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Diretoria da Fiems é suspeita de usar empresa laranja para manter contrato com Sistema S

CNPJ no nome de empregados da empresa do vice-presidente da Fiems teria 'herdado' contrato de software com Federação das Indústrias de MS
Gabriel Maymone -
O presidente da Fiems, Sérgio Longen, e o vice, Luiz Gonzaga Crosara, atrás. (Divulgação, Fiems)

A diretoria da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul) é suspeita de usar um emaranhado de CNPJs para manter contratos milionários com instituições do Sistema S. Ex-funcionários da Federação denunciaram com exclusividade ao Jornal Midiamax detalhes do suposto esquema.

A Blackbird Soluções em Tecnologia Ltda. (CNPJ 52.964.854/0001-91) foi criada com capital social de R$ 5 mil, em novembro de 2023, e meses depois ganhou um contrato vultoso com o Sesi (Serviço Social da Indústria). O CNPJ foi criado apontando como endereço uma vila de casas em um bairro de .

No local, vizinhos nunca ouviram falar da tal empresa.

Além disso, os ‘sócios’ da Blackbird são dois empregados da Acto Soluções em Tecnologia Ltda. (31.356.145/0001-53). A Acto manteve contratos no mesmo setor de tecnologia com o Sistema Fiems até 2023, quando o então dono, Luiz Gonzaga Crosara Júnior, tornou-se vice-presidente de Sérgio Longen na Federação.

Com Crosara na diretoria, a suspeita de funcionários da Fiems que têm acesso aos trâmites de pagamentos da Federação é de que os sócios da Blackbird seriam ‘laranjas’ do vice-presidente da Fiems, numa suposta manobra para manter os contratos milionários da Acto ocultando o vínculo da diretoria com o esquema.

Crosara nega qualquer irregularidade. Diz que deixou o quadro societário da Acto em novembro de 2025 e que se tornou uma espécie de ‘diretor administrativo com papel consultivo’. No entanto, no papel, ainda mantém o controle societário da empresa por meio da holding Meridian Administração e Participações Ltda. (63.522.605/0001-62), a qual criou justamente em 5 de novembro de 2025.

Embora nem sempre seja um indício de ilícito, o recurso de criar holdings para manter o controle de empresas sem aparecer diretamente é velho conhecido das autoridades que atuam no combate à ocultação de bens e lavagem de dinheiro.

Sérgio Longen: 19 anos na presidência da Fiems

Na prática, membros da diretoria da Fiems estariam usando diversas empresas laranjas para não aparecerem nas contratações. Somente na área de tecnologia nos últimos 5 anos, os contratos concentrados em CNPJs supostamente ligados ao grupo de Sérgio Longen ultrapassariam os R$ 23 milhões com dinheiro do Sistema S.

O Jornal Midiamax inicia uma série de reportagens que apuram as denúncias envolvendo os contratos que recebem dinheiro público injetado no Sistema S em Mato Grosso do Sul com as contribuições obrigatórias dos empresários no recolhimento do INSS, além de convênios com órgãos públicos e cobrança por serviços.

Maior representante do ‘Sistema S’ em Mato Grosso do Sul, o Sistema Fiems controla a Fiems, o Ciems (Centro das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul), o Sesi (Serviço Social da Indústria), o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e o IEL (Instituto Euvaldo Lodi).

O orçamento anual do Sistema Fiems passa dos R$ 450 milhões por ano. Somente de verbas públicas, a Fiems deve receber mais de R$ 60 milhões neste ano de 2026. Não é a primeira vez que, sob a gestão de Sérgio Longen, que ocupa a presidência da Fiems há 19 anos, o uso dessa fortuna é envolto em suspeitas e denúncias.

Em 2019, Sérgio Longen chegou a ter os bens bloqueados e foi alvo de mandados de busca cumpridos pela Polícia Federal na Operação Fantoche. À época, o juiz federal Cesar Arthur Cavalcanti de Carvalho, da 4ª Vara Federal do Recife, ainda determinou a quebra de sigilo bancário do presidente da Fiems.

Crosara: de fornecedor a número 2 da Fiems

Mesmo assim, Longen teria planos de concorrer à presidência da CNI (Confederação Nacional das Indústrias). Luiz Gonzaga Crosara Júnior aparece como opção do grupo em Mato Grosso do Sul para substituir Sérgio Longen na presidência do Sistema Fiems.

Empresa de Crosara que tem sócios da Blackbird como funcionários tinha contrato de R$ 5,3 milhões com a Fiems. (Reprodução, Portal Transparência da Fiems)

Ocorre que, antes de Crosara assumir o segundo cargo mais alto na entidade dos industriários, abaixo apenas de Sérgio Longen, a Fiems mantinha contrato de R$ 5.331.873,60 com a Acto por ‘serviços de consultoria’, o qual ficou vigente até agosto de 2023, poucos meses após seu sócio, Crosara Júnior, assumir cargo na diretoria da entidade — e três meses antes da criação da Blackbird.

Conforme apurado pela reportagem, os sócios da Blackbird, Adriano Marcelo Marques Miyashiro e Ricardo Servilha Gouvea Filho, continuam trabalhando na Acto mesmo após a abertura da Blackbird.

Além de empresário, Adriano é professor universitário e mantém, em seu currículo Lattes atualizado em maio de 2026, vínculo institucional com a Acto desde 2021, afirmando ser gerente de suporte, com carga horária de 160 horas, o que significa dedicação integral, considerando uma jornada de 8 horas semanais.

Adriano afirma, em seu currículo Lattes, trabalhar em período integral na Acto, como gerente de suporte, desde 2021. (Reprodução, CNPQ, Lattes)

Seu sócio, Ricardo, atuou como representante da Acto num documento oficial na participação da empresa em licitação da prefeitura de Palmas, Tocantins, em abril deste ano. Trata-se de licitação que resultou na contratação de outra empresa pelo valor de R$ 8 milhões para desenvolver um software para a prefeitura. Apesar de possuir uma empresa que executa esse serviço, a Blackbird, Ricardo atuou para a Acto vencer esse certame.

Ricardo atuou como representante.

Menos de um ano após a abertura da Blackbird, a empresa de soluções em tecnologia conquistou contrato com o Sesi para prestar o mesmo serviço antes executado pela Acto, de ‘consultoria de desenvolvimento de software’.

No entanto, detalhes desse contrato não constam na listagem oficial de contratos disponibilizados pelo Sistema S em seu portal da transparência. Mas foi utilizado pela Blackbird para comprovar um atestado de capacidade técnica em uma licitação da Fiems.

O atestado de capacidade técnica foi emitido em outubro de 2025 pelo Sesi, informando que os serviços foram prestados nos seguintes contratos: Ordem de compra nºs: OC-SESI-2024-00307-1 / 02940 / 00327 / 00034-1 e 01341.

Tanto a Fiems como o Sesi não responderam à reportagem sobre os motivos do contrato não estar listado no Portal Transparência da entidade, bem como a forma que se deu essa contratação e valor.

Sede em vila de casas

A reportagem do Jornal Midiamax foi até o endereço que a Blackbird usou para abrir seu CNPJ e também no contrato firmado com o Sesi, na Vila Sobrinho.

Moradores de vila de casas disseram à reportagem que a Blackbird nunca funcionou no endereço. (Gabriel Maymone, Jornal Midiamax)

O local é uma residência dividida que forma uma vila de quatro pequenas casas.

Duas moradoras, que vivem lá desde 2021, afirmam nunca terem ouvido falar que já funcionou uma empresa chamada Blackbird no local.

Também afirmaram à reportagem que não conhecem Adriano ou Ricardo.

A reportagem apurou que, somente em 2026, a Blackbird mudou de endereço, ao menos oficialmente, no cadastro da Receita Federal.

Na atualização, Adriano e Ricardo informaram que seu novo endereço é um coworking — local que aluga salas para empresas — na Rua Antônio Maria Coelho, esquina com a Orla Morena.

O emblema da Blackbird indica que a empresa está funcionando em coworking, mas funcionário disse que a empresa apenas faz reuniões esporadicamente no espaço. (Gabriel Maymone, Jornal Midiamax)

A reportagem foi ao local. Na placa de entrada, onde constam as empresas parceiras, consta o logo da Blackbird.

Um funcionário informou que, de fato, a Blackbird aluga uma sala no local, mas que não é comum nenhum dos sócios aparecer por lá. A Blackbird só utiliza uma sala eventualmente para reuniões, conforme o atendente.

‘Batem ponto’ na Acto

Para tentar conversar com os sócios da Blackbird, a reportagem foi até a sede da Acto, no Veraneio.

No local, uma funcionária confirmou que Adriano e Ricardo trabalham lá, tendo inclusive comparecido a uma reunião na Acto no dia anterior.

Depois, encaminhou a reportagem para uma secretária, que não passou mais informações, limitando-se a anotar o telefone de contato da reportagem.

No entanto, Adriano e Ricardo comparecem com frequência à sede da Acto, no Jardim Veraneio. (Gabriel Maymone, Jornal Midiamax)

Nesse período em que foi criada até o momento, a Blackbird não só mudou de endereço como também alterou seu porte, passando de ME (Microempresa) para EPP (Empresa de Pequeno Porte). Basicamente, conforme a Lei Complementar n. 123/2006 (Estatuto da Micro e Pequena Empresa), a diferença se dá por faturamento anual e quantidade de funcionários.

Enquanto funcionava como ME, a Blackbird poderia declarar faturamento anual de, no máximo, R$ 360 mil, com até 9 funcionários.

Já na classificação de EPP, a empresa tem faturamento entre R$ 360 mil a até R$ 4,8 milhões por ano, podendo ter de 10 a 49 empregados.

Veja abaixo as visitas da reportagem aos dois endereços apontados como sede da Blackbird e na Acto, onde os sócios da Blackbird são vistos com frequência.

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Citado em investigação da PF

O vice-presidente da Fiems, Crosara Júnior, teria sido citado em investigação da Polícia Federal, Vox Veritatis, como o ‘gordim’ do ‘Sistema Solar’.

A alcunha seria uma referência a Crosara e apareceu durante uma conversa interceptada entre alvos de investigação sobre corrupção na Secretaria de Educação, sobre repasses de propinas. Empresário e o ex-adjunto da pasta falavam em juntar R$ 1 milhão para repassar ao ‘Sistema Solar’.

Os dois reclamavam do alto valor, quando um deles diz que “quem combinou de juntar isso foi o gordim”.

Meses após o caso vir à tona, Crosara criou uma holding, a Meridian Administração e Participações, e colocou o novo CNPJ como sócio na Acto, em vez de seu próprio nome.

Questionado sobre o surgimento de um apelido atribuído a ele nas investigações de corrupção, Crosara Júnior não negou. Mas diz que, até o momento, nunca foi procurado pelas autoridades. “Vi essa situação na investigação, mas nunca fui procurado formalmente para prestar nenhum esclarecimento.”

Sobre a saída de pessoa física para incluir uma holding em seu nome no quadro societário da Acto meses após a investigação da PF vir à tona, o vice-presidente da Fiems afirmou não ter “nenhuma relação” e que a mudança seria somente uma “reestruturação contábil”.

Crosara diz que Blackbird é ‘fornecedora’ da Acto

Sem responder especificamente sobre a denúncia de que a Blackbird teria sido criada como ‘laranja’ para manter os contratos da Actos sob controle dele, Crosara Júnior disse à reportagem que não tem ‘nenhum vínculo’ com Adriano e Ricardo.

Mas ele se contradiz ao admitir que os dois prestam serviços de ‘mão de obra específica’ na Acto. Questionado sobre ter conhecimento de que os dois são sócios da Blackbird, Crosara confirma e reforça o entrelaçamento entre os CNPJs. “A empresa é fornecedora da Acto”, minimiza.

A reportagem questionou se o contrato firmado entre a Blackbird e o Sesi foi firmado com influência dele, mas Crosara negou, limitando-se a dizer: “Nenhuma influência”.

Licitação cancelada

Em outubro de 2025, a Fiems abriu licitação milionária para serviço de tecnologia, especificamente os serviços prestados pela Blackbird como RPA e desenvolvimento de sistemas ERP Microsoft Dynamics.

Na ocasião, a Blackbird sagrou-se vencedora, com a proposta de R$ 1.489.996,80, sendo a única empresa de Mato Grosso do Sul a se interessar pelo serviço. As outras concorrentes foram a Mesha Tecnologia, de Alagoas, e Iunex Soluções, de .

Licitação foi cancelada quatro meses após abertura. (Reprodução, Portal da Transparência Fiems)

Porém, o certame foi cancelado após um recurso apresentado no decorrer do processo licitatório. Conforme a justificativa apresentada na documentação oficial do certame pela Fiems, em março de 2026, o motivo foi porque passou muito tempo e o serviço de R$ 1,4 milhão já não seria mais tão necessário.

Conforme previsto no subitem 20.10 do edital, o processo em referência está cancelado em razão do lapso temporal decorrido desde a instauração do processo, o qual impactou às necessidades. Ressaltamos que, em função desse intervalo de tempo, foram identificadas novas demandas e a necessidade de inclusão de itens relevantes, com o objetivo de aprimorar o escopo, garantir maior aderência técnica, elevar a eficiência do processo e assegurar melhores resultados“.

A entidade até justificou às empresas interessadas que estaria avaliando a abertura de uma nova licitação, o que não ocorreu até o momento.

Fiems e Sesi se calam sobre suspeitas

A reportagem tentou, ao longo da última semana, obter o posicionamento da Fiems e do Sesi sobre o caso. Em e-mails devidamente registrados e encaminhados com cópia ao jurídico da Federação, o Jornal Midiamax mantém o canal aberto, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

‘Entregamos todos os serviços’, diz sócio da Blackbird

A reportagem tentou contato telefônico com Ricardo Gouvea, mas ele disse que não poderia falar e preferiu responder às perguntas por mensagens.

Ele disse não “compreender o contexto ou as conjecturas que motivaram os questionamentos” sobre a denúncia de que a Blackbird seria laranja de Crosara. No entanto, sem informar valores ou detalhes, confirmou o contrato com o Sesi, que durou “poucos meses, no âmbito do qual entregamos todos os serviços em perfeita conformidade técnica”.

Em nota enviada à reportagem, o sócio da Blackbird não respondeu sobre a ligação com Crosara ou a influência do diretor da Acto no contrato com o Sesi, e também preferiu não comentar sobre a primeira sede ser numa vila de casas em que vizinhos afirmaram desconhecer a existência da empresa no local. Ainda, não quis informar onde, de fato, os serviços prestados pela Blackbird seriam realizados.

Confira a nota do ‘dono’ da Blackbird:

Sinceramente, não compreendo o contexto nem as conjecturas que motivaram os questionamentos. O que de fato existiu, e que esclareço com tranquilidade foi um contrato com a federação, de poucos meses, no âmbito do qual entregamos todos os serviços em perfeita conformidade técnica.
Esclareço, ainda, que os números de faturamento atribuídos à empresa não correspondem à realidade e sequer sei de onde tal informação foi extraída.
Faço, por fim, um registro. O Mato Grosso do Sul tem pouquíssimos profissionais de tecnologia, e foi nesse mercado pequeno, no qual os nomes naturalmente se cruzam, que construí minha carreira como jovem empreendedor, na base do esforço e da entrega técnica. Vejo com serenidade, mas também com algum pesar, a tentativa de extrair suspeita de uma trajetória que é apenas fruto de trabalho honesto, meu e do meu sócio. Confio que a matéria não divulgará nenhuma inverdade sobre a honestidade do meu trabalho e da minha empresa , e solicito que este esclarecimento seja reproduzido na íntegra por gentileza. Estou trabalhando muito para conseguir empreender e ter sucesso na vida e qualquer falsa acusação feita poderá trazer prejuízos irreparáveis para a minha vida
.”

A Acto também foi oficialmente questionada como empresa sobre o caso e também não houve retorno. O espaço segue aberto para posicionamentos que serão imediatamente levados ao nosso público assim que recebidos.

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(Revisão: Dáfini Lisboa)

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