelido “Terror”, como participantes de um investimento para viabilizar uma operação envolvendo uma carreta e um motorista que desviaria a carga para o grupo.
“Eu, o Terror e o Neverson investiu, eu tinha que dar 25 mil, nós dividimos em três pra pegar esse trampo”, afirma Lucas no áudio reproduzido no documento.
Na sequência, ele explica que o plano consistiria em alugar uma carreta e contar com um motorista que levaria o material diretamente aos envolvidos. “Tipo, que vai passar a perna no cara lá e vai trazer o material, aí vai ficar fofolândia, aí o que faltava era, era só investir, aí nós investimos, vai dar certo, certeza esse trampo, se Deus quiser”, diz.
Segundo a interpretação do Gaeco, a conversa indica que Neverson teria participado do financiamento de uma operação criminosa para obter uma carga de entorpecentes. A denúncia aponta que, à época dos diálogos, o policial já havia deixado a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico).
Então, o Gaeco conclui: “Observa-se que o policial civil NEVERSON VIEIRA DE ARAÚJO participava diretamente da própria traficância, inclusive mediante aporte financeiro para viabilizar operação de transporte de drogas, em comunhão de esforços com LUCAS DA SILVA DOS SANTOS (‘LK’) e outros integrantes da organização criminosa“.
Acusação aponta atuação mesmo após saída da Denar
O documento sustenta que Neverson teria continuado envolvido no esquema mesmo após deixar a unidade especializada no combate ao tráfico de drogas. A denúncia relaciona o policial a conversas com Lucas e com outros integrantes do grupo investigado.
Em outro trecho, referente a maio de 2025, o Gaeco cita uma conversa entre Neverson e o policial Nilton César Sales dos Santos — também preso e acusado de integrar o esquema. Na ocasião, Nilton pergunta se o colega havia falado com “nosso jogador”, expressão que os investigadores associam a Lucas.
O diálogo ocorreu dois dias antes da instalação de um dispositivo de rastreamento, chamado de “carrapato”, em um caminhão cuja carga, segundo a investigação, seria monitorada para posterior desvio. Para o Ministério Público, as conversas indicam que os policiais continuavam articulados com Lucas para acompanhar o transporte de drogas.
Desvio de cocaína apreendida
A denúncia atribui a Neverson participação em outro episódio, ocorrido em novembro de 2022, quando ele e Nilton participaram da apreensão de 30 quilos de pasta base de cocaína pela Denar.
Segundo o Gaeco, a droga apreendida teria sido posteriormente desviada, ao menos em parte, e negociada com uma organização criminosa por meio de Lucas.
O Ministério Público também descreve suspeitas relacionadas a uma apreensão de 326 quilos de cocaína realizada em dezembro de 2022 pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) e pelo Dracco (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado), em Campo Grande.
Na ocasião, a droga foi encontrada em compartimento oculto de um veículo que transportava uma placa solar. Parte dos invólucros tinha a inscrição “BUGATTI”. Conforme a denúncia, essa cocaína teria sido oferecida por policiais civis, entre eles Neverson, a integrantes da organização criminosa, com Lucas como intermediário.
O Gaeco cita registros de chamadas entre Neverson e Lucas em 16 de dezembro daquele ano e mensagens relacionadas à negociação da droga e à cobrança de valores. Também menciona imagens dos invólucros e fotografias de dinheiro encontradas nos dados telemáticos analisados durante a investigação.
Transferências bancárias e relação com Lucas
A denúncia ainda registra três transferências de Lucas para Neverson: R$ 100 em outubro de 2021, R$ 800 em novembro do mesmo ano e R$ 600 em março de 2022, totalizando R$ 1,5 mil.
Para o Ministério Público, os pagamentos fazem parte dos elementos que apontam a relação entre o policial e Lucas desde 2021. A acusação afirma que Neverson teria recrutado Lucas para o esquema naquele ano.
O documento reúne esses registros financeiros com conversas telefônicas, áudios e outros dados extraídos de celulares apreendidos durante a Operação Infiltrados. A interpretação de que os pagamentos e os contatos estavam ligados a atividades criminosas é apresentada pelo Gaeco na denúncia.
A denúncia representa a acusação formal do Ministério Público e será analisada pelo juízo quanto ao possível recebimento das acusações. Caso seja aceita, a ação terá continuidade, com abertura de prazos para as defesas.
A defesa do delegado Hoffman, feita pelo advogado José Roberto Rosa, afirma que as provas apresentadas serão questionadas durante a instrução processual. Segundo o advogado, a análise dos elementos em seu contexto integral deve demonstrar que o delegado não participou dos ilícitos investigados.
“Infelizmente, há indicações de que pessoas que agiam sob o comando do delegado teriam, de alguma forma, agido contra a lei, mas não há indicação direta de participação dele [Hoffman], a não ser recortes com indicações e suposições de que ele teria aderido a essa conduta”, afirmou Rosa.
O advogado também destacou que as provas serão contestadas durante o processo judicial e demonstrou confiança no resultado. “Temos certeza de que, ao final, a verdade vai prevalecer e vai ficar demonstrado que o delegado não teve qualquer participação nesses eventos”, declarou.
As acusações ainda devem ser examinadas pela Justiça, e a responsabilização criminal depende do devido processo legal.
A reportagem não conseguiu contato com as defesas dos investigados. O espaço segue aberto para posicionamento.
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(Revisão: Nichole Munaro)







