Ônibus pegando fogo, quebrando no meio da rua e deixando dezenas de passageiros ‘na mão’, além de terminais com falta de manutenção e reforma: esse é o cenário entregue aos campo-grandenses após uma era de 14 anos em que o Consórcio Guaicurus esteve à frente do transporte coletivo em Campo Grande e relatado diariamente pelo Jornal Midiamax ao longo dos últimos anos.
Desde o ano passado, com a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Câmara dos Vereadores, a situação dos empresários começou a afunilar. A conclusão dos trabalhos e a exposição da situação precária do transporte coletivo — então documentada, mas vista diariamente pela população de Campo Grande há anos — aumentaram a pressão para o lado do Consórcio Guaicurus.
O relatório da CPI mostrou que o conglomerado formado em 2012 para monopolizar o serviço do transporte coletivo da Capital descumpria reiteradamente o contrato de concessão, como deixando de renovar a frota, de fazer manutenção e atrasos constantes. Tudo isso enquanto recebia quantias vultuosas para realizar os serviços, além de benefícios fiscais.

Venda da operação
Grupo que deteve a concessão milionária na Capital vendeu as empresas ao grupo HP Mobilidade, que tem sede em Goiás, segundo confirmou a prefeita Adriane Lopes (PP), na tarde desta terça-feira (21).
A prefeitura ainda precisa validar a transição, mas a prefeita Adriane Lopes (PP) adiantou que vai avaliar a proposta da HP Mobilidade e vê com bons olhos a mudança. O Jornal Midiamax antecipou que os rumores de venda já rondavam os corredores do Consórcio Guaicurus desde abril.
Em nota, o Consórcio Guaicurus confirmou que o contrato de compra e venda de quotas e outras avenças para a aquisição das quatro empresas que operam o SIT (Sistema Integrado de Transporte) de Campo Grande (Viação Cidade Morena, Jaguar Transportes Urbanos, Viação Campo Grande e Viação São Francisco) foi fechado no último dia 18 de julho.
Sucatamento da frota
A principal consequência sentida pelos campo-grandenses nos anos de descumprimento é o estado crítico dos veículos. Reportagens do Jornal Midiamax mostram que o consórcio ignorava sistematicamente a renovação obrigatória dos ônibus.
Conforme tabela de 26 de abril deste ano, o Consórcio Guaicurus mantém circulando nas ruas de Campo Grande 12 ônibus fabricados em 2010 — antes mesmo do início das operações da concessionária. Ou seja, veículos com 16 anos de ‘idade’ seguem ativos e causando transtornos diários aos passageiros.
O contrato prevê que a idade média da frota seja de cinco anos, com possibilidade de haver ônibus com, no máximo, dez anos de fabricação em circulação — desde que a idade média seja 5. Atualmente, a idade média é de 10 anos, conforme a Agetran.

Multiplicam-se os registros em vídeo de ônibus do consórcio quebrando no meio do trajeto, bloqueando cruzamentos importantes da capital e obrigando os passageiros a finalizarem suas rotas a pé — ou esperarem a troca do coletivo, atrasando a ida ao trabalho.
Em janeiro deste ano, a Prefeitura de Campo Grande mandou o Consórcio Guaicurus trocar pelo menos 197 ônibus das ruas da Capital. Mesmo recebendo isenções fiscais e subsídios milionários, e sendo multada por descumprimentos de contrato, há mais de um ano a empresa não oferecia novos veículos aos seus usuários.
Atrasos e inspeções reprovadas
Relatório que levou a prefeitura a decretar a intervenção levou em conta, dentre outros motivos, as mais de 15 mil ocorrências por descumprimento de horário e por omissões de viagens, conforme registros da Agetran (Agência de Transporte e Trânsito de Campo Grande).
Dentre as 31 páginas de exposição, a comissão criada em março também elenca como agravante o índice de reprovação nas inspeções de segurança veicular. Segundo apontado, os dados evidenciaram o agravamento da situação, passando de 5,4% em 2020 a 18,6% em 2025.
“[…] no agregado do período (agosto de 2020 a março de 2026), das 2.771 inspeções realizadas, 299 resultaram em reprovação por não conformidades técnicas. A conjugação do envelhecimento da frota com o aumento das reprovações revela a deterioração progressiva das condições mínimas operacionais”, traz o documento.

Lucro bilionário vs Rombo nos cofres
Apesar das recorrentes alegações de crise financeira por parte dos empresários, inclusive reiteradas enquanto tentava negociar a venda, dados auditados e noticiados pela reportagem mostram uma realidade muito diferente.
Uma perícia técnica apontou que, entre 2013 e 2024, as empresas de ônibus arrecadaram R$ 1,8 bilhão. Mesmo durante a pandemia, o consórcio manteve um lucro líquido superior a R$ 27 milhões — e, ainda assim, recusou-se a renovar a frota, alegando falta de recursos.
O levantamento ainda apontou que, apesar de alegar queda da receita durante a pandemia, o Consórcio Guaicurus conseguiu manter lucro líquido — ou seja, pagar todas as despesas e ainda sobrar dinheiro em caixa. O valor líquido embolsado no período foi de R$ 27.283.132,78.
Além disso, a concessionária utiliza frequentemente a ameaça de colapso para forçar o aumento da “tarifa técnica” (o valor real recebido por passageiro), exigindo reajustes milionários da prefeitura de Campo Grande. O Consórcio Guaicurus utilizaria greves para forçar a ação do Executivo Municipal.
Delator expôs fraude no Consórcio Guaicurus
Em abril de 2023, o Jornal Midiamax obteve com exclusividade uma delação do advogado Sacha Reck, que expôs fraude para direcionar a licitação do contrato milionário do transporte coletivo urbano para o Consórcio Guaicurus.
A suposta fraude foi detalhada pelo advogado, que ajudou os empresários, em acordo de colaboração com o Ministério Público do Paraná, que se tornou público em 2017. Um dos responsáveis pela formação do Consórcio Guaicurus, o advogado paranaense confirmou que houve direcionamento na licitação do contrato dos ônibus de Campo Grande, realizada em 2012, no final da gestão de Nelson Trad Filho (PSD) como prefeito.

Na delação, Reck relata que atuou na capital de Mato Grosso do Sul com o mesmo esquema utilizado em diversas cidades do país para fraudar licitações dos serviços de ônibus em cidades brasileiras.
De acordo com investigações do Ministério Público do Paraná, o esquema funcionava de modo que tudo era combinado entre empresários, advogados e funcionários públicos. Eles definiam em conjunto como seria o texto dos editais de licitação para garantir a vitória das empresas que faziam parte da fraude.
Para confirmar as fraudes descobertas, a procuradora relembrou como o MP do Paraná identificou a organização criminosa integrada por empresários do ramo de transporte coletivo que direcionavam as licitações.

A CPI que não terminou em pizza
Em 2017, uma primeira tentativa de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) foi feita na Câmara Municipal. Porém, o pedido não prosperou. A falta de qualidade do serviço foi se agravando, com ônibus quebrados e atrasados. A pandemia de covid-19, a partir de 2020, piorou a situação.
Em 2022, para evitar uma greve de motoristas, a Prefeitura firmou um acordo para financiar a concessionária. Nesses quatro anos, os repasses chegaram a R$ 70 milhões e incluíram até aporte do Governo do Estado.
Três anos depois, a Câmara finalmente instalou uma CPI, finalizada em setembro de 2025. Os vereadores concluíram o que a população já via: o Consórcio perdeu as condições de atuar e deveria sofrer intervenção.
A CPI registrou quase 300 denúncias feitas diretamente por usuários. As reclamações envolvem desde a falta de manutenção básica até o mau comportamento de motoristas que passam direto pelos pontos.
Sabe de algo que o público precisa saber? Fala pro Midiamax!
Se você está por dentro de alguma informação que acha importante o público saber, fale com jornalistas do Jornal Midiamax!
E você pode ficar tranquilo, porque nós garantimos total sigilo da fonte, conforme a Constituição Brasileira.
Fala Povo: O leitor pode falar direto no WhatsApp do Jornal Midiamax pelo número (67) 99207-4330. O canal de comunicação serve para os leitores falarem com os jornalistas. Se preferir, você também pode falar com o Jornal direto no Messenger do Facebook.







