O servidor da Prefeitura de Tacuru que teria afirmado, em áudio, que era preciso colocar veneno na água da cidade foi afastado e será alvo de um PAD (Processo Administrativo Disciplinar). A informação foi divulgada pelo prefeito Rogério Torquetti (PSDB), em vídeo publicado nas redes sociais na terça-feira (27).
Segundo o prefeito, a administração municipal tomou conhecimento do caso após a repercussão das gravações nas redes sociais e o contato de veículos de comunicação. O servidor trabalha no setor de infraestrutura, na condução de caminhão-caçamba.
“Começou a circular um áudio onde um servidor dizia que teria que colocar veneno na água e matar todo mundo, sem citar nenhum tipo de gente. Hoje, vários veículos de comunicação estão entrando em contato. Ele é um excelente servidor, trabalha na infraestrutura, com caminhão-caçamba. Ainda não fomos informados, mas o nosso jurídico entendeu que um Processo Administrativo será aberto e o servidor será afastado”, declarou.
Em outra publicação, Torquetti reconheceu que as declarações causaram repercussão. O prefeito atribuiu as falas a um contexto de divergência política após as eleições, mencionando possível consumo de álcool e dificuldade em lidar com a derrota.
“Eles se expressaram mal ontem, no momento de euforia, talvez um pouco de álcool por conta de não saber perder, e quero dizer que nos perdoem e perdoem quem gravou o áudio, se, de certa forma, ofendeu vocês”, afirmou.
Áudios mencionam envenenamento da água
As gravações que circulam nas redes sociais contêm declarações ofensivas contra os povos indígenas e menções à possibilidade de envenenar a água. O caso foi denunciado pelo vereador e cacique Ivan Montiel (PSDB), que afirma ter identificado os envolvidos e pretende adotar medidas nas esferas criminal e cível.
Em um dos áudios, um homem reclama da comunidade indígena e utiliza expressões pejorativas para se referir aos moradores.
“Você vê como é esse nosso Tacuru velho. Pode morrer de ajudar esses capetas aí dentro do que tiver. O homem se mata de ajudar um, ajudar outro, e esses cãos fazem isso aí. A própria população, o próprio município, é um demônio”, diz um trecho da gravação.
Em outro momento, um dos homens utiliza um xingamento contra os indígenas e declara: “Já falei que tem que colocar veneno na água”.
Segundo Montiel, os áudios foram recebidos de terceiros e os envolvidos seriam servidores municipais. A autenticidade das gravações, as circunstâncias em que foram feitas e as possíveis responsabilidades dos envolvidos deverão ser apuradas pelas autoridades competentes.
Apuração eleitoral e possível motivação
As denúncias vieram a público após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25). Tacuru foi o primeiro município de Mato Grosso do Sul a concluir a apuração, com 100% das 22 seções totalizadas às 18h40.
Dos 7.003 eleitores aptos a votar, 5.234 compareceram às urnas, o equivalente a 74,74% do eleitorado. Na disputa presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu 3.189 votos, correspondentes a 62,19% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro (PL) obteve 1.939 votos, ou 37,81%.
Apesar da proximidade entre as denúncias e a votação, não há, até o momento, comprovação de que as declarações tenham sido motivadas diretamente pelo resultado eleitoral ou pela escolha política dos indígenas.
Apib aciona órgãos federais
A Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) informou que acionou órgãos federais por meio de sua assessoria jurídica, diante de denúncias de violência contra povos indígenas após o segundo turno das Eleições de 2026.
Além dos relatos de ameaças de morte, manifestações racistas e possíveis ameaças de envenenamento da água em Tacuru e Nioaque, a entidade citou assassinatos em Naviraí e atropelamentos em Coronel Sapucaia.
A Apib encaminhou ofício e representação criminal ao MPF (Ministério Público Federal), à PF (Polícia Federal) e a órgãos do Governo Federal, incluindo os ministérios da Justiça e Segurança Pública, dos Povos Indígenas e dos Direitos Humanos e da Cidadania.
O objetivo é mobilizar as autoridades para investigar as denúncias e adotar as providências cabíveis.
O Ministério dos Povos Indígenas informou que tomou conhecimento das denúncias envolvendo indígenas Guarani e Kaiowá em Mato Grosso do Sul e acionou a Polícia Federal para que os fatos sejam investigados. A pasta também afirmou manter diálogo com as comunidades por meio do Demed (Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Fundiários Indígenas).
O Cimi (Conselho Indigenista Missionário) informou que está verificando as informações para avaliar as medidas cabíveis.
Prefeitura afirma que soube do caso pela imprensa
A Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Tacuru informou anteriormente à reportagem que tomou conhecimento das denúncias por meio da imprensa e das redes sociais. A pasta ressaltou que, no áudio, não haveria menção explícita aos indígenas como destinatários das ameaças e afirmou que a administração municipal aguardava o andamento das investigações.
O Jornal Midiamax tentou contato com o prefeito para esclarecer os fatos, mas não obteve retorno às ligações. O espaço permanece aberto para manifestação dos envolvidos.
Ouça o áudio:
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(Revisão: Nichole Munaro)




